Dillinger – Inimigo Público Nº 1

05/06/2006 | Categoria: Críticas

Estréia de John Milius é um filme de gângster cheio de violência gráfica, tensão sexual e grandes cenas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Filmes sobre mafiosos, inclusive a histórica e inigualável trilogia “O Poderoso Chefão”, tornaram-se muito populares na virada dos anos 1960/70 por causa do extraordinário sucesso conquistado pelo inovador “Bonnie e Clyde”, em 1967. O longa-metragem de Arthur Penn injetou doses homeopáticas de violência gráfica e tensão sexual entre os personagens, impregnando a história real do casal de gângsteres com a atmosfera libertária do movimento flower power. “Dillinger – Inimigo Público Nº 1” (EUA, 1973) seguiu a mesma receita, adicionando ainda uma porção de misoginia e amplificando o tratamento gráfico e estilizado dado às cenas de ação.

As referências a “Bonnie e Clyde” são tão fartas que é impossível não perceber a tentativa explícita de associação entre as duas obras. A trama, que enfoca a perseguição empreendida pelo FBI ao conhecido assaltante de bancos John Dillinger (Warren Oates), também cria ficção em cima de fatos reais; o visual construído em tons pastéis entremeados por seqüências de ação com cores explosivas, é idêntico; há forte alusão sexual na história, porque Dillinger, como Clyde, é mostrado como um sujeito que tinha dificuldades para lidar com garotas; e até mesmo a tipologia das letras utilizadas nos créditos é semelhante à escolha estética do filme de Arthur Penn.

Outra influência bastante perceptível é o cinema de Sam Peckinpah, especialmente no tratamento estilizado que o diretor novato John Milius dá as cenas de violência. Há três longos tiroteios em câmera lenta, com muitos jorros de sangue e rajadas de metralhadora explodindo diretamente na câmera, em material tremendamente gráfico, que evoca diretamente os filmes nervosos de Peckinpah. Vale ressaltar, porém, que Milius faz mais do que meramente copiar esses dois mestres, pois trabalha em cima de um roteiro redondo, ágil, que valoriza bastante a dinâmica entre os diversos membros do bando de assaltantes.

Além disso, há elementos originais em “Dillinger”, como uma leve misoginia, expressa fundamentalmente na relação conturbada que os bandidos do grupo mantêm com suas mulheres. Dillinger, por exemplo, apaixona-se instantaneamente por uma prostituta quando esta o confronta de igual para igual, em uma seqüência antológica pela crueza – ele lhe chama de “vagabunda”, ela o esbofeteia, ele bate nela com mais força, ela redobra o vigor dos tabefes, até que Dillinger põe fim à troca de tapas com um soco que atira na cama. Não eram muitos os cineastas que, em 1973, tinham coragem de filmar uma cena de amor como esta.

O elenco do longa-metragem, com diversos atores egressos do bando selvagem (com trocadilho) que acompanhava Sam Peckinpah, é excelente. Warren Oates, o protagonista, é possivelmente o ator mais subvalorizado do cinema norte-americano da época, e dá um show com sua expressão cínica. Quem rouba a cena, no entanto, é Ben Johnson, que interpreta o irascível Melvin Purves, dirigente do FBI encarregado de perseguir o meliante. Ben protagoniza as cenas mais irônicas e tem pelo menos uma aparição inesquecível, travando uma surreal discussão com uma criança que brinca de polícia-e-ladrão, um pirralho desbocado que anuncia sem vergonha a intenção de virar ladrão de banco quando crescer (“para ser bandido eu não preciso estudar”).

Nesta, como em várias outras seqüências da produção, o roteiro escrito pelo diretor John Milius procura documentar a decadência dos valores de uma sociedade em que a corrupção se torna natural, integrada ao estilo de vida das pessoas, desde a mais tenra idade. Observe, por exemplo, o hilariante momento da divisão da grana gerada pelo roubo de um banco que John Dillinger assalta após fugir da prisão. Atente especialmente para a reação do diretor do presídio quando este é confrontado com uma decisão pessoal de cunho absurdo. Não, a cena não é apenas uma piada. John Milius tinha mesmo algo a dizer, algo a documentar, sobre o estado das coisas da sociedade norte-americana.

Como se não bastasse tudo isso, as canções que compõem a trilha sonora, como muito jazz, blues rural e até um tango (em outra cena maravilhosa que documenta um insólito encontro entre Dillinger e Purves num restaurante da moda em Chicago), são fantásticas. “Dillinger” termina com um clímax longo, explosivo e muito bem construído. Trata-se da estréia promissora de um diretor que logo seria um dos grandes em Hollywood – Milius dirigiu o primeiro “Conan”, em 1982, e fez de Arnold Schwarzenegger um astro internacional – mas que, talvez por ter sido considerada mera imitação, não recebeu o valor que merece. Ou seja, é um filme que precisa ser redescoberto.

O disco simples, lançado pela Aurora, segue o padrão adotado pela distribuidora pernambucana. Um trailer é o único extra. O disco tem boa qualidade de imagem (wide 1.85:1 letterboxed) e som (Dolby Digital 2.0).

– Dillinger – Inimigo Público Nº 1 (EUA, 1973)
Direção: John Milius
Elenco: Warren Oates, Ben Johnson, Michelle Phillips, Harry Dean Stanton
Duração: 107 minutos

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