Devorador de Pecados

19/03/2004 | Categoria: Críticas

Time responsável por ‘Coração de Cavaleiro’ dá tratamento superficial a lenda medieval interessante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O ‘devorador de pecados’ é um figura lendária cujo surgimento data da Idade Média. Por volta do século XII, quando a Igreja Católica promovia excomunhões com freqüência, essas pessoas eram contratadas por moribundos para “assumir” as falhas mundanas destes. Eram sujeitos míticos, com pretensos poderes sobrenaturais, que promoviam rituais, envolvendo pão e sal, com o objetivo de “herdar” os pecados dos excomungados. Nessa espécie de extrema-unção pagã, os doentes “vendiam” os erros cometidos em vida aos míticos personagens, podendo assim evitar o inferno. Com o passar dos séculos, muitos povos europeus passaram a acreditar na existência de seres imortais que tivessem a capacidade real de “devorar” pecados. Essa lenda é resgatada no suspense “Devorador de Pecados” (The Sin Eater, EUA, 2003), do cineasta Brian Helgeland.

Toda a equipe criativa do filme é a mesma que protagonizou “Coração de Cavaleiro”, uma espécie de “Gladiador” para adolescentes. O próprio Helgeland (que produz, escreve e dirige a película) e os atores Heath Ledger, Mark Addy e Shanny Sossamon estão, de novo, reunidos. Fazem, dessa vez, um filme bem diferente e, ao mesmo tempo, curiosamente semelhante ao antecessor. Diferente porque “Devorador de Pecados”, como o tema indica, é mais sombrio e mais pesado. Por outro lado, promove o mesmo tratamento superficial de um tema rico, que poderia originar um grande filme B e render uma bela homenagem a longas inesquecíveis, como a trilogia “A Profecia”, que tratava do nascimento do anti-cristo. Se havia essa intenção no projeto, contudo, ela se perde nos meandros de um roteiro apagado, que tem poucos momentos inspirados e prefere apostar em efeitos especiais do que na capacidade de assustar e/ou intrigar o espectador.

Para começar, a linhagem de filmes em que “Devorador de Pecados” vai beber pertence, com orgulho assumido, às produções de baixo orçamento, que os estúdios de Hollywood entregavam a diretores iniciantes, nas décadas passadas. Filmes que retratam lendas de figuras imortais passeando entre os humanos só funcionam quando optam por um estilo visual sujo, simples, sem se levar muito a sério. “A Profecia” era assim – e permanece como o mais bem acabado produto do gênero. Os mais recentes “A Sétima Profecia” (com Demi Moore, bem antes da malhação) e “Dogma” (comédia de Kevin Smith) fazem a mesma coisa, apenas investindo em gêneros diferentes, como terror e comédia. O problema do filme de Brian Helgeland é que ele confundiu ‘estilo’ com ‘gênero’. Fez um filme de suspense, exagerou no visual gótico e deu um jeito de acrescentar efeitos digitais bobos, esquecendo de colocar uma pitada de nonsense. Ele também deixa de investir no clima de suspense, o que empobrece a narrativa.

Na verdade, o cineasta cometeu um erro grave que compromete o trabalho: optou por fazer um filme de personagens, mas não desenvolveu composições bem definidas para eles. No começo do filme, somos apresentados ao jovem padre Alex Bernier (Heath Ledger). Ele mora em Nova York e pertence a uma ordem quase extinta da Igreja Católica. Uma seita radical, que ainda reza missas em latim e de costas para os fiéis. Bernier é enviado, pelo cardeal Driscoll (Peter Weller, o eterno RoboCop), a Roma. Lá, ele deve investigar a misteriosa morte de Dominic (Francesco Carnelluti), o padre que lhe serviu como mentor. Occore que ele viaja acompanhado da artista plástica Mara (Sossamon), uma garota com quem compartilha uma atração mútua. Mas espera aí: um padre linha dura que tem uma pretendente a namorada?

De qualquer modo, em pouco mais de 20 minutos, a investigação de Bernier leva a um misterioso sujeito, que pode ser um “devorador de pecados” verdadeiro – uma espécie de Deus caminhando sobre a Terra. Apesar do vacilo da construção do personagem de Ledger, os primeiros minutos até prometem. Mas aí Helgeland começa a errar. Ao invés de criar um suspense gótico, aproveitando as belas locações em Roma, e transformar o padre em detetive, ele prefere revelar logo o caráter sobrenatural da trama, desvendando o mistério rapidamente e movendo o foco narrativo do trabalho para as relações entre os personagens.

Essa estratégia dilui completamente o suspense e revela-se a pior opção, pois Mara e o padre Thomas Garrett (Addy), que ajuda Alex, são coadjuvantes mal construídos. Ela possui um passado turbulento mas jamais explicado de forma convincente, enquanto ele vocifera palavrões como um torcedor de futebol inglês. Os diálogos são infantis. Além disso, ainda há uma subtrama que envolve um Papa Negro (de identidade pretensamente desconhecida), que enforca anônimos no porão de uma boate. É uma trama dispensável e mal explicada, o que rouba o resto da credibilidade do longa.

Um dos poucos méritos de “Devorador de Pecados” está na tensão entre Ledger e o personagem do ator alemão Benno Fürmann, que assume um tom caricatural no papel da criatura mítica. Peter Weller também parece estar se divertindo como o cardeal Driscoll – o ator mora na Itália e tem mestrado em História da Renascença na Universidade de Florença, onde ensina. Há ainda um final interessante, que foge um pouco do lugar-comum que a produção trilha durante os 102 minutos de duração. No final das contas, “Devorador de Pecados” poderia ser bem melhor, se Helgeland tivesse menos ambição e tentasse somente prestar uma homenagem sincera aos filmes B. Ou seja, é o típico caso do passo maior do que as pernas.

– Devorador de Pecados (The Sin Eater, EUA, 2003)
Direção: Brian Helgeland
Elenco: Heath Ledger, Mark Addy, Shannyn Sossamon, Peter Weller
Duração: 102 minutos

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