Do Inferno

01/01/2005 | Categoria: Críticas

Lenda de Jack, o Estripador ganha revisão à base de cuidadosa reconstituição visual da Londres do século XIX

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Quando místicos, teólogos e esotéricos em geral proclamam o século XX como um período diabólico, estão fazendo referência direta ao aumento, em escala geométrica, da violência nas grandes cidades. O fenômeno dos serial killers, particularmente, ofereceu tantos exemplos macabros de mentes esquizofrênicas que tornou-se banal. Comparado com monstros como John Wayne Gacy (que sodomizou e matou 33 crianças) e Jeffrey Dahmer (que congelava e comia suas vítimas), o famoso Jack o Estripador nem deveria mais permanecer assustador. Mas, como toda boa lenda, Jack vive. Na literatura, nas revistas em quadrinhos, no cinema e em DVD. A mais recente obra que tematiza o misterioso assassino é “Do Inferno” (From Hell, EUA/República Tcheca, 2001).

Há bons motivos para a permanência do mito de Jack. O mais lembrado é que o Estripador apareceu para o mundo em 1888, época em que os tablóides de fofoca estavam começando a fazer sucesso. O assassino revestiu-os da popularidade de que desfrutam ainda hoje, em Londres. Mas a mitologia, sem dúvida, está relacionada ao fato de que sua identidade jamais foi descoberta.

A histeria é tão grande que gente famosa, como a escritora Patricia Cornwell, se dedica a torrar fortunas em detetives particulares, para tentar descobrir alguma prova ou indício que traga luz ao caso. Cornwell já gastou mais de US$ 5 milhões tentando provar uma teoria maluca sobre um dos suspeitos. Outros estudiosos fizeram parecido. Ninguém chegou a qualquer resposta concreta. Bem, os gêmeos e cineastas Albert e Allen Hughes pelo menos tentaram. E fizeram um filme interessante.

A excelente direção de arte chama a atenção de cara. A reconstituição de época mostra-se definitiva, e as ruas escuras e construções vitorianas transmitem o clima lúgubre que a história pede. O mérito está nas locações, já que os irmãos decidiram tirar os atores dos estúdios. O decadente bairro de Whitechapel (cenário dos crimes do Estripador, que fica na periferia londrina) foi reconstruído em Praga (República Tcheca), numa área que passava por uma revitalização. Assim, os cenógrafos aproveitaram pedras e tijolos da restauração. Mais cinco castelos situados nos arredores da cidade forneceram os cenários interiores, das sujas tavernas da periferia até o suntuoso Palácio de Buckingham.

O elenco, por outro lado, não impressiona ninguém. Johnny Depp faz o atormentado detetive Freddy Abberline, um homem viciado em ópio e capaz de ter visões, com disciplicência. Robbie Coltrane (o Hagrid de “Harry Potter”) está melhor, como o truculento sargento Godley. Ian Holm (Bilbo em “O Senhor dos Anéis”), no piloto automático, interpreta Sir William Gull, médico da Família Real inglesa que ajuda nas investigações, com presteza. Já Heather Graham parece bela e limpinha demais na pele da prostituta irlandesa Mary Kelly. As colegas de trabalho delas parecem bem mais realistas, ainda mais quando se sabe em que condições as “mulheres da vida” viviam na época. É nesse ponto – o enfoque realista da vida na periferia das metrópoles do século XVII – que está o maior acerto da obra.

Boa parte do mérito vem do gibi escrito por Alan Moore – uma espécie de semi-deus dos quadrinhos – no qual o filme se baseia. A verdade é que a vida no subúrbio da era vitoriana nunca tinha sido mostrada de forma tão sórdida. As prostitutas vivem largadas, pegam doenças graves, são sempre espancadas, estupradas ou tratadas com ignorância e displiscência pelos burgueses. É importante saber que os endinheirados da época não podiam ser investigados pela polícia, porque legalmente eram declarados inocentes apenas por serem ricos. Esse é um mérito do caso real do Estripador: a partir dessa investigação, todo o procedimento policial para investigações de assassinatos foi modernizado para parâmetros atuais.

Já no filme, a solução do mistério proposta pelos irmãos Hughes é previsível e muito inferior à do gibi, radicalmente diferente. O filme vai bem na primeira hora de projeção, acerta nas pinceladas de violência crua urdidas no roteiro, mas derrapa ao engatar um romance perigosamente banal entre a bela prostituta e o detetive sensível (o Abberline do gibi, aliás, era gordo e velhote; por que será que mudaram isso?). De certa forma, o desfecho estraga o desenvolvimento do trabalho.

No Brasil, outra mancada da Fox privou o espectador de conhecer detalhes de bastidores, a verdadeira história de Jack, a trama das HQs e um final alternativo (talvez melhor do que o oficial). Tudo isso está na edição dupla lançada nos EUA. Aqui, a Fox optou por um DVD simples, que contém apenas o filme e um comentário em áudio dos diretores.

– Do Inferno (From Hell, República Tcheca/EUA, 2001)
Direção: Allen e Albert Hughes
Elenco: Johnny Depp, Heather Graham, Ian Holm, Robbie Coltrane
Duração: 110 minutos

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