Deus É Brasileiro

26/09/2003 | Categoria: Críticas

Cacá Diegues filma cartão postal do Brasil para turistas, travestido de road movie tropical

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O cinema produzido no Brasil em 2002 tem sistematicamente quebrado o segundo mandamento – não usar o nome de Deus em vão. No caso de “Cidade de Deus”, a estratégia deu certo: o filme provocou um tremendo debate estético-político que envolveu toda a crítica, levou mais de três milhões de pessoas às salas de projeção e concorreu a um dos prêmio mais prestigiosos de Hollywood, o Globo de Ouro. Já o novo filme de Cacá Diegues, “Deus é Brasileiro” (Brasil, 2003), não teve ressonância junto aos especialistas, apesar do grande sucesso de público. O motivo é simples: o filme marca mais um ponto negativo na carreira de Diegues.

A rigor, “Deus é Brasileiro” completa, junto com Tieta e Orfeu, uma espécie de trilogia informal de estilização (ou seria esterilização?) que o diretor de “Ganga Zumba” anda tentando fazer com a cultura nacional. O filme, que tem os astros globais Antonio Fagundes e Paloma Duarte em papéis centrais, se propõe a ser uma espécie de road movie por diferentes pólos geográficos-culturais de terras nacionais. Nada de errado com o conceito; o problema está nos excessos. Usando clichês visuais, estilísticos, de roteiro e de atuação, Diegues reelabora e superficializa a cultura nacional. O Brasil que emerge na telona não é o mesmo que conhecemos, mas um paraíso para turistas, um território idealizado onde até mesmo a miséria é engraçada.

É possível dizer, na verdade, que existe um parentesco óbvio entre as duas produção que levam Deus no nome, apesar de parecerem opostas. Ambos são produtos que buscam abrir uma janela para que a classe média e a platéia estrangeiro posso olhar para dentro da periferia nacional, onde o acesso é restrito (e perigoso). Nesse sentido, ao celebrar os encantos das paisagens tupiniquins, “Deus É Brasileiro” prova ser o outro lado da moeda de “Cidade de Deus”. O filma perece gritar: “somos pobres e violentos, mas olha só como temos cultura e natureza!”. Seria louvável, se a tônica do filme não fosse uma repetição infindável de clichês, incluindo filtros de cor que alteram e superdimensionam as imagens originais que vemos na tela.

“Deus é Brasileiro” comprova, mais uma vez, que a excelência de grandes nomes envolvidos na produção de um filme jamais garante a qualidade do produto final. Vale lembrar que, além de Diegues e Fagundes, o escritor João Ubaldo Ribeiro ajudou no roteiro, baseado em livro da própria autoria. Os excessos do filme começam pelo próprio argumento, que explora mais uma vez o surrado realismo mágico de escritores como Gabriel Garcia Marques. Deus (Antonio Fagundes) aparece para um pescador afundado em dívidas, Taoca (Wagner Moura), em pleno mar de Aracaju. O Todo Poderoso está em busca de um tal Quinca das Mulas (Bruce Gomenski), um idealista ferrenho que mora na capital sergipana. O pai de Cristo, cansado das injustiças cometidas pelos homens, decidiu tirar férias e anda em busca de um homem santo para ocupar o lugar no Paraíso. Juntos, os dois empreendem uma busca incessante, que os leva a lugares díspares, como Brasília Teimosa, no Recife, e Jalapão, no Tocantins, além de uma rápida passagem pelo sertão.

Tudo isso poderia funcionar, se não fossem os benditos (ou malditos) excessos. A fotografia, repleta de filtros azuis e laranjas, transforma o nordeste num grande painel de cartões postais. dispostos numa estufa com ar-condicionado onde nunca faz calor. A direção de atores também falha, deixando Paloma Duarte com um olhar altivo que jamais combina com o jeito de uma humilde nordestina, e permitindo a Antonio Fagundes interpretar um Criador irado, que parece ser ter sido decalcado do Deus vingativo do Velho Testamento, mas que aprende com os homens a ter piedade e humor (?). Já o roteiro explora os arquétipos nordestinos (Taoca é uma cópia do anti-herói João Grilo, do “Auto da Compadecida”) de forma pouco inspirada. Vale a interpretação esforça do bom Wagner Moura.

Moura comparece entre os muitos entrevistados, no documentário de bastidores que acompanha o DVD. Um comentário em áudio (algo raro nos DVDs produzidos no Brasil) de Cacá Diegues é, contudo, o grande atrativo entre os extras do disco. Material de rotina, mas bem produzido.

Deus é Brasileiro (idem, Brasil, 2003)
Direção: Cacá Diegues
Elenco: Antonio Fagundes, Paloma Duarte, Wagner Moura
Duração: 115 minutos

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