Disparo Para Matar

02/09/2005 | Categoria: Críticas

Faroeste enigmático de final ambíguo lembra fusão de David Lynch com Michelangelo Antonioni

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Imagine um faroeste dirigido em parceria pelos cineastas David Lynch e Michelangelo Antonioni. Pronto: você tem uma descrição bastante exata do que é o enigmático, lento e silencioso longa-metragem “Disparo Para Matar” (The Shooting, EUA, 1966). O filme foi o primeiro de dois westerns produzidos pelo diretor Monte Hellman junto com o então emergente ator Jack Nicholson. Quase sem dinheiro, os dois se juntaram para perseguir o nada modesto objetivo de subverter as regras do estilo. E conseguiram. Não importa que “Disparo Para Matar” seja desconhecido por 99% dos amantes de cinema. O filme é excelente mesmo assim.

O clima de mistério é introduzido já nos primeiros segundos de projeção, a partir da música evocativa de Richard Markowitz. O filme é sobre o mineiro Will Gachade (Warren Oates). Ele está retornando à mina de prata onde está escavando, após alguns dias de ausência. Lá, encontra o ajudante Coley (Will Hutchins), escondido dentro de uma barraca e bastante nervoso. Ele conta que dois dias antes o irmão de Will e o amigo Leland voltaram assustados da cidade vizinha. Coin Gachade teria atropelado um homem e uma criança, e fugido sem prestar socorro. Com medo, Coin então teria montado num cavalo e fugido. Leland ficou, apenas para acabar baleado horas depois. Coley não viu o assassino. Permaneceu escondido até a aparição de Will.

Os dois mineiros não têm nem tempo de pensar sobre o que fazer. Uma mulher (Millie Perkins) aparece na estrada e pede ajuda. Deseja que Will lhe venda um cavalo e sirva como guia para que ela possa atravessar um deserto tórrido e chegar até a cidade de Kingsley. Detalhe: Monte Hellman nos mostrou a garota matando de propósito o próprio cavalo. Pretexto para se aproximar? Não importa. Ela paga US$ 1.000 pela viagem. Will topa, desde que Coley possa ir junto. Malas feitas, o trio pega a estrada. E é aí que as coisas começam a ficar realmente complicadas, especialmente depois que ela encontram um estranho pistoleiro de luvas negras e pistola prateada, Billy (Jack Nicholson).

“Disparo Para Matar” é um filme que pergunta e se recusa a responder. As dúvidas vão se acumulando: quem é a mulher misteriosa? Por que ela pára de tempos em tempos, durante a viagem, para dar tiros a esmo? Como ela sabia o nome de Will Gachade sem que ninguém dissesse a ela? Por que se recusa a dizer o próprio nome? Por que insiste para que Will siga a pista do irmão fugitivo, que passou por ali dois dias antes? Para complicar ainda mais, eles vão encontrando pelo caminho figuras bizarras que parecem saído de um filme de David Lynch: um índio quase mudo, um homem de barba com a perna quebrada.

A rigor, “Disparo Para Matar” é um quebra-cabeças que os fãs de “Cidade dos Sonhos” adorariam montar. Mas a influência mais evidente de Monte Hellman é a obra melancólica e existencialista de Michelangelo Antonioni. Como nos filmes do mestre italiano, os personagens de “Disparo Para Matar” parecem perdidos, sem direção. A paisagem desolada reforça essa impressão, especialmente depois que o grupo deixa a escassa vegetação rasteira da região mineira e entra no deserto californiano, com a areia branca, a luz esfuziante e o azul do céu assassino, que queima como fogo.

Uma característica sempre comentada pelos fãs do filme é a ausência quase absoluta de diálogos explicativos. Esse detalhe aproxima a obra de filmes como “A Aventura” ou “Blow Up”, de Antonioni. Mas merece destaque especial a espetacular fotografia de Gregory Sandor, que compõe enquadramentos precisos e pouco comuns, com uso abundante de câmera subjetiva (principalmente no primeiro terço da projeção). Sandor adora enquadrar os personagens de forma secundária, deixando em primeiro plano objetos (um revólver), partes do corpo (uma bota, uma mão) ou elementos cênicos (uma pedra). Essa opção acentua ainda mais o clima de estranheza. O espectador sente, o tempo inteiro, que está falando alguma coisa. E essa sensação não termina com o final do filme.

Sim, o polêmico final. Esse é um daqueles finais que exigem discussão após o filme, mais ou menos na linha de um “Cidade dos Sonhos”. Monte Hellman faz uma citação bastante óbvia ao filme de Zapruder (a fita caseira que mostrou o assassinato de Kennedy), usando câmera lenta e uma montagem propositalmente truncada, que confunde ao invés de explicar o acontecimento. Interessante é que Hellman garante que o final do filme é lógico e pode ser compreendido, desde que o espectador preste bastante atenção aos detalhes, especialmente no começo e no fim da projeção.

Não há dúvida de que é possível construir uma explicação para os eventos mostrados nos últimos minutos, mas isso vai depender da capacidade de cada espectador em montar o quebra-cabeças oferecido pelo diretor. Em termos de visual e de clima, é possível dizer que o final de “Disparo Para Matar” lembra muito o futuro “Piquenique na Montanha Misteriosa”, que Peter Weir faria dez anos depois.

Vale ressaltar que “Disparo Para Matar” foi produzido com a ridícula quantia de US$ 75 mil, custeados pelo diretor e por Jack Nicholson. A equipe de produção tinha somente sete pessoas, além dos quatro atores. Está aí mais um excelente exemplo de que filmes bons, que provocam reflexão, não precisam necessariamente de muito dinheiro para serem produzidos. “Disparo Para Matar” pode não agradar aos fãs do faroeste tradicional, mas merece uma conferida atenta por quem gosta de cinema experimental.

O lançamento nacional é da Works DVD. O filme tem imagens granuladas, mas preserva de certo modo a vitalidade das cores e tem formato widescreen 16:9. O som é Dolby Digital 2.0. Não há nenhum extra. A edição norte-americana contém um comentário em áudio com o diretor, a atriz Mille Perkins e o crítico Dennis Bartok. Uma curiosidade interessante é que, em VHS, o filme foi lançado no Brasil com o nome “O Tiro Certo”.

– Disparo Para Matar (The Shooting, EUA, 1966)
Direção: Monte Hellman
Elenco: Warren Oates, Millie Perkins, Will Hutchins, Jack Nicholson
Duração: 82 minutos

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