Dia em que a Terra Parou, O (2008)

17/04/2009 | Categoria: Críticas

Ficção boboca tenta mostrar como um extraterrestre super-poderoso com o rosto de Neo, o Escolhido, tenta salvar a raça humana de se auto-destruir

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Al Gore bem que tentou, em 2006, com estatísticas conseguidas no Google e o papo envolvente e alarmante do documentário “Uma Verdade Inconveniente”. A despeito do sucesso do filme, que faturou o Oscar da categoria e abriu caminho para o Nobel da Paz, o ex-vice-presidente americano não conseguiu mudar em nada comportamento dos países desenvolvidos, no que toca ao apocalipse anunciado que é o aquecimento global. Se um dos homens mais poderosos do mundo fracassou na tarefa, quem poderia alcançar tal feito? Um extraterrestre fodão, ora bolas! Melhor ainda se ele tiver o rosto de Neo, o Escolhido (o Jesus Cristo high tech da trilogia “Matrix”). Deve ter sido esse o raciocínio dos produtores da ficção científica “O Dia em que a Terra Parou” (The Day the Earth Stood Still, EUA, 2008), refilmagem decepcionante do clássico B de 1951.

O trabalho original, assinado pelo versátil Robert Wise, era um libelo contra a Guerra Fria travestido de ficção intergalática. Naquela ocasião, o planeta vivia sob o temor de uma guerra nuclear entre EUA e URSS. Se ocorresse algo assim, a destruição varreria do mapa a existência humana. Cinco décadas depois, as chances de que o apocalipse aconteça dessa maneira são mínimas. No imaginário coletivo, a bomba atômica foi substituída pela poluição desmedida, cuja causa imediata é o aquecimento global. O novo filme reaproveita os momentos mais conhecidos do título de 1951 (sim, a frase clássica “Klaatu barada niktu” está lá, embora soterrada sob puro caos sônico, resultado de um trilha excessivamente recheada de efeitos sonoros em volume 11), enfia uma mensagem aparentemente roubada de algum livro de auto-ajuda – algo como “a esperança é a última que morre” – e passa do ponto até mesmo nos efeitos especiais digitais, apenas razoáveis.

O pior de tudo: o prólogo e o primeiro ato até que são promissores. A abertura, em cena curta que se passa em 1928, mostra um alpinista tendo um estranho contato com uma esfera luminosa, durante uma tempestade de neve. A ação salta para 2008, quando ficamos conhecendo a bióloga Helen (Jenniffer Connelly). Ela é viúva e cuida do enteado de 10 anos (Jaden Smith). Helen faz parte de um comitê de cientistas que recebe um chamado de emergência do Governo dos EUA, no meio da noite, para discutir um problema urgente. Aparentemente, um asteróide vai colidir com o planeta dentro de uma hora. Acontece que não é um asteróide, mas uma esfera colorida que pousa no meio do Central Park. De dentro dela, saem um robô gigantesco e uma criatura envolta em uma espécie de baba pegajosa.

O conceito elaborado pelo filme é de que a consciência do alienígena visitante (Keanu Reeves) foi colocada dentro de um corpo artificial, criado a partir de DNA humano, inserido numa placenta e programado para “nascer” em nosso planeta, evitando assim problemas decorrentes da adaptação atmosférica. Sem dúvida, uma solução criativa para o fato de o extraterrestre falar a língua inglesa e ter aparência humana. Aliás, todo o primeiro ato é dramaturgicamente interessante. O diretor Scott Derrison (“O Exorcismo de Emily Rose”) consegue criar suspense ao filmar toda a movimentação dos aturdidos cientistas colocando o público na mesma situação que eles. Nós não sabemos o que está acontecendo (bem, pelo menos aqueles de nós que não leram releases ou críticas). E a trilha sonora de Tyler Bates, que reaproveita o tema principal criado por Bernard Herrmann para o filme de 1951, capricha nos ruídos (microfonia, timbres percussivos, etc.) para agregar mais tensão.

Infelizmente, a criatividade dos realizadores parece terminar mais ou menos a partir do início do segundo ato, quando o alienígena consegue fugir e se mistura aos humanos, auxiliado pela bióloga. A partir daí, as boas sacadas narrativas dão lugar a diálogos expositivos terrivelmente panfletários, em que Klaatu tenta explicar a Helen que sua missão é salvar a Terra dos humanos parasitas e destruidores. O desenvolvimento do enredo chega a ser quase constrangedor – em apenas uma noite de convivência com Helen e o enteado turrinha (a criança é um apanhado de clichês irritantes, que a interpretação inexpressiva do filho de Will Smith consegue piorar ainda mais), Klaatu “percebe” que os humanos são muito mais complexos e emotivos do que inicialmente parecia, e talvez mereçam uma segunda chance.

Fãs do longa-metragem original podem até ficar satisfeitos com a repetição de cenas importantes (a equação matemática diante do quadro negro, a insistência de Klaatu em ser ouvido por todos os líderes mundiais de uma vez só), mas devem se ressentir das tentativas canhestras de desenvolvimento de personagens. É exatamente isso que deixa o segundo ato lerdo e irregular, com o agravante de que o roteirista David Scarpa sequer consegue dar o mínimo de consistência aos conflitos entre mulher e enteado, recorrendo a clichês narrativos superficiais e cansados (como o fato de o menino chamar a bióloga de “Helen” no começo da trama, passando a tratá-la por “mãe” quando a situação realmente aperta). Talvez percebendo a falta de ritmo, Scott Derrickson acelera a ação quando o filme se aproxima do clímax, mas aí já é tarde demais.

Ademais, os efeitos digitais feitos com uso extenso de computação gráfica também estão abaixo da média, a começar pelo lendário robô Gort. No título de 1951, era um personagem meio ridículo; apenas um homem alto vestido com um traje de espuma pintada de prateado. O uso de CGI poderia render uma figura aterrorizante, mas o design da criatura simplesmente não funciona, mais parecendo que o Ciclope (personagem da série X-Men) tomou um banho de tinta de automóvel. As formas humanas do robô diluem o impacto de seus gestos gélidos, e a atuação dele no terceiro ato é inteiramente modificada em relação ao roteiro original. De certa forma, o conceito das esferas menores (que aparecem em diversos pontos da Terra) como pequenas arcas de Noé funcionam como um microcosmo do longa-metragem: uma idéia interessante, diluída dentro de uma montanha de clichês, à serviço de uma “causa nobre”. Como se sabe, de boas intenções o inferno está cheio.

O DVD para locação da Fox, simples, carrega o filme com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, EUA, 2008)
Direção: Scott Derrickson
Elenco: Keanu Reeves, Jennifer Connelly, Kathy Bates, John Cleese
Duração: 103 minutos

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