Dívida de Sangue

21/09/2003 | Categoria: Críticas

Clint Eastwood demole imagem do detetive duração ao “envelhecer” Dirty Harry num longa fraco

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Alguns estudiosos do cinema defendem a condição de Clint Eastwood como maior autor vivo da Sétima Arte em atuação em Hollywood. Muitas características da obra dele contribuem para essa classificação: unidade temática e falta de compromissos formais com os grandes estúdios, por exemplo. Obviamente, o lugar mais alto de um pódio imaginário para esse tipo de listagem é polêmica, para dizer o mínimo – como situar Woody Allen e Robert Altman, apenas para citar dois diretores norte-americanos? Com “Dívida de Sangue” (Blood Work, EUA, 2002), Eastwood confirma a sutileza na arte da dirigir filmes, só que dessa vez de forma negativa: embora a distância que separa as duas coisas seja mínima, é possível dizer que dessa vez o cineasta não se reinventa; infelizmente, ele apenas se repete.

“Dívida de Sangue” poderia ser descrito como uma espécie de “Os Imperdoáveis” de temática urbana. O diálogo entre os dois filmes é franco e direto. O objetivo de Clint Eastwood com o novo trabalho, na realidade, é exatamente o mesmo que teve ao filmar a obra-prima que lhe deu os Oscar de filme e diretor, em 1992: humanizar as personas cinematográfica que lhe deram fama e fortuna, enfocando diretamente o processo de decadência física e emocional desses indivíduos. No caso de “Os Imperdoáveis”, Eastwood demoliu o mito do caubói durão, misterioso e implacável, que construiu nas obras do italiano Sergio Leone, na década de 1960. Em “Dívida de Sangue”, o mito flagrado em queda livre é o do detetive (também durão, misterioso e implacável), imortalizado nos cinco filmes em que interpretou o policial Dirty Harry Calahan.

Não se pode dizer que essa tentativa de derrubar a lenda em torno de si mesmo não seja um processo corajoso. Ela significa, afinal, expor o lado humano de uma celebridade. Eastwood parece querer dizer ao público que não é mais um herói infalível, que envelheceu, perdeu o vigor. Nesse sentido, a obra do diretor Clint Eastwood continua a exibir a unidade temática – e, especialmente, uma noção de introspecção e tempo interior muito particular – tão cara aos estudiosos de cinema. Mas os elogios devem parar por aqui. Porque, ao contrário de Os Imperdoáveis, a nova obra de Eastwood apresenta elementos estéticos repetitivos; ao invés de usar os clichês de forma criativa, para criticá-los, dessa vez o diretor se deixa seduzir pelas facilidades da cartilha hollywoodiana do cinema de ação.

Esse dado sobressai facilmente quando se olha para o enredo do filme, tirado de um livro do bom autor policial Michael Connelly (“O Vôo dos Anjos”) e roteirizado pelo mesmo Brian Helgeland que fez o texto instigante de “Los Angeles – Cidade Proibida”. Eastwood interpreta Terry McCaleb, um policial federal que sofre um ataque cardíaco enquanto persegue um serial killer, um sujeito desafiador que deixa mensagens em código numérico no local do crime. Dois anos depois, McCaleb sofre um transplante de coração e aposenta-se, passando a morar num barco. Lá, acaba sendo procurado pela irmã (Wanda de Jesús) da doadora do órgão que lhe permitiu sobreviver. Ela deseja que ele investigue e procure o assassino da parente. O que, obviamente, ele faz, em meio a acessos de febre.

A premissa não é inteiramente original, e tampouco o trabalho de direção de Eastwood dá alguma ajuda nesse sentido. Pelo contrário: apesar do bom elenco que tem à disposição, o roteiro frouxo e os diálogos pouco inspirados deixam tudo com ar artificial (é triste ver Angelica Houston e Jeff Daniels, dois bons profissionais que andam meio apagados, afundarem em dois papéis que poderiam ser interessantes, como respectivamente a médica que operou McCaleb e seu melhor amigo). Depois disso tudo, o final previsível afunda o filme de vez. Com “Dívida de Sangue”, a minoria de críticos que defende a tese da decadência da obra de Eastwood após “Os Imperdoáveis” ganha um reforço inesperado.

– Dívida de Sangue (Blood Work, EUA, 2002)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood, Wanda de Jesús, Jeff Daniels
Duração: 108 minutos

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