Dia da Desforra, O

12/05/2009 | Categoria: Críticas

Graças ao uso de humor e montagem dinâmica, filme de Sergio Sollima agrada em cheio aos fãs de faroestes italianos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O mais célebre fanático por faroestes espaguete, Quentin Tarantino, não se cansa de louvar a boa qualidade dos cineastas italianos (e espanhóis) que surgiram no rastro do sucesso dos filmes estilizados de Sergio Leone, nos idos da década de 1960. “O Dia da Vingança” (La Resa dei Conti, Itália/Espanha, 1966) apenas confirma a opinião do diretor de “Pulp Fiction”. Realizado por Sergio Sollima, o filme foi o primeiro de uma série de três westerns do obscuro diretor, quase desconhecido internacionalmente, a alcançar fama. O longa destacou-se invasão de produções italianas, então feitas aos borbotões, graças ao equilíbrio entre as características mais marcantes do gênero e elementos narrativos originais, que garantem frescor ao resultado final.

De fato, “O Dia da Vingança” é um dos poucos faroestes italianos que tenta investir, com sucesso, em uma veia mais autoral, sem se contentar em simplesmente repetir a receita clássica “cozinhada” por Leone. Sollima é mais generoso no uso de humor, e tem aspirações um pouco mais ambiciosas, no que se refere ao subtexto político. O uso de elementos cômicos dá leveza ao todo, ajudando a modular a tensão de uma perseguição que percorre quase toda a duração do filme, além de comentar e realçar certos aspectos políticos do enredo. Observe, por exemplo, a piada venenosa a respeito da quarta esposa do pastor mórmon cuja expedição os protagonista encontram, logo no início do segundo ato, e que se refere ao machismo latente daquele grupo religioso.

O longa-metragem assume o caráter episódico de um road movie, tendo sido estruturado como uma série de esquetes em que protagonista e antagonista se encontram, a cada intervalo de 15 minutos, em um novo ambiente, povoado por grupos diferentes de personagens secundários. O herói é um arquétipo do faroeste espaguete: um caçador de recompensas (Lee Van Cleef) de mira infalível e coragem ilimitada. Ao contrário do misterioso personagem sem nome de Clint Eastwood nos filmes de Leone, porém, Jonathan Corbett tem um passado definido e um futuro promissor. Possui um código de ética rígido e tem até mesmo aspirações políticas.

Durante uma festa patrocinada por um magnata (Walter Barnes), Corbett recebe a notícia de que Cuchillo Sanchez (Tomas Milian), um anônimo ladrão mexicano, acaba de fugir da cidade, após estuprar e matar uma garota de 12 anos. O pistoleiro logo se prontifica a realizar a caçada. Cuchillo de revela um bandido fácil de rastrear, mas bem difícil de capturar. Uma das grandes virtudes do longa-metragem é a relativa imprevisibilidade da narrativa, que inclui uma reviravolta no terceiro ato. A trilha sonora de Ennio Morricone também é muito boa, embora seja extremamente parecida (arranjos, escolha de instrumentos e até algumas frases musicais) com a inesquecível música de “Três Homens em Conflito”, o grande épico do estilo que Leone filmou alguns meses antes.

Embora não seja tão estilista quanto o homônimo mais famoso, Sergio Sollima usa muito bem as paisagens esturricadas do deserto espanhol de Almeria. Ele filma os duelos de maneira bem parecida que Leone, intercalando planos fechados dos rostos dos pistoleiros com planos gerais em câmera baixa e profundidade de foco, quase sempre enquadrando um detalhe em primeiro plano (uma arma, uma mão, uma bota) e a cena propriamente dita ao fundo. A montagem, porém, é mais rápida e menos solene do que nos filmes de Leone. Aliada aos toques cômicos, esta característica contribui para dar uma dinâmica mais trivial e menos operística à produção.

A química entre os dois atores principais também é muito boa. Van Cleef, sempre eficiente no estilo, nem precisa fazer muito esforço. Ele repete os cacoetes desenvolvidos para o já citado “Três Homens em Conflito”, utilizando até mesmo um cachimbo idêntico ao do outro filme para compor o personagem e injetar tensão às cenas de duelo. Tomas Milian rouba a cena construindo um Cuchillo como um esquivo ladrão de galinhas que prefere as facas aos revólveres (preferência que acaba gerando uma cena bem original, já perto do clímax). No todo, temos aqui um prato cheio para amantes do spaghetti western.

O filme foi lançado no Brasil em DVD pela Continental. A edição é pobre, com imagem de cores lavadas no formato widescreen letterboxed, áudio em inglês, espanhol e português (Dolby Digital 2.0). 

– O Dia da Vingança (La Resa dei Conti, Itália/Espanha, 1966)
Direção: Sergio Sollima
Elenco: Lee Van Cleef, Tomas Milian, Luisa Rivelli, Fernando Sancho
Duração: 105 minutos

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