Dia Em Que a Terra Parou, O

16/04/2008 | Categoria: Críticas

Clássico da ficção científica reflete paranóia dos tempos da Guerra Fria com bons efeitos e texto inteligente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Uma noção básica do contexto histórico da década de 1950 é obrigatória para compreender a clássica ficção científica “O Dia Em Que a Terra Parou” (The Day The Earth Stood Still, EUA, 1951). Todo o enredo do filme está ajustado para a época inicial da Guerra Fria, quando a paranóia sobre a possibilidade do fim do mundo começava a atingir níveis estratosféricos, com a rivalidade cada vez mais encarniçada entre EUA e URSS. A produção de bombas atômicas cada vez mais poderosas deixava evidente que o mundo poderia acabar a qualquer momento. Então o cineasta Robert Wise pensou: e se um ser alienígena extremamente evoluído viesse à Terra para alertar os líderes mundiais sobre o perigo?

Para construir o roteiro do longa-metragem (escrito por Edmund North), o diretor aproveitou um conto de ficção científica escrito onze anos antes, por Harry Bates. Bastou adaptar a história às circunstâncias históricas certas. Assim, a abertura do filme não perde tempo: um disco voador pousa em Washington, capital dos EUA, e dele descem um alienígena de aparência 100% humana, Klaatu (Michael Rennie), e um robô gigante, Gort. Amedrontados, os militares norte-americanos ferem o extraterrestre, o que provoca uma reação violenta do robô indestrutível. Ele lança raios que desintegra armas e tanques, mas o ferimento de Klaatu não foi grave e este paralisa o robô. Tudo isso acontece em menos de 10 minutos de filme.

Klaatu é simples e direto. Deseja um encontro com os líderes de todas as nações da Terra. Ele vem de um planeta localizado a 600 milhões de quilômetros, com uma mensagem de paz e preocupação. Os aliens descobriram que “uma forma primitiva” de energia atômica está sendo utilizada na Terra, e temem que o poder recém-descoberto possa pôr em perigo outras civilizações. Por isso, resolvem interferir. Se os terráqueos insistirem na produção de armas atômicas, poderão ter o planeta pulverizado.

Sem conseguir reunir os chefes das nações, contudo, Klaatu decide se misturar à população para conhecer um pouco mais sobre o povo da Terra. Ele se hospeda em uma pequena pensão na periferia de Washington e faz amizade com um garoto, Bobby (Billy Gray). A convivência do extraterrestre entre os humanos ocupa quase toda a trama de “O Dia Em Que a Terra Parou”. Embora seja uma ficção científica, o filme é econômico no uso de efeitos especiais, que estão concentrados principalmente nos primeiros minutos.

São efeitos gloriosos para a época. As cenas em que o disco sobrevoa e pousa em Washington ainda impressionam pela verossimilhança. Se o macacão espacial e a “roupa” de Gort parecem trajes humanos mal-costurados, o mesmo não pode ser dito das seqüências em que o robô lança raios pelos olhos (mais ou menos como Ciclope, dos X-Men) e desintegra objetos e pessoas. Os efeitos visuais podem parecer toscos no século XXI, mas impressionavam na época e representam um marco para a produção de filmes do gênero em Hollywood.

Embora seja um diretor esforçado mas não brilhante, Wise foi esperto o bastante para convidar jornalistas verdadeiros e respeitados nos EUA para fazerem breves aparições, no início e no final do longa-metragem, como eles mesmos. Dessa forma, o diretor desejava – e conseguiu – dar um ar de verossimilhança à trama. Além disso, à exceção da abertura, não existem seqüências de ação no filme, o que facilitou sua penetração entre platéias mais velhas, que entendiam o recado do enredo. Talvez por causa disso, “O Dia Em Que a Terra Parou” foi além do conceito de filme descartável e se transformou no tipo de clássico primitivo que funcionou como musa inspiradora para dezenas de cineastas do futuro, George Lucas e Sam Raimi entre eles (os dois citariam o filme em obras como “Guerra nas Estrelas” e “Uma Noite Alucinante”).

Embora continue a ser lembrado pelos efeitos óticos visionários e pela imortal frase “Klaatu Barada Nikto” (que não tem tradução, mas deve ser pronunciada caso o robô fique violento), “O Dia Em Que a Terra Parou” é um dos libelos pacifistas mais interessantes de Hollywood, especialmente por ter sido produzido numa época em que a política externa da nação norte-americana era extremamente agressiva e egocêntrica.

O Brasil recebe o DVD do filme, pelo selo Fox Classics, com um desfalque importante: o documentário de 80 minutos sobre a produção foi retirado do disco, por problemas envolvendo os direitos autorais do programa. Sobraram apenas três extras: um trailer, um cinejornal de 1951 com o filme (6 minutos, sem legendas) e um segmento comparando a imagem antes e depois da restauração da película, feita em 1995 (4 minutos). Pelo menos a qualidade de transferência do filme, com imagem no formato original (4×3) e som Dolby Digital 2.0, está boa. O disco duplo, com o selo Cinema Reserve, traz de brinde o documentário completo de 80 minutos e um comentário em áudio do diretor.

– O Dia Em Que a Terra Parou (The Day The Earth Stood Still, EUA, 1951)
Direção: Robert Wise
Elenco: Michael Rennie, Patrícia Neal, Hugh Marlowe, Billy Gray
Duração: 92 minutos

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