Digam o que Disserem

13/09/2006 | Categoria: Críticas

Cameron Crowe traça delicado e profundo retrato da transição da adolescência para a vida adulta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Filmes sobre adolescentes dificilmente inspiram confiança e boas expectativas em cinéfilos com mais de 30 anos. As razões para esse problema são basicamente duas: 1) é difícil, para um adulto, se identificar com os sentimentos, as ambições e a visão de mundo de alguém com menos de 18 anos; 2) ao longo dos anos, o gênero foi se transformando em sucessão interminável de clichês sobre garotos peidões cuja limitada perspectiva não vai muito além de doses cavalares de sexo, drogas (álcool já serve) e rock’n’roll.

Tendo isso em mente, fica fácil afirmar que “Digam o que Disserem” (Say Anything, EUA, 1989) é, junto com o mexicano, “E Sua Mãe Também” (2001), o melhor exemplar do gênero já produzido. Escrito e dirigido por Cameron Crowe, o longa-metragem traça um delicado e profundo retrato da transição da adolescência para a vida
adulta, sem perder de vista a leveza e abusando de humor sutil, inteligente e caloroso. Trata-se do melhor filme de Crowe, um cineasta que daí em diante se especializaria em filmar histórias de juventude repletas de nostalgia romântica, mas infelizmente não mais conseguiria igualar o resultado aqui alcançado.

O filme conta uma história muito simples e até previsível, que inicia com a formatura de uma turma secundarista em Seattle (EUA). Dois dos personagens principais são estudantes que acabam de terminar o ensino médio. O filme é narrado do ponto de vista de Lloyd Dobler (John Cusack). Ele é um cara legal, muito popular, mas com enorme falta de ambição profissional. Sua inércia faz com que os amigos não acreditem que ele seja capaz de namorar Diane Court (Ione Skye), a mais talentosa e promissora colega de turma. Mas ele é apaixonado por ela, e pretende tentar de tudo para construir uma relação.

O terceiro personagem principal é o pai de Diane, James Court (John Mahoney). Dono de um asilo, James cuida da filha desde o divórcio e é uma espécie de fã número 1 da garota. Eles têm uma relação sincera e cheia de carinho, algo admirável de ver, e bastante incomum. De certa forma, porém, a amizade entre pai e filha fez com que ela se tornasse distante do pessoal da sua idade. “Só agora percebo que não conheço meus amigos”, diz ela, depois do primeiro encontro com Lloyd, durante uma festa adolescente. Diane se dá muito bem com o pretendente, mas percebe que talvez isso represente um empecilho para ela, tanto profissionalmente quanto na relação com o pai.

Uma das grandes sacadas do filme é a riqueza dos personagens, que Cameron Crowe desenvolve, com habilidade, através de ações cotidianas, e não apenas de palavras. Perceba, por exemplo, como todos os amigos de Lloyd, mesmo os mais íntimos, não acreditam que manterão contato com ele no futuro. Por quê? Ninguém explica em palavras, mas a gente percebe que ninguém acredita em um futuro decente para Lloyd. Provavelmente vai ficar por ali, saltando entre subempregos e morando em um trailer, enquanto os colegas de turma vão freqüentar universidades, conseguir bons empregos e morar em grandes centros. Neste filme, não são as palavras que definem os personagens, mas as pequenas ações que eles praticam, e esta é uma característica de cinema maiúsculo.

Há um punhado de seqüências delicadas, cheias de honestidade, que enriquecem ainda mais os personagens, transformando-os em seres reais, de carne e osso, com qualidades e defeitos. Observe o modo nada vulgar como Crowe filma a obrigatória cena da primeira transa do jovem casal, dentro do carro (“acho que estou feliz”, diz Lloyd, timidamente, quando ela percebe que ele está tremendo). Não existe malícia, não há sacanagem ali. São só duas pessoas genuinamente apaixonadas uma pela outra. E o rumo que este relacionamento toma, se não chega a ser surpreendente, decerto é insólito. Também a trajetória de James é surpreendente, especialmente a partir do momento em que ele descobre que está sendo alvo de uma investigação federal. O personagem de John Mahoney, um ator maravilhosamente espontâneo, é o melhor e mais rico de todo o filme.

De fato, “Digam o que Disserem” não é sobre um relacionamento, mas sobre a maneira como a chegada de uma pessoa estranha muda a vida já consolidada de uma família. O filme não é apenas sobre Lloyd e Diane, mas sobre o modo com ela, sobretudo, lida com duas possibilidades de futuro que são excludentes e vão, obrigatoriamente, decepcionar uma das duas pessoas que ela mais ama. O longa-metragem possui uma das mais espirituosas, brilhantes e famosas frases já ditas em uma comédia romântica. Ela é dita por Lloyd, encharcado de chuva, dentro de uma cabine telefônica – repeti-la aqui seria retirar o prazer de ouvi-la diretamente do personagem. Como se não bastasse, a obra termina com uma cena genial, finalizada no instante exato; é uma seqüência carinhosa, de espírito elevado. Em resumo, um primor de filme.

O longa nunca foi lançado no Brasil em qualquer formato. Curiosamente, porém, é exibido com certa regularidade em redes de TV a cabo. Nos Estados Unidos há uma excelente versão simples, com imagem na proporção correta (wide 1.85:1 anamórfico), som remixado (Dolby Digital 5.1), um making of, galeria com 10 cenas inéditas, uma segunda galeria com 13 cenas mais extensas e outras cinco em versões alternativas, mais comentário em áudio de Cameron Crowe, John Cusack e Ione Skye.

– Digam o que Disserem (Say Anything, EUA, 1989)
Direção: Cameron Crowe
Elenco: John Cusack, Ione Skye, John Mahoney, Lili Taylor
Duração: 100 minutos

| Mais


Deixar comentário