Dias de Paraíso

17/03/2007 | Categoria: Críticas

Clássico de Terrence Malick persegue um estágio meditativo de comunhão total entre homem e natureza

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Obra-prima do recluso cineasta Terrence Malick, “Dias de Paraíso” (Days of Heaven, EUA, 1978) é o mais próximo que o cinema consegue chegar dos preceitos budistas. Não no sentido religioso, que fique claro, mas de um ponto de vista filosófico, no modo de ver a vida, no ritmo contemplativo e lento com que persegue um estágio meditativo de comunhão total entre homem e natureza. Talvez contenha as mais belas imagens da natureza já obtidas por um cineasta. E é uma obra-prima de delicadeza, uma verdadeira elegia da simplicidade em forma de película. E, curiosamente, é um filme tremendamente triste.

Devido às circunstâncias que cercaram a produção e o lançamento, “Dias de Paraíso” entrou para a história do cinema de modo oblíquo. Depois de passar um ano completo filmando e mais dois editando o material, Malick – então assinando o segundo trabalho como diretor – lançou o filme, foi declarado gênio e desapareceu de Hollywood por duas décadas. Parecia não ter nada mais a dizer, depois de completar um tratado tão fascinante sobre o lugar do homem na natureza. Ele voltaria à ativa apenas em 1998, e sua obra posterior passaria a tratar sempre deste tema, tornando-se cada vez mais melancólica e pessimista (mas uma amargura silenciosa e sem reclamações, que fique claro).

O elemento do trabalho que mais chama a atenção é, sem dúvida, a excelência da fotografia de Nestor Almendros. Vencedor do Oscar pelo trabalho extraordinário, o fotógrafo foi responsável por uma decisão radical e fundamental para o resultado obtido: filmar apenas nas chamadas “horas mágicas”, o amanhecer e o entardecer. Nesses dois momentos do dia, a luz reflete sobre o globo de maneira única, absolutamente distinta. Não há sombras, o céu se torna límpido e tomado pelas cores do arco-íris, as tonalidades pastéis predominam.

Na verdade, existe muita polêmica em torno da fotografia de “Dias de Paraíso”. Haskell Wexler, creditado como autor da “fotografia adicional”, sempre reclamou mais reconhecimento pelo resultado, afirmando ter sido responsável por mais da metade das cenas utilizadas na montagem final. De fato, Almendros sofria de sérios problemas de visão e tinha dificuldades para discernir as cores durante os horários escolhidos para filmar. Mas quem fez o quê não importa. O visual de “Dias de Paraíso” é sublime, e apresenta uma unidade visual que torna virtualmente impossível discernir a mão de mais de um autor. O conceito é um só, e o filme é o que importa.

Além disso, para a obtenção de um visual tão diferente e encantador, contribuem também, os cenários naturais – uma fazenda rodeada por campos de trigo – e a belíssima trilha do italiano Ennio Morricone, que sublinha os temas visuais do filme com o mesmo estilo discreto adotado por Terrence Malick na direção. A melodia é triste e evocativa, citando uma obscura peça clássica (“Cavalgada dos Animais”, de Saint-Saëns) sem jamais se aproximar do estilo operístico com o qual Morricone havia se tornado famoso, ao assinar os temas dos filmes de Sergio Leone.

Diante de tanta beleza plástica, um espectador incauto poderia imaginar que a história fica em segundo plano. Nada disso: as lindas paisagens naturais funcionam, para Malick, como ferramenta para narrar uma história clássica de triângulo amoroso, filtrada pelos olhos de uma criança. As tonalidades crepusculares não são gratuitas, possuindo uma função narrativa clara. As imagens de final de tarde, naturalmente melancólicas, sublinham o fato de que a narrativa abrange os últimos dias de paz de um núcleo familiar, formado por três jovens e prestes a se desintegrar. O período é, portanto, o crepúsculo daquela família.

A narradora do filme é Linda (Linda Manz), uma garota de 16 anos que está na estrada com o irmão mais velho, Bill (Richard Gere, em sua estréia no cinema), e a namorada, Abby (Brooke Adams). Bill, de temperamento irrequieto e intempestivo, arrumou uma briga na fábrica em que trabalhava, machucou um homem e teve que fugir para o campo. Junto com Abby, que apresenta como irmã, o rapaz arruma serviço em uma fazenda. O casal trabalha na colheita. Percebendo que o rico e solitário fazendeiro (Sam Shepard) está fascinando por Abby, e sabendo que ele tem pouco tempo de vida devido a uma doença, Bill incentiva a namorada a viver com ele.

Está armado o cenário para uma tragédia que um diretor menos discreto contaria com tintas melodramáticas. Malick, porém, evita o melodrama com firmeza, utilizando a estratégia de ter uma criança narrando. Dessa forma, a visão de mundo que o filme adota é a de um observador passivo, que olha tudo à distância, com inocência e sem um pingo de maldade. Dessa forma, não existe melodrama, mas uma narrativa seca e objetiva.

Sem adotar clichês para mostrar ao espectador a passagem do tempo, Malick liga as cenas de progressão dramática com poderosas imagens da natureza, criando alguns planos de beleza ímpar, verdadeiras pinturas em movimento. Há momentos absolutamente memoráveis, que calam fundo na alma sem a necessidade de palavras: o orvalho se formando em uma folha de grama, pesadas nuvens de tempestade emoldurando a solitária casa grande da fazenda, os vastos campos de trigo pontilhados pelos agricultores no final da tarde. Perto do fim do filme, quando a tragédia mostra a sua cara, Malick investe em lindas e tristes imagens alegóricas de pragas bíblicas – nuvens de gafanhoto, fogo, sangue, morte. Tudo isso sem precisar usar as notas fúnebres e solenes do melodrama, mas louvando, ao contrário, a simplicidade e a discrição. Em resumo, uma maravilha.

O DVD, lançado pela Paramount, apresenta o filme no Brasil pela primeira vez com a tradução literal do título. Nos cinemas, o longa-metragem foi exibido como “Cinzas no Paraíso”. O disco em si é trivial, contendo apenas um trailer como extra. Por outro lado, o que importa aparece impecável: a cópia do filme estala de nova, com imagem preservada no formato correto (widescreen 1.85:1, límpido e sem arranhões) e som excelente (Dolby Digital 5.1). Uma característica fundamental para apreciar este verdadeiro banquete para os olhos.

– Dias de Paraíso (Days of Heaven, EUA, 1978)
Direção: Terrence Malick
Elenco: Richard Gere, Brooke Adams, Sam Shepard, Linda Manz
Duração: 94 minutos

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