Dia de Cão, Um

04/04/2006 | Categoria: Críticas

Clássico de Sidney Lumet narra insólito assalto a banco com doses iguais de humor e ação

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Assaltos a banco fazem parte da rotina diária de violência urbana das grandes cidades. Só alguns deles tornam-se inesquecíveis e entram para a mitologia popular por razões inusitadas. Foi isso o que aconteceu com o que deveria ter sido um assalto rotineiro em uma agência bancária do bairro do Brooklyn, em Nova York, numa tarde quente de agosto de 1972. A inexperiência dos assaltantes transformou o episódio em um circo midiático que expôs, ao vivo e em cadeia nacional, uma história surreal e muito humana, cheia de humor e dor. A incrível história não levou mais do que três anos para ser levada ao cinema, e foi transformada em um dos grandes filmes da década de 1970: “Um Dia de Cão” (Dog Day Afternoon, EUA, 1975).

Foram poucas as vezes em que o cinema conseguiu abordar, em uma simples trama de aventura, tantas questões sociais importantes. Ao narrar o caso com impressionante senso de urgência, “Um Dia de Cão” provoca reflexões sobre o embriagante poder da mídia, sobre a violência e o despreparo policial para lidar com situações insólitas, sobre a guerra (para angariar simpatia popular, os assaltantes alegam ser veteranos traumatizados pelo Vietnã, o que não é verdade) e, acima de tudo, sobre o amor gay. Pois é: 30 anos antes de “Brokeback Mountain”, o cineasta Sidney Lumet já narrava, com discrição e coragem, uma emocionante e dolorosa história de amor entre dois homens, interrompida por conta de convenções sociais.

Para começar, “Um Dia de Cão” é impossível de ser encaixado em um gênero. Não se trata de um filme comum. Tem humor demais para um thriller e ação em demasia para uma comédia. Possui tensão ininterrupta de cabo a rabo, mas apresenta uma fantástica galeria de personagens cheios de calor humano, algo incomum em filmes de gênero. Tudo isso a partir de um fiapo de história que pode ser resumida em três linhas: dupla de assaltantes invade agência bancária, mas o plano dá errado e o local é cercado pela polícia, o que obriga os bandidos a fazer reféns entre funcionários e clientes para negociar a fuga.

O grande problema é que Sonny (Al Pacino, sensacional) e Sal (John Cazale) são amadores. A sucessão de trapalhadas que eles cometem durante os cinco minutos que deveriam durar o assalto é digna de um filme de Woody Allen. A arma de Al Pacino fica presa na fita da caixa de presente onde ele a esconde, a altura diminuta do rapaz não permite que ele embace a imagem das câmeras de segurança com a rapidez necessária, e há até um terceiro comparsa que, suando frio, desiste do roubo no começo e vai embora com o carro que deveria ser usado na fuga. Para completar, um erro de cálculo faz os ladrões encontrarem apenas 1.100 dólares no cofre, pois este havia sido esvaziado minutos antes. Um negócio patético mesmo.

O bicho pega alguns minutos depois, quando a polícia descobre o roubo e cerca o banco. Não demora muito para que as câmeras de TV estejam no local, o que atrai uma multidão de curiosos. A essa altura, o assalto já virou um espetáculo midiático sobre o qual ninguém – nem os assaltantes, agora agindo como estrelas de rock e acenando para a platéia, e muito menos a polícia, confusa pelo ineditismo da ação criminosa – tem o mínimo controle. Claro que um rolo desses só pode terminar em tragédia. A pergunta é quando e como isso vai ocorrer.

O processo é filmado por Sidney Lumet com um senso de urgência quase documental, emprestado de produções típicas daquele grande momento do cinema norte-americano. Aquela era a época em que a montagem passava por experiências radicais, e um dos maiores nomes do ramo, Dede Allen, pilotava a ilha de edição de “Um Dia de Cão”. Ela é responsável pela agilidade extraordinária da produção, orquestrando verdadeiros balés de tensão e violência – observe, por exemplo, a ótima seqüência em queum entregador de pizza providencia comida para os reféns e se deixa embriagar pela situação.

Apresentando cenas como essa, o longa de Lumet garante para si um lugar de honra no seminal pacote de filmaços que mudou a cara de Hollywood em meados dos anos 1970, um conjunto impecável que incluía “Taxi Driver”, “Operação França” e “A Conversação”, entre outras maravilhas cinéfilas. “Um Dia de Cão” ainda leva vantagem considerável à maioria dos grandes filmes do períodos, devido à grande quantidade de cenas antológicas.

Exemplos? Tem a dar com o pau. Fique com o emocionante diálogo telefônico que Sonny trava com sua “noiva”, Leon (Chris Sarandon), depois que a polícia descobre que o assalto tinha como objetivo maior conseguir dinheiro para pagar a operação de mudança de sexo do amante gay de Sonny. Ou o tocante momento em que Sonny dita um testamento improvisado para um dos reféns tomar nota. Ou a hilariante – e esclarecedora – visita da mãe dele ao banco. Ou a maneira estupefata como a mulher e os filhos de Sonny recebem a notícia. Ou as aparições de Pacino na calçada do banco (“Attica! Attica!”). Ou o brilhante improviso de John Cazale quando Pacino lhe pergunta que país gostaria de visitar antes de morrer (“Wyoming”, responde Sal, citando um dos estados mais insossos do território norte-americano). Há um monte de outras. Dê a si mesmo o prazer de descobri-las.

A Warner lançou duas versões em DVD no Brasil. A primeira é um disco simples, que contém apenas o filme (imagem cortada nas laterais, no formato 4:3, e som Dolby Digital 1.0). A segunda é dupla, e traz a película restaurada. O enquadramento original (wide 1.85:1 anamórfico) é respeitado, e o som está OK (Dolby Digital 1.0). Há um comentário em áudio do diretor, sem legendas. No disco 2, um documentário delicioso do craque Laurent Bozereau, repleto de entrevistas e detalhes sobre o filme (58 minutos), e um featurette da época das gravações originais, que enfoca o trabalho do diretor (10 minutos). Ambos possuem legendas em português.

– Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, EUA, 1975)
Direção: Sidney Lumet
Elenco: Al Pacino, John Cazale, Chris Sarandon, Penelope Allen
Duração: 120 minutos

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