Django

22/08/2005 | Categoria: Críticas

Filme do ex-assistente de Sergio Leoni traz marcas registradas do western spaghetti

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Com a explosão do chamado western spaghetti, entre as décadas de 1960 e 1970, o diretor italiano Sergio Corbucci ganhou, entre cinéfilos e admiradores do subgênero, a ingrata alcunha de “o outro Sergio”. O apelido era referência direta a Sergio Leone, mais talentoso cineasta a militar no movimento. Pouca gente sabia, entretanto, que Corbucci tinha sido assistente de Leone, e que partira para carreira solo ao mesmo tempo em que o mentor produzia o primeiro exemplar do western spaghetti, “Por Um Punhado de Dólares”, em 1964. “Django” (Itália/Espanha, 1966) foi feito quase ao mesmo tempo, só que acabou lançado dois anos depois.

A rigor, Corbucci bebia na mesma fonte de Leone. Os dois utilizaram a mesma estrutura arquetípica para criar a figura do pistoleiro misterioso, infalível com a pistola e de passado incerto, que perturbava a ordem de cidadezinhas perdidas no meio da vastidão dos desertos do meio-oeste norte-americano. Nos dois casos, são heróis de ética própria, cuja moral está a serviço de si mesmo e acima de conceitos como Bem e Mal. Mas os resultados foram distintos. O talento levou Leone ao sucesso de crítica e a uma carreira em Hollywood. Já o apenas competente Corbucci jamais conseguiu ultrapassar a barreira do filme B.

É interessante perceber que “Django”, apesar de tido como um filme inferior, influenciaria os dois filmes seguintes de Leone. Em “Por uns Dólares a Mais” e “Três Homens em Conflito”, o personagem de Clint Eastwood torna-se ainda mais silencioso e mais enigmático, o que lhe empresta uma aura quase mítica. Esses detalhes, que refinaram o imortal “homem sem nome” de Sergio Leone, são emprestados do Django de Franco Nero. Aliás, a persona do vingador misterioso se tornaria imprescindível para todo o western spaghetti. O subgênero, que gerou perto de 600 longas-metragens até meados dos anos 1970, criou dezenas de heróis idênticos.

A origem desses vingadores enigmáticos pode ser encontrada nos quadrinhos de faroeste, muito populares na Itália. Mas Django e o homem sem nome de Clint Eastwood puseram esse arquétipo no mapa dos cineastas. Nesse sentido, a poderosa imagem de abertura de “Django” é insuperável. A tomada mostra nosso herói caminhando por uma planície lamacenta e carregando um caixão. Sim, um caixão. Uma música dramática, quase operística, acompanha a caminhada solitária. A presencia da bagagem macabra apenas acentua a curiosidade: quem é esse homem? O caixão está vazio, guarda algo ou alguém?

A cena, embora criada como pano de fundo para a exibição dos créditos do filme, é a melhor do longa-metragem. Uma vez que o filme inicia, contudo, a semelhança da história com o primeiro faroeste de Sergio Leone é grande demais para ser ignorada. Django (Neri) chega a uma pequena cidade, cenário da luta de dois grupos de bandidos (militares renegados X bandoleiros mexicanos), para obter uma vingança. Nos dois filmes há cemitérios e caixões desempenhando papel importante. Mas a obra de Sergio Corbucci abre com mais perguntas do que a do compadre Leone: o que Django deseja vingar? E o que raios existe dentro do caixão, afinal? Essas perguntas serão respondidas mais rapidamente do que esperamos, já que após os 30 minutos de projeção a trama de vingança dá lugar a um assalto impossível, e envereda por outro caminho.

Django é um pistoleiro na melhor tradição do western spaghetti: frio, ousado, veloz e de mira quase sobrenatural. O personagem é trabalhado por Corbucci com o mesmo estilo operístico de Sergio Leone. Ele abusa de closes que apanham o rosto de Django quase sempre encoberto pelo chapéu, o que acentua ainda mais o enigma do forasteiro e valoriza o azul límpido dos olhos do ator. O diretor prefere, também, valorizar os momentos de tensão pré-tiroteio, ao invés de exibir-se nas seqüências de violência e ação.

Inserido dentro da tradição do western spaghetti, “Django” foi feito com orçamento minúsculo, o que dá ao filme a aparência tosca de um filme B. O orçamento é tão pequeno que não há sangue nos tiroteios: os atingidos têm quedas acrobáticas e morrem sem que sejam vistas manchas vermelhas nas roupas. A razão disso não foi a censura, como prova uma cena, particularmente perturbadora, em que os mexicanos torturam um ianque. O problema foi a falta de dinheiro mesmo.

Esse detalhe não impediu Corbucci de colocar no enredo todas as marcas registradas do que se tornaria o gênero, como os cenários repletos de lama (um elemento de que Leone não gostava), as construções devastadas como se fizessem parte de uma cidade-fantasma e um ótimo criador de trilhas sonoras. Luiz Bacalov, como se sabe, ficaria conhecido por emular com perfeição o estilo de Ennio Morricone.

“Django” pode não ter feito fama como os filmes de Sergio Leone, mas consagrou-se como um dos melhores exemplares do western spaghetti e não passou despercebido para os admiradores do estilo. Robert Rodriguez, por exemplo, apenas trocou o exótico caixão do pistoleiro por uma caixa de violão para criar seu assassino mariachi. E Quentin Tarantino, o mais famoso fã de faroestes italianos, fez uma citação bem evidente da cena da tortura de “Django” no seu trabalho de abertura, “Cães de Aluguel”.

O lançamento brasileiro leva a assinatura da New Line Home Video. A cópia de “Django” tem imagem widescreen 1.85:1, com razoável qualidade, e duas trilhas de áudio Dolby Digital 2.0 (em inglês e português, ambas com chiados). O único extra é uma pequena entrevista legendada com Franco Neri (7 minutos), que lembra detalhes das filmagens.

- Django (Itália/Espanha, 1966)
Direção: Sergio Corbucci
Elenco: Franco Nero, José Bódalo, Loredana Nusciak, Eduardo Fajardo
Duração: 90 minutos

| Mais

GOSTOU DO FILME? DÊ SUA NOTA

1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (4 votos. Média de 3,25 em 5)
Loading...Loading...


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »

  1. melhor faroeste do mundo

  2. I’d wait until the official poersts are released. The official poersts should be pretty easy to find on Amazon once they’re available.If you like this particular poster, though, try asking the artist who made it (there’s a link to his website in the post).

Deixar comentário