Dia da Besta, O

22/06/2006 | Categoria: Críticas

Alex de la Iglesia mistura horror católico e humor politicamente incorreto em filme divertido e assustador

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O nascimento do Anticristo é um tema clássico do subgênero dos filmes de horror que têm pano de fundo católico. Dentro desta temática específica, o mais conhecido longa-metragem é o clássico B “A Profecia”, feito em 1976 e refilmado 30 anos depois. O espanhol “O Dia da Besta” (El Dia de la Bestia, Espanha/Itália, 1995) investe em um enredo parecido, mas com um tom completamente diferente: uma mistura bem dosada de elementos do horror clássico com comédia satírica e toques de crítica social. O resultado é um filme original, inteligente, muito divertido e, em pelo menos dois momentos-chave, bastante assustador.

Grande parte das qualidades do longa-metragem vem do excelente roteiro, co-assinado pelo diretor Alex de la Iglesia e pelo parceiro Jorge Guerricaechevarría. Os dois conseguiram bolar uma impagável galeria de personagens e uma história tão surreal quanto intrigante. Ela gira em torno de um estudioso do Apocalipse que descobre a data do nascimento do filho do Demônio: a noite de Natal de 1995. O padre Ángel Beriartúa (Alex Angulo) acredita que os atos de vandalismo repetidos todas as noites por baderneiros em Madri são um dos sinais de que o macabro nascimento ocorrerá na cidade espanhola.

Para descobrir o local exato, ele decide cometer todos os tipos de pecado e se passar por satanista; assim, acha que pode matar o Anticristo ainda no berço. Com essa intenção, se une ao cabeludo dono de uma loja de discos de heavy metal (Santiago Segura) e a um relutante apresentador de TV picareta (Armando De Razza) para investigar o caso. A história bolada pelos roteiristas recheia a produção com referências sutis a grandes filmes do gênero. Além do óbvio “A Profecia”, que inspirou até mesmo o cartaz da produção, há uma seqüência importante que homenageia “O Exorcista”.

A trama, conduzida com mão firme, funciona como uma incursão bizarra ao submundo da noite de Madri. Uma grande sacada de Iglesia foi incorporar, durante a progressão da história, alguns elementos que aparentemente não têm importância. Assim, detalhes que parecem ter funções específicas durante uma única cena são recuperados mais à frente para compor um todo coeso. Em outras palavras, esses elementos não são esquecidos pelo diretor, que os utiliza para amarrar tudo em uma história sólida. A estratégia também torna o desenrolar da trama menos previsível do que o habitual.

Um bom exemplo da técnica está na personagem Rosário (Terele Pávez), a empregada desligada da pensão vagabunda. Quando ela aparece pela primeira vez, dá a impressão de que vai servir, dentro da história, apenas como elemento cômico, para provocar algumas risadas aqui e ali. Longe disto: em determinado momento, o padre Ángel necessita de sangue de uma mulher virgem para uma cerimônia satânica, e logo percebe que há uma boa chance de que a ingênua serviçal possa estar se guardando para o futuro marido, o que rende uma seqüência engraçadíssima, e fundamental para a história.

Outro exemplo da técnica é o grupo de vândalos que aparece nos noticiários da TV, cometendo assaltos violentos e pichações pela cidade espanhola. Os vândalos aparecem de soslaio em diversos instantes, mas dão a impressão apenas de fornecer um motivo para que o teólogo interprete Madri como o local do nascimento do Anticristo. No entanto, os violentos marginais acabam assumindo, repentinamente, um papel importante na trama quando o filme chega ao clímax – que, aliás, culmina em uma seqüência que consegue ser, ao mesmo tempo, delirante, engraçada e assustadora.

Como se não bastasse, Iglesia não desperdiça a chance de fazer uma bem engendrada crítica social, mostrando a vida dura de quem mora na periferia das grandes metrópoles, alfinetando ainda os programas sensacionalistas de TV. Para quem gosta de humor politicamente incorreto, o filme é um prato cheio – e as imagens do padre Ángel roubando esmolas de um cego ou tomando ácido são deliciosas. No fim das contas, “O Dia da Besta” é um filme original, um dos melhores exemplos de como é possível injetar humor satírico em uma história de horror, mantendo os pontos altos dos dois estilos de filme.

Infelizmente, a produção não ganhou lançamento em DVD no Brasil. É possível encontrá-lo em cópias VHS legendas e dubladas, mas com cortes laterais na imagem que prejudicam a criativa fotografia. Melhor opção é dar uma olhada no DVD importado da Região 2 (Europa), que traz o filme na proporção correta (wide 1.85:1), tem som OK (Dolby Digital 2.0) e traz making of e entrevistas como extras.

– O Dia da Besta (El Dia de la Bestia, Espanha/Itália, 1995)
Direção: Alex de la Iglesia
Elenco: Alex Angulo, Armando de Razza, Santiago Segura, Terele Pávez
Duração: 103 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »