Disque M para Matar

26/03/2008 | Categoria: Críticas

Feito a toque de caixa por Hitchcock, thriller mostra o domínio impressionante do diretor sobre a gramática dos filmes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Alfred Hitchcock odiava a idéia de sofrer um bloqueio criativo. Sempre que encontrava dificuldades para desenvolver um roteiro, o cineasta inglês o deixava de lado e corria para território seguro, pegando qualquer thriller que estivesse disponível em Hollywood e transformando-o em seu próximo projeto. “Disque M para Matar” (Dial M for Murder, EUA/Inglaterra, 1954) surgiu dessa maneira e foi feito a toque de caixa, no espaço de poucos meses. Por causa disso, Hitchcock o considerava um filme menor, sem importância. Ocorre que o nível regular do mestre do suspense era tão elevado que, apesar de não estar à altura das grandes obras-primas que dirigiu, a produção acabou se revelando um suspense de primeira linha, um filme eletrizante, repleto de tensão e com os toques narrativos geniais típicos de um dos maiores cineastas de todos os tempos.

“Disque M para Matar” nasceu de um espetáculo teatral de sucesso na Broadway. Hitchcock estava às voltas com um roteiro emperrado quando soube que a Warner havia adquirido os direitos da peça. De imediato, ele se ofereceu para dirigi-la, e nem mesmo fez alterações significativas na trama. A origem teatral fica evidente para quem assistir ao filme com atenção. Com exceção de uma elipse elegante no meio da trama (obtida com um cenário neutro e um jogo estilizado de iluminação) e três ou quatro cenas curtas de transição, toda a ação dramática acontece dentro de um único cenário: um apartamento de classe média em Londres, onde um ex-tenista playboy (Ray Milland) planeja meticulosamente uma maneira de matar a mulher rica (Grace Kelly) para herdar a fortuna. A moça está de caso com um escritor americano (Robert Cummings). O ex-atleta não liga para a traição, mas abomina a idéia de que ela possa pedir o divórcio, o que significaria que ele precisaria trabalhar para manter os hábitos refinados.

A apresentação dos personagens é antológica. A primeira cena mostra Tony e Margot felizes, tomando café da manhã. Bonitos, jovens e sorridentes, eles parecem um casal perfeito. Então ela lê uma pequena nota no jornal sobre a chegada de um navio norte-americano a Londres. Há um corte, e a mulher aparece aos beijos com outro homem. No café, ela usava um austero e suave vestido branco; com o amante, veste uma insinuante e decotada peça vermelha. As roupas sublinham quem ela realmente ama. Esta apresentação é um truque eficiente, pois faz a platéia imediatamente simpatizar com o marido traído. Aos poucos, porém, o sujeito se revelará um monstro insensível que planeja, nos mínimos detalhes, um crime perfeito (ecos de “Festim Diabólico” e “Pacto Sinistro” são evidentes aos conhecedores da obra Hitchcockiana). Aos poucos, a platéia se verá torcendo pela mocinha, que passará paulatinamente de infiel a vítima.

Por ser crivada de diálogos abundantes (que primam pela dedução lógica e são muito inteligentes) e praticamente nenhuma ação física, a narrativa poderia criar problemas para diretores menos criativos, mas não para Hitchcock. Durante as conversas, ele usa e abusa dos planos de reação (mostra preferencialmente quem está ouvindo, e não quem está falando) para aumentar o suspense – e a interpretação deliciosamente canalha de Ray Milland aumenta a eficácia da estratégia. Além disso, Hitchcock filmou com a tecnologia 3D, e fez isso de maneira original e inventiva. Ao invés de apelar para os truques manjados de mostrar personagens atirando objetos em direção à câmera, ele põe móveis e objetos com freqüência no primeiro plano, à frente dos atores, para acentuar a sugestão de tridimensionalidade. O resultado é muito bom, embora não possa ser percebido em toda a plenitude, porque o efeito de 3D inexiste em DVD.

Por fim, é importante salientar que “Disque M para Matar”, embora não pareça, é um legítimo representante dos filmes sobre pessoas acusadas por crime que não cometeram. O tema predileto de Hitchcock ganha uma abordagem original, já que a narrativa é contada não do ponto de vista da vítima, e sim do criminoso. Graças a todos esses recursos dramáticos, todos empregados com a máxima eficácia, os amantes do bom suspense precisam manter a respiração presa até o último minuto de projeção para conhecer o destino de culpados e inocentes. “Disque M para Matar” pode não ser uma das grandes obras-primas de Hitchcock, mas continua muito melhor do que 98% dos thrillers contemporâneos.

O DVD simples, da Warner, é ótimo. A qualidade de imagem (tela cheia, 1.33:1) está razoável, enquanto o áudio (Dolby Digital 1.0) aparece claro e limpo. Além de um trailer, aparecem dois extras excelentes: um documentário sobre a produção (21 minutos) e um featurette (7 minutos) explicando como Hitchcock abordou a tecnologia 3D no longa-metragem, ambos dirigidos pelo craque no gênero Laurent Bouzereau. Juntos, os dois extras são a prova definitiva de que nem sempre a duração curta é sinônimo de documentário superficial ou enfadonho. Ambos estão repletos de informações inteligentes e entrevistados articulados (Peter Bodgadovich, M. Night Shyamalan, Richard Schikel).

– Disque M para Matar (Dial M for Murder, EUA, 1954)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams
Duração: 105 minutos

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