Dia Depois de Amanhã, O

23/10/2007 | Categoria: Críticas

Diversão escapista com mensagem ecológica traz cenas muito bem feitas de destruição

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O cineasta da destruição. Esse é o título a que o diretor alemão Roland Emmerich deve aspirar, tamanho o apetite que demonstra por imagens de sangue e morte. Em “O Dia Depois de Amanhã” (The Day After Tomorrow, EUA, 2004), Emmerich permanece fiel ao lema pessoal. Na cabeça dele, Hollywood deve funcionar da seguinte forma: quanto mais pessoas mortas e cidades destruídas, melhor vai ser o filme. Se essa fosse a escala a ser seguida, o filme de Roland Emmerich deveria ser o melhor dos últimos tempos.

De fato, Roland Emmerich continua filmando em Hollywood porque os filmes que faz atraem o público, embora ele seja um dos cineastas mais criticados da atualidade. É fácil de entender o porquê. Em “O Dia Depois de Amanhã”, a primeira imagem após os créditos é um close gigantesco de uma bandeira norte-americana tremulando. O ufanismo dos filmes de Emmerich chega a ser obsceno, mas isso é algo que os habitantes dos EUA, afinal de contas, adoram. Não adianta dizer que a imagem é um clichê de mau gosto; as pessoas simplesmente lotam as salas de cinema para ver essas abobrinhas.

“O Dia Depois de Amanhã” segue a fórmula do cinema-catástrofe padrão. O paleontoclimatologista (profissão que estuda as grandes mudanças térmicas do passado) Jack Hall (Dennis Quaid) encontra evidência de que uma nova Era Glacial pode estar prestes a atingir o planeta e avisa ao vice-presidente dos EUA, mas não é ouvido. Ocorre que a catástrofe está muito mais próxima do que ele imagina, e logo dá as caras: furacões gigantescos assolam Los Angeles, uma chuva de granizo do tamanho de melancias cai sobre o Japão, homens congelam em segundos na Escócia.

Em paralelo à fúria crescente da natureza, Emmerich encaixa um drama humano: o filho de Jack, Sam (Jake Gyllenhaal), fica preso em Nova York durante a nevasca monumental que se segue, uma catástrofe natural que inclui gelo, maremotos e furacões em toda a parte norte do planeta. Depois de cuidar da nação, Jack se arrisca numa caminhonete vagabunda e cruza o país para resgatar o filho. O rapaz, veja só, está apaixonado e não quer largar a possível namorada porque tem medo de perdê-la.

O drama humano parece bobo e nunca engrena; ainda por cima, é inverossímil. Diante de tamanha fúria da natureza, como imaginar que alguém consiga cruzar o país munido apenas de barracas de plástico e um caminhão enferrujado? Para compensar, Roland Emmerich entrega cenas muito boas da destruição causada pela natureza descontrolada. Os furacões em Los Angeles fornecem uma imagem aterradora, e a onda gigante que arrasa Nova York talvez seja o melhor momento do filme, tenso na medida certa.

É verdade que, a um custo de US$ 125 milhões, o mínimo que Emmerich teria obrigação de fazer seria um filme com seqüências realistas de computação gráfica. Nesse aspecto, ele não decepciona. O problema é que o filme parece um mero pastiche de outros longas recentes. “O Dia Depois de Amanhã” tem estrutura narrativa igualzinha à do bom “Impacto Profundo” e possui uma longa abertura praticamente decalcada de “O Núcleo”, um filme-catástrofe menor e melhor. Isso para não falar de “Independence Day”, o maior sucesso da carreira de Emmerich, em que Nova York também é destruída.

O maior trunfo do filme, contudo, é a pálida mensagem ecológica que traz embutida. Roland Emmerich evitou ser muito enfático nesse aspecto e não entra a fundo nas responsabilidades dos governos sobre o acontecido, mas o filme chegou aos cinemas num momento político ruim para o presidente norte-americano e fez ainda mais estragos na imagem de George W. Bush, já que o político anda quebrando todos os acordos assinados com a intenção de parar o efeito estufa – a destruição do meio ambiente é o gatilho que dispara a nova Era Glacial do longa-metragem. Mas “O Dia Depois de Amanhã”, não confunda, é diversão escapista. Só isso.

O DVD duplo (edição definitiva) da Fox tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Há dois comentários em áudio reunindo diretor, atores e técnicos. No disco 2, um documentário sobre os perigos do aquecimento global, sete featurettes enfocando detalhes da produção e duas galerias de imagens.

– O Dia Depois de Amanhã (The Day After Tomorrow, EUA, 2004)
Direção: Roland Emmerich
Elenco: Dennis Quaid, Jake Gyllenhaal, Ian Holm, Emmy Rossum
Duração: 124 minutos

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