Dirigindo no Escuro

28/02/2004 | Categoria: Críticas

Woody Allen faz troça de Hollywood e, mesmo repetindo-se, reafirma seu nome como um dos grandes artistas do cinema atual

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Woody Allen é, indiscutivelmente, um dos grandes autores do cinema contemporâneo. Allen talvez seja o diretor em atividade que melhor construiu e refinou sua condição de artista, se considerarmos que um cineasta precisa desenvolver um universo e um estilo particulares para aspirar a essa condição.

“Dirigindo No Escuro” (Hollywood Ending, EUA, 2002) reafirma todas as qualidades do homem que se recusou a comparecer à premiação do Oscar durante mais de 20 anos apenas porque não podia faltar aos concertos de jazz que costuma oferecer, como hobby, às noites de segunda-feira num bar em Nova Iorque. É um filme despretensioso, bem narrado, auto-referente e, como já é de praxe em se tratando de Woody Allen, muito engraçado.

O longa mais recente do cineasta, que demorou mais de um ano para aportar nos cinemas brasileiros, pertence à estirpe dos filmes que utilizam a metalinguagem com criatividade; ou seja, possui um ‘filme dentro do filme’, algo que películas como “A Noite Americana”, “O Estado das Coisas” ou “Quando Paris Alucina” fizeram muito bem.

Val Waxman (Allen, reprisando mais uma vez o personagem neurótico, hipocondríaco, temperamental e adorável que sempre protagoniza seus filmes) é um cineasta em decadência. Apesar de possuir dois Oscar na estante da sala, vive uma fase de trabalho escasso e é obrigado a dirigir comerciais de TV para sobreviver. Mas eis que aparece uma proposta de trabalho irrecusável: dirigir uma superprodução de US$ 60 milhões para um grande estúdio de Hollywood, um drama romântico chamado “A Cidade Que Nunca Dorme”.

Claro que uma proposta assim não surgiria do nada. A oferta é obra de Ellie (Tea Leoni, excelente), ex-mulher de Waxman que casou com um dos executivos mais poderosos do mundo do cinema e virou produtora. Apesar da hesitação do marido e dos sócios do estúdio, ela consegue convencê-los, à guisa de muita lábia, que Waxman merece uma chance de se reerguer e possui todos os predicados para o trabalho: é muito bom em dirigir atores e pode fazer uma declaração de amor em celulóide à cidade de Nova Iorque, que é uma das intenções do estúdio (a outra intenção é faturar algo perto de US$ 1 bilhão).

Sem muita escolha, Waxman aceita o trabalho, mesmo sem ter se recuperado totalmente da perda da esposa. O problema surge no primeiro dia de filmagens: o cineasta acorda cego e, depois de uma rodada completa pelos consultórios médicos, descobre que não sofre de nenhum problema físico – a origem da cegueira é psicológica e, sendo assim, ele pode ficar bom a qualquer momento. A estratégia que ele e o agente Al (Mark Rydell) usam para não perder a grande chance de retorno ao estrelato é simplesmente omitir o ‘pequeno’ detalhe de toda a equipe técnica do filme e dirigir a película sem ver nada. “Você tem visto os filmes ultimamente? Parecem ter sido dirigidos por cegos!”, afirma Al, numa das piadas mais hilariantes do longa.

Uma trama dessas, como se pode perceber, é um prato cheio para que Allen faça uma crítica bem ao seu estilo – sarcástica, mas elegante e sempre bem-humorada – à indústria do cinema norte-americano. Assim, todos os clichês que conhecemos bem a respeito dos bastidores da indústria do cinema (atores burros como portas, executivos endividados que fazem bronzeamento artificial e só pensam na próxima plástica, atrizes que dão em cima dos diretores apenas para conseguir bons papéis) são impecavelmente distribuídos por Allen ao longo da trama.

O diretor não poupa nem a si mesmo, retratando o falido Waxman como uma auto-caricatura – ele quer fazer do filme em preto-e-branco uma elegia à Big Apple (“Manhattan”) e insiste na contratação de um cinegrafista chinês, embora não consiga se comunicar com ele (Zhao Fei, de “Poucas e Boas”).

Engrossando os méritos do filme estão os excelentes diálogos, sempre destilando sarcasmo e renovando o arsenal de piadas sobre judeus e novaiorquinos que sempre enchem os filmes de Woody Allen. Além disso, o cineasta extrai boas interpretações de todo o elenco, que parece se divertir enormemente fazendo o filme (Treat Williams, no papel do executivo estúdio que emprega Waxman, está sempre à beira do riso).

Se algo pode ser apontado como ponto fraco é a tendência à repetição que vem marcando os últimos trabalhos do cineasta, bem como a falta de ambição de uma película como essa. Afinal, piadas sobre Hollywood, filmes metalinguísticos e homenagens a Nova Iorque já foram feitas aos montes, com grandes resultados inclusive pelo próprio Allen – basta lembrar de “Manhattan”, a película anterior do cineasta que mais possui semelhanças com esta. Se não possui sabor de novidade, contudo, o que “Dirigindo no Escuro” tem de sobra é a despretensão que faz falta a quase todos os gênios do cinema da atualidade. Só por isso, Woody Allen já merecia mais um Oscar.

– Dirigindo no Escuro (Hollywood Ending, EUA, 2002)
Direção: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Tea Leoni, Treat Williams, Mark Rydell
Duração: 112 minutos

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