Dia de Fúria, Um

07/06/2005 | Categoria: Críticas

Filme de Joel Schumacher é uma pequena e subestimada obra-prima sobre a neurose urbana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Todo mundo odeia Joel Schumacher. O cara se tornou uma das unanimidades negativas de Hollywood depois de fazer dois exemplares histéricos e supercoloridos de “Batman” para a Warner. Depois disso, atraiu a fúria dos críticos de pouca idade e passou a ser visto com extremo ceticismo. Não dá para culpar totalmente quem torce o nariz só de ouvir falar no nome do cineasta, mas é preciso lembrar que ele já assinou grandes filmes. O melhor deles se chama “Um Dia de Fúria” (Falling Down, EUA, 1993) e é um dos melhores retratos na neurose urbana feitos no cinema na década de 1990. Trata-se de uma pequena e subestimada obra-prima.

A história é muito simples e cheia de tensão. O filme começa em um enorme engarrafamento numa avenida de Los Angeles (EUA). Suando em bicas, um irritado anônimo (só descobriremos o nome perto do final do longa-metragem, e por isso não vou dizê-lo aqui) abandona o carro para caminhar um pouco e espairecer. Ele é um dos milhões de anônimos que sustentam o “sonho americano”: camisa branca, gravata, maleta tipo 007 nas mãos, um par de óculos no rosto e um ar inofensivo. Ocorre que o homem, cujo carro tem na placa a sigla D-FENS (ou seja, “defesa”), é uma bomba-relógio prestes a explodir.

Depois de um desentendimento de pouca importância no bar de um comerciante coreano que deseja cobrar alguns centavos a mais por uma lata de Coca-Cola, o sujeito perde as estribeiras, destrói a loja com um taco de basebol e não retorna para o carro. Só aí começamos a conhecer os motivos de tanta pressão. Ele está tentando chegar ao aniversário da filha, que não vê há meses, porque a ex-esposa Beth Travino (Barbara Hershey) conseguiu autorização judicial para mantê-lo afastado. Aos poucos, vamos perceber que esse é só o começo dos problemas de nosso herói.

No trajeto até a praia riponga de Venice, onde a criança mora, o homem vai travar contato com habitantes de grupos urbanos dos mais diversos, alguns previsíveis e ameaçadores (membros hispânicos de uma gangue de rua), outros bizarros e surreais (velhinhos ricos aposentados que alugam uma área absurdamente grande, no coração da cidade, para jogar golfe). A trajetória dele é acompanhada de longe por um policial no último dia de trabalho antes de se aposentar, o detetive Prendergast (Robert Duvall), que o apelida pela alcunha de D-Fens e se encarrega de encontrá-lo para evitar uma tragédia.

O filme é narrado em uma única e gigantesca montagem paralela: uma dia na vida desses dois homens comuns, cada um tendo que lidar com os problemas do cotidiano e com uma situação fora do comum. É interesse observar a simetria perfeita que Schumacher conseguiu imprimir aos dois personagens principais. Ambos estão presos no mesmo engarrafamento, quando o longa-metragem começa, e se encontram também no mesmo lugar quando o filme termina, com uma cena alegórica muito bonita. O recheio é de primeira qualidade. Schumacher faz comentários sociais corrosivos sobre o fracasso do “sonho americano” e não perde a oportunidade de alfinetar os curiosos hábitos comerciais das lanchonetes norte-americanas, em uma das seqüências mais satíricas do filme.

Na verdade, a construção psicológica do protagonista é uma das mais interessantes vistas no cinema americano recente. Ele tem uma lógica perfeita e uma explicação racional para cada um dos atos tresloucados que comete. Essas justificativas se ancoram, sempre, em algum tipo de idiossincrasia típica do tecido social dos EUA, como a obsessão por armas de fogo, o fenômeno das gangues formadas por latinos ilegais e a xenofobia.

A trajetória do personagen, que se enreda cada vez mais profundamente em um abismo sem saída que não consegue perceber, é ao mesmo tempo angustiante e bem-humorada; poucos filmes ousam trabalhar nessa fronteira com a desenvoltura deste aqui. De certa forma, “Um Dia de Fúria” tem ecos do também subestimado “Depois de Horas”, de Martin Scorsese, só que com a ação transferida da chuvosa Nova York para a ensolarada Los Angeles.

Visto no contexto da obra do diretor, “Um Dia de Fúria” se encaixa bem ao lado dos filmes mais interessantes do cineasta, como “Oito Milímetros” (com o qual compartilha o fascínio com o submundo violento de couro-e-látex que existe em Los Angeles, sob uma fachada de aparente normalidade) e “Por Um Fio”. Por ter personagens mais sólidos e alguns momentos verdadeiramente sublimes (“Eu sou o bandido? Como isso aconteceu?”, pergunta o personagem de Michael Douglas, genuinamente surpreso, ao descobrir que está sendo caçado pela polícia), “Um Dia de Fúria” supera os seus filmes-irmãos e se constitui como a melhor obra da carreira de Schumacher, bem como um pequeno e subestimado clássico do cinema dos anos 1990.

O DVD lançado pela Warner é muito simples. Tem o filme com imagem cortada nas laterais para caber no formato 4×3, uma trilha de áudio simples, em inglês, no formato Dolby Digital 2.0, e nenhum extra. Uma pena. “Um Dia de Fúria” merecia mais.

– Um Dia de Fúria (Falling Down, EUA, 1993)
Direção: Joel Schumacher
Elenco: Michael Douglas, Robert Duvall, Barbara Hershey, Tuesdey Weld
Duração: 113 minutos

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