Dexter – 1ª Temporada

17/03/2008 | Categoria: Críticas

Um serial killer que só mata serial killers: premissa é o ponto forte da elogiada minissérie em doze partes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Dexter Morgan (Michael C. Hall) é perito forense da polícia de Miami (EUA). Ele possui duas especialidades profissionais. Uma, que pratica à luz do dia, é a habilidade afiada para desvendar cenas de crimes a partir da análise das manchas de sangue. A outra, que ninguém conhece, é a compulsão por matar. Dexter é um serial killer que, com a ajuda do pai adotivo, criou para si próprio um código de conduta moral. Foi por isso que ele entrou para a polícia: para investigar, identificar e exterminar outros serial killers. Este homem jovem e bonito, que se esforça horrores para esconder uma absoluta ausência de emoções, é o protagonista da elogiada série “Dexter”, lançada com sucesso nos Estados Unidos em 2006.

Em tese, o programa poderia ser descrito como um cruzamento de “C.S.I.” com “O Silêncio dos Inocentes”, mas na prática vai bem além disso. A maior qualidade do seriado, baseado em uma série de livros escrita pelo romancista Jeff Lindsay, é a complexidade mortal inusitada do protagonista. Dexter está longe do perfil de herói que, em geral, cerca os personagens mais importantes das séries de TV norte-americanas. Por outro lado, o charme cativante do personagem e sua agonia diária, seu esforço hercúleo para criar uma fachada cada vez mais perfeita que permita esconder seu lado negro, permitem à platéia criar com ele um laço inegável de empatia – todos nós temos lados negros que gostaríamos de esconder, certo? Rico e inusitado em seus dilemas morais, Dexter é um personagem fascinante justamente porque sua humanidade reside na luta para esconder uma completa falta de humanidade.

Como é exibida em um canal de TV paga, “Dexter” faz parte das chamadas séries de primavera, cujas temporadas começam seis meses depois (ou antes, conforme o cálculo que você quiser fazer) do normal. Por isso, a primeira temporada tem só doze episódios, mais ou menos a metade de uma série tradicional. A galeria de personagens inclui todas as pessoas que gravitam ao redor do personagem: detetives e peritos que trabalham na mesma delegacia, a irmã policial desbocada (Jennifer Carpenter), a namorada problemática (Julie Benz). Esta última é um achado dos roteiristas: traumatizada por sucessivos espancamentos e estupros do ex-marido drogado, ela não quer sexo nem pintada de ouro, o que representa um alívio para Dexter, que não gosta de absolutamente nada que não seja matar.

Um ponto positivo da série é que ela, provavelmente para manter o interesse dramático e não reduzir o programa a um thriller esticado, reserva bastante tempo em cada episódio para enfocar problemas pessoais dos personagens. Um dos detetives (David Zayas) está em busca da reconciliação após ter traído a esposa, a tenente negra (Lauren Vélez) luta para se manter no cargo enquanto dá em cima de Dexter, o sargento pentelho (Erik King) se vê às voltas com a acusação de ter matado um suspeito, e assim por diante. Todos são personagens razoavelmente bem desenvolvidos, o que dá uma dinâmica agradável à série como um todo. Além disso, na segunda metade da temporada, o próprio protagonista começa a desenvolver sentimentos ambivalentes sobre tudo, e questionar as próprias neuroses e obsessões.

O fio condutor da série é a caça a um misterioso matador, chamado Assassino do Caminhão de Gelo, que tem o péssimo hábito de fatiar prostitutas em pedaços depois de drenar todo o sangue do corpo. O sujeito, cuja identidade permanece obscura durante quase toda a temporada, conhece os hábitos secretos de Dexter e costuma mandar recadinhos sarcásticos para ele, o que põe em cheque a sobrevivência do lado secreto do agente matador. Embora seja limpinha demais, com aquela fotografia brilhante, de plástico, típica de soap opera, e tenha um lado thriller um tanto burocrático, o seriado consegue ser um programa acima da média, graças aos bons personagens e à excelente atuação do ator Michael C. Hall.

Além disso, os conflitos cômico-trágicos em que o personagem se enfia, involuntariamente, cada vez que precisa ajustar sua vida a um novo imprevisto, garantem o humor sardônico. Não à toa, os melhores momentos de “Dexter” envolvem o namoro excêntrico do protagonista e seu envolvimento emocional com os dois filhos pequenos da namorada – como qualquer sujeito com sentimentos psicopatas, ele só se sente realmente à vontade com crianças, já que emocionalmente jamais chegou à idade adulta. A série não tem a ousadia e a complexidade de “Os Sopranos”, e nem a inteligência de “Lost”, mas merece uma conferida atenta.

A caixa da Paramount tem quatro discos, com qualidade boa de imagem (widescreen 1.78:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Ela vem com alguns extras, inclusive dois comentários em áudio, episódios de outras séries do canal Showtime, dois capítulos do terceiro livro da série para download e um featurette sobre um caso real em que o trabalho de análise dos padrões de sangue na cena do crime ajudou a apontar o culpado.

– Dexter – 1ª Temporada (Dexter Season One, EUA, 2007)
Produção: James Manos Jr.
Elenco: Michael C. Hall, Jennifer Carpenter, Julie Benz, Lauren Vélez
Duração: 650 minutos

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