Diário dos Mortos

11/01/2009 | Categoria: Críticas

Quinto filme de zumbi de George Romero discute a saturação de imagens eletrônicas que inunda a vida nas grandes cidades

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Todos os filmes de zumbi dirigidos pelo pioneiro George Romero contêm fortes críticas sócio-culturais. A situação não é diferente em “Diário dos Mortos” (Diary of the Dead, EUA, 2008), quinta incursão do cineasta veterano dentro do gênero. Ao contrário do que fez nas películas anteriores, Romero ressurge mais ousado do que nunca. Ele abandona o terreno seguro das críticas pontuais, feitas a aspectos políticos e econômicos da sociedade norte-americana, para realizar uma reflexão profunda sobre um fenômeno cultural globalizado, e típico do século XXI: a saturação de imagens eletrônicas que inunda a vida nas grandes cidades, trazida pela Internet e pelas novas tecnologias de distribuição de vídeo. Como filme de horror e como comentário social, “Diário dos Mortos” funciona muito bem.

Visto de uma perspectiva mais ampla, o longa-metragem faz parte de uma onda de produtos audiovisuais que procura encontrar uma estética diferente para o cinema, adaptando-a a uma nova era de entretenimento, mais adequada a esta era. O formato é semelhante a “Cloverfield”, “[REC]” e “Redacted”, todos filmes de 2007 que adotam o aspecto de falso documentário, editados com imagens amadoras. Alguns desses filmes misturam, intencionalmente, diferentes suportes de captação, de qualidade variável, adicionando uma reflexão extra a respeito da compulsão contemporânea de registrar em vídeo (telefones celulares, câmeras digitais, etc.) tudo o que acontece ao redor das pessoas. “Diário dos Mortos” não chega a ter a vibração, a emoção e a verossimilhança assustadora de “Cloverfield” ou “[REC]”. Em estética, lembra mais “Redacted” – e se alinha ao filme de Brian De Palma também na crítica à enxurrada de imagens eletrônicas que nos cercam atualmente.

Cronologicamente, “Diário dos Mortos” tem a ação situada um pouco antes da história de “Terra dos Mortos” (2005), longa anterior de Romero. Naquela produção, os mais ricos se haviam encastelado em cidades fechadas, enquanto os zumbis povoavam o planeta. O filme de 2008 retorna ao momento em que surgem os primeiros morto-vivos. Esse instante é presenciado (e, claro, registrado em vídeo) por um grupo de estudantes de cinema. Os rapazes, acompanhados de um professor alcoólatra, caem na estrada, numa tentativa meio desesperada de encontrar um abrigo eficiente contra os zumbis. Alguns dos jovens apresentam um comportamento fácil de reconhecer – estão mais preocupados em manter as câmeras ligadas, e registrar tudo, do que em sobreviver. Igualzinho àquele seu amigo que viajou para a Europa e voltou com alguns milhares de fotos, mas nem lembra direito de quais cidades visitou.

A profissão dos personagens é um truque eficiente de Romero para dar qualidade (leia-se iluminação e estabilidade da câmera) cinematográfica ao resultado final. Pelo fato de conhecerem cinema, os estudantes se preocupam com o padrão visual do que estão registrando, chegando a registrar algumas cenas no sistema plano/contraplano, para dar mais opções aos editores – e, num toque metalingüístico criativo, Romero mostra-os editando o próprio filme que estamos vendo, em computadores caseiros e notebooks que carregam dentro da van em que viajam. E eles vão mais longe ainda: fazem upload do “work in progress” para a Web, de forma a manter a população informada, já que consideram que a mídia clássica está escondendo informações do público. É uma crítica evidente aos meios de comunicação de massa, e uma apologia da Internet como principal reduto da esfera pública contemporânea – um espaço de democracia real, onde qualquer um que tenha uma câmera (“há 200 milhões delas circulando no planeta atualmente”) pode ter voz ativa na disseminação de informações, através de blogs e plataforma de serviços on-line como o You Tube.

Em termos de narrativa, o filme tem a estrutura episódica de um road movie clássico, conjugando uma série de esquetes que documentam os encontros bizarros dos jovens cineastas na estrada. Os estudantes encontram milícias armadas, militares enlouquecidos, bunkers improvisados, hospitais abandonados e, claro, muitos mortos-vivos, eliminados de forma bastante violenta e, às vezes, criativa (preste atenção no zumbi detonado com ácido). Seguem em frente, aos trancos e barrancos, enquanto editam o filme nos computadores disponíveis, usando as técnicas aprendidas na faculdade. É por isso que o resultado final tem música ambiente e narração em off, elementos que aproximam “Diário dos Mortos” da linguagem cinematográfica clássica.

Embora use material de diversas fontes durante a edição – além das câmeras amadoras que operam, os personagens utilizam imagens de telefones celulares, câmeras de segurança, trechos de reportagens, vídeos da Internet – Romero mantém as inovações tecnológicas sob rédeas curtas, aproveitando o artifício da profissão dos personagens para manter a estrutura narrativa da obra, bem como sua estética, o mais próximo possível de um filme normal. A estratégia funciona bem. Boa parte dos espectadores que rejeitaram “Cloverfield” e “[REC]” por causa do balançar constante da câmera, argumentando sentir náuseas, não vão sentir o problema aqui. Como as imagens são bem mais estáveis em “Diário dos Mortos” – e existe uma razão plausível para isto – o espetáculo cinematográfico se torna bem mais palatável.

Por outro lado, George Romero sofreu com a aparição de filmes semelhantes no mesmo ano de lançamento de “Diário dos Mortos”. Como chegou antes aos cinemas dos Estados Unidos e teve uma campanha de marketing mais cara e criativa, “Cloverfield” – “[REC]”, por ser espanhol, só foi visto na Europa – ganhou a simpatia do público jovem, gerando desconfiança sobre a possibilidade de a obra de Romero ser mero plágio, o que não é o caso. O resultado foi uma bilheteria pífia, pouco mais de U$ 800 mil no país de origem. A verdade é que o veterano entregou um filme esteticamente menos radical, e muito mais ousado em termos de subtexto sócio-cultural. E o final, repleto de humor negro, funciona como um comentário de George Romero sobre o futuro da humanidade. Que, para ele, não será nada bom. Tomara que esteja errado.

O DVD nacional é um lançamento da Imagem Filmes. O filme aparece com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).  Não há extras.

– Diário dos Mortos (Diary of the Dead, EUA, 2008)
Direção: George Romero
Elenco: George Buza, Joshua Close, Joe Dinicol, Tatiana Maslany
Duração: 94 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


5 comentários
Comente! »