Deus e o Diabo na Terra do Sol

22/09/2003 | Categoria: Críticas

Longa de 1964 encabeça fila de lançamentos de grandes filmes produzidor por Glauber Rocha

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Brasileiro não tem memória. Esse clichê, repetido à exaustão, mostra-se preciso quando se fala da história do cinema nacional. As cinematecas de São Paulo e do Rio de Janeiro, os dois órgãos de preservação de filmes mais importantes do Brasil, vivem em crise. Historiadores estimam que 50% de toda a produção fílmica nacional já se perdeu, por falta de conservação. Duas duas primeiras décadas do século XX, nada sobrou. Mas eis que o formato de DVD acena com boas notícias. A distribuição digital de películas criou um nicho de mercado antes inexistente. O lançamento do clássico “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (Brasil, 1964), de Glauber Rocha, promete virar marco nesse sentido.

Não são poucos os estudiosos de cinema que consideram a película como a mais importante já produzida no Brasil. Para se ter idéia da sua importância, basta dizer que Francis Ford Coppola o coloca entre os dez melhores filmes da história do cinema. Martin Scorsese prefere “Terra em Transe”, mas também não economiza em elogios. O problema é que a obra de Gláuber permanece até hoje divorciada do público. Os filmes do cineasta baiano, falecido em 1981, não estão nas locadoras. Como a maioria esmagadora da produção nacional pré-anos 80, esses filmes estavam fadados ao esquecimento. A edição em DVD de “Deus e o Diabo” deve mudar esse panorama.

O DVD duplo é um deleite para admiradores e uma fonte inesgotável de conhecimento para os leigos no trabalho de Gláuber. Feito com verba de R$ 70 mil, captada com ajuda da Lei Rouanet, o pacote está dividido em dois discos. O primeiro traz o filme, com som e imagens restaurados, e dois comentários em áudio, gravados pelos professores Ismail Xavier (USP) e Ivana Bentes (UFRJ), especialistas na obra do maior nome do Cinema Novo. O disco 2 possui mais de três horas de depoimentos (os atores Othon Bastos e Yoná Magalhães, o crítico José Carlos Avellar, o pesquisador Altamiro Carrilho, a mãe de Glauber) e um acervo de 200 fotos de bastidores, além reproduções dos cartazes e do roteiro, com anotações feitas à mão e desenhos do próprio diretor.

O lançamento de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” acontece num momento crucial do cinema brasileiro, que finalmente começa a abrir espaço (à força) para a criação de um mercado próprio. O filme de Glauber Rocha chega para pôr lenha num debate, de caráter estético, que tem provocado críticos e pesquisadores, a partir do lançamento de “Cidade de Deus”. Os detratores do megasucesso de Fernando Meirelles buscam nas imagens duras e realistas do cinema de Glauber um motivo para acusar a produção recente de maquiar, transformam a realidade decrépita da periferia nacional em espetáculo de horror para gringo ver. Essa briga, felizmente, é desprezada pelo material extra contido nos discos. Melhor mesmo deixar que o espectador tenha sua opinião.

Mesmo assim, é possível perceber que a estética de “Deus e o Diabo”, uma estética inspirada nos folhetos de cordel, tem pouco ou nada a ver com a produção cinematográfica brasileira recente. Um dos detalhes que sempre chamaram a atenção no filme, e que ressurge com força total a partir da excelente restauração de imagens a que foi submetida a película original, é justamente a fotografia, que capta a luz desoladora do sertão de forma abrasiva e desconfortável. Houve até quem visse influências do impressionismo alemão na obra, por causa do forte contraste de luz estourada e sombras violentas. A intenção de Glauber, porém, era outra. Era recriar com naturalidade o ambiente esturricado da região.

Na trama, passada no sertão nordestino, um sertanejo mata o patrão e foge para a caatinga, encontrando no caminho um pregador místico ao estilo de Antônio Conselheiro e depois um grupo de cangaceiros. Trata-se de uma alegoria enriquecida por uma trilha sonora regionalíssima e por interpretações seguras (o destaque vai para Othon Bastos, que brilha especialmente numa seqüência onde interpreta, simbolicamente e sem cortes, os cangaceiros Corisco e Lampião). “Deus e o Diabo” representa a visão da classe média engajada diante da miséria brasileira. Embora a carga ideológica e estilística tenha afastado o público dos cinemas, isso não retira da obra nenhum mílimetro de vigor e criatividade.

– Deus e o Diabo na Terra do Sol (Brasil, 1964)
Direção: Glauber Rocha
Elenco: Othon Bastos, Yoná Magalhães, Geraldo Del Rey, Maurício do Valle
Duração: 125 minutos

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