Diabo Veste Prada, O

06/02/2007 | Categoria: Críticas

Comédia expõe bastidores do mundo da moda em tom de sátira politicamente correta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Baseado em um famoso romance que expõe, com ironia e até certa dose de crueldade, os bastidores do mundo da moda internacional, “O Diabo Veste Prada” (The Devil Wears Prada, EUA, 2006) pega mais leve do que sua contraparte escrita. Transportado para o cinema, o relato corrosivo da jornalista Lauren Weisberger virou uma comédia correta que, embora mantenha o tom de sátira, prefere trabalhar dentro de um registro politicamente correto, até mesmo humanizando os personagens. Assim, torna-se menos audacioso, mas ainda um programa acima da média.

A rigor, o filme narra a saga de uma jornalista iniciante confrontada com uma decisão que todos nós, espectadores, precisamos enfrentar em algum momento de nossas vidas: você escolhe a vida ou uma carreira? OK, esta pergunta parece um clichê pequeno-burguês, do tipo que é cinicamente detonado na abertura-vulcão de “Trainspotting” (1996). Mas acredite, é um clichê muito real, e mais cedo ou mais tarde acaba aparecendo. Alguns de nós trabalham para viver, outros vivem para trabalhar; isso também é um clichê, e uma verdade universal.

Na competição desenfreada por um lugar ao sol que vivemos atualmente, num mercado de trabalho inflado em quase todas as áreas, apenas dar duro e fazer o seu trabalho não é suficiente. Esta é a lição que Andy Sachs (Anne Hathaway), uma jornalista iniciante, aprende quando começa a conviver diariamente com Miranda Priestley (Meryl Streep), a poderosa editora-chefe da revista Runway, bíblia mundial do mundo fashion. Trabalhar na Runway significa estar disponível 24 horas por dia para o trabalho, realizar tarefas impossíveis sem receber nem um “obrigado”, ser desancado por um erro eventual e sofrer humilhações na frente dos colegas.

Do lado de cá da tela, você pode até se perguntar como alguém em sã consciência pode se sujeitar a esse tipo de coisa. As respostas são muitas: glamour, promessa de rápida ascensão profissional, dificuldade de arrumar trabalhos decentes. Milhares de pessoas como Andy Sachs vivem situações parecidas, em qualquer lugar do planeta. Uma das grandes sacadas de “O Diabo Veste Prada” é que, ao eliminar o excesso de referências ao mundo da alta costura, o enredo ganha contornos universais. Ou seja, trata-se de um filme sobre um dilema profissional que atinge milhões, em todos os cantos do globo.

O cineasta David Frankel foi esperto o suficiente para manter um número generoso de alfinetadas sutis e certeiras à futilidade e à indigência intelectual do “planeta fashion”. Nele, não apenas as modelos são escravas do corpo perfeito, mas também as assistentes de celebridades, como Andy Sachs vai aprender da maneira mais dura possível. Além disso, a guerra surda por melhores posições na indústria, que envolve manobras pouco éticas de bastidores, também é mostrada de maneira sagaz. Os diálogos são um ponto alto: mordazes e irônicos, mas também refinados. Os discursos de Miranda Priestley, em particular, funcionam como exemplos perfeitos de como uma pessoa pode ser grosseira e, ainda assim, fina.

“O Diabo Veste Prada” possui bons antecessores fílmicos na tarefa de descascar a máscara de glamour da alta sociedade e mostrar o que há de podre por baixo dela. Um dos principais longas que serviram de inspiração é “A Embriaguez do Sucesso” (1957), clássico subversivo que chuta a canela do colunismo social com classe e elegância. A maior semelhança é que os dois filmes foram construídos ao redor de figuras históricas verdadeiras, de carne e osso, que viraram personagens ficcionais nas obras de ficção.

Em 1957, o poderoso colunista Walter Winchell ganhou um retrato cínico através do ficcional J.J. Hunsecker, interpretado por um fleumático Burt Lancaster. No caso de “O Diabo Veste Prada”, foi a editora-chefe da revista Vogue, Anna Wintour, que recebeu uma venenosa persona cinematográfica. A impassível Miranda Priestley, baseada nela, é uma personagem fascinante – o que você pensaria de alguém que manda as secretárias agendarem um jantar com o próprio marido? Pode parecer um excesso satírico e exagerado, mas pode acreditar: existe gente assim. De verdade.

O elenco é um ponto alto. Da sensacional Meryl Streep, o público já aprendeu a esperar sempre um desempenho avassalador, e é exatamente o que ela oferece na pele de Priestley; o olhar frio e o timing perfeito para cortar as frases do interlocutor sempre na metade a ajudam a compor a face sobre-humana do monstro, mas há algo genuinamente comovente por baixo da aparência indestrutível dela. O desempenho soberbo de Meryl Streep permite que o espectador vislumbre, em pequenos gestos e olhares, que atrás da sombra ameaçadora existe uma mulher carente. À medida que o filme se aproxima do final a atriz baixa um pouquinho a guarda, bem de leve, o suficiente para gerar empatia. É perfeito.

De modo geral, todo o elenco de apoio também está muito bem, com destaque para Stanley Tucci, que tem pouco tempo em cena como o braço-direito de Priestley, mas ainda assim consegue driblar o estereótipo do gay afetado e ligado em moda. E Anne Hathaway (a mulher de Jack Gyllenhaal em “Brokeback Mountain”), que é a verdadeira protagonista, não apenas possui um sorriso luminoso e cativante, mas ilustra perfeitamente a jornada da personagem, transformando-se de patinho feio em cisne dourado com leveza. A história em si pode até ser levemente previsível, e o filme não foge da velha e inevitável lição de moral que Hollywood adora, mas ainda assim “O Diabo Veste Prada” é agradável e divertido.

O DVD da Fox, simples, contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem comentário em áudio do diretor, cinco featurettes, erros de gravação e cenas cortadas.

– O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada, EUA, 2006)
Direção: David Frankel
Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Stanley Tucci
Duração: 109 minutos

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