Do Fundo do Mar

03/11/2008 | Categoria: Críticas

Híbrido de suspense e aventura com toques de ficção científica, filme de Renny Harlin é espécie de Steven Spielberg genérico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Híbrido de suspense e aventura com toques de ficção científica, “Do Fundo do Mar” (Deep Blue Sea, 1999) traz as impressões digitais de Steven Spielberg espalhadas por todos os cantos. O paralelo mais óbvio, claro, é com o clássico “Tubarão” (1976), já que os dois filmes contam a história de um grupo de humanos tentando escapar dos ataques violentos de feras subaquáticas. Só que, na verdade, a inspiração maior para o longa-metragem de Renny Harlin veio de “Parque dos Dinossauros” (1991), já que o tema principal trata dos perigos imprevisíveis trazidos à tona quando o homem resolve brincar de Deus, manipulando animais com o uso de engenharia genética.

Obviamente, Renny Harlin não está à altura nem mesmo de sentir o cheiro do chulé de Spielberg. Ele fez carreira dirigindo grandes produções de ação para os estúdios de Hollywood, mas nenhum dos filmes que assinou ultrapassou o nível básico de diversão bem feita, mas sem personalidade. Harlin é um daqueles operários/artesãos que seguem os passos de Michael Bay (“Transformers”), filmando qualquer história que lhe cai nas mãos da maneira mais bombástica, exagerada e barulhenta possível, sem conseguir aplicar qualquer característica pessoal que sirva como assinatura estilística. Sua maior façanha foi ter dirigido a segunda parte da trilogia “Duro de Matar”, e nem assim conseguiu chegar a um resultado satisfatório – certamente não do ponto de vista da qualidade autoral.

“Do Fundo do Mar” não passa de uma variação mal disfarçada da trama básica de “Jurassic Park”, só que acrescida dos elementos fundamentais do subgênero conhecido como “filmes de cerco”, que diretores como John Carpenter e Howard Hawks dominaram como ninguém. O roteiro, de Duncan Kennedy, Donna e Wayne Powers, estabelece a ação dramática em uma estação submarina de pesquisas genéticas. Comandados pela doutora Susan McAlister (Saffron Burrows), a equipe trabalha no desenvolvimento de uma vacina para curar o Mal de Alzheimer. McAlister, por sinal, tem uma razão de foro íntimo para alcançar o sucesso no trabalho, pois o pai dela sofre da doença. A equipe tem um biólogo (Thomas Jane), cientistas (Stellan Skargaard, Michael Rapaport), um cozinheiro (LL Cool J) e alguns outros integrantes.

A pesquisa consiste em ampliar a capacidade cerebral de tubarões, com uso de engenharia genética, e então utilizar o tecido cerebral dos bichos para auxiliar na criação de um composto capaz de estimular a regeneração cerebral. O problema é que os três gigantescos tubarões criados pelos pesquisadores desenvolvem a capacidade de raciocinar, e põem em prática um plano para destruir a estação de pesquisas e fugir para mar aberto. Tudo isso exatamente no momento em que um representante dos financiadores da pesquisa (Samuel L. Jackson) faz uma visita às instalações, para decidir se a grana vai continuar chegando ou se a instalação submarina será fechada para sempre – esse personagem é o elo mais explícito de longa com o sucesso de Spielberg.

A galeria de personagens segue o mesmíssimo padrão criado em “Parque dos Dinossauros”: há entusiastas fanáticos pela pesquisa (Burrows), céticos absolutos (Thomas Jane) e gente que reconhece prós e contras na pesquisa. Em “Do Fundo do Mar”, porém, não há muito tempo para discussões filosóficas. A partir do momento em que um dos tubarões ataca os cientistas no momento da extração do fluido cerebral, o filme se transforma em correria alucinante no melhor estilo “slasher movies”, em que os tubarões vão maquinando planos cada vez mais absurdos – um deles chega a utilizar uma maca, inclusive com um homem humano amarrado nela, como aríete para arrebentar a janela panorâmica submarina da estação, inundando-a – para detonar os cientistas. Os exageros são flagrantes, mas o caldo até que rende uma sessãozinha de fim de tarde sem muito compromisso com lógica.

O DVD lançado pela Warner traz o filme com enquadramento original correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Os extras têm dois documentários (um sobre os efeitos especiais e outro enfocando as filmagens). Há cenas cortadas com comentários do diretor e um áudio-comentário reunindo Samuel L. Jackson e Renny Harlin, além do trailer obrigatório.

– Do Fundo do Mar (Deep Blue Sea, 1999)
Direção: Renny Harlin
Elenco: Saffron Burrows, LL Cool J, Thomas Jane, Samuel L. Jackson
Duração: 105 minutos

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