Doce Amanhã, O

27/10/2006 | Categoria: Críticas

Atom Egoyan embaralha o tempo em narrativa sofisticada para estudar a dor da perda

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Aqui está um raro caso de longa-metragem cujo slogan publicitário resume com perfeição tanto a trama quanto as intenções do cineasta ao filmá-la. No mercado internacional, “O Doce Amanhã” (The Sweet Hereafter, Canadá, 1997) foi vendido através da seguinte frase: “There is no such thing as simple truth”. Em tradução livre para o português, seria algo como “não existe algo como a verdade pura e simples”. A frase explica não apenas a triste história do longa-metragem, que realiza um perfeito estudo da dor da perda, mas também o formato narrativo labiríntico, cronologicamente embaralhado, que o diretor Atom Egoyan utiliza para contá-la.

O fato crucial em torno do qual a narrativa se organiza é um trágico e prosaico acidente de ônibus em uma pequena cidade no interior do Canadá. Em uma típica manhã gelada do lugar, o veículo escolar que levava as crianças da cidade derrapa, sai da pista e vai parar sobre uma fina camada de gelo em um lago adjacente. O gelo não suporta o peso do ônibus e se rompe, fazendo o automóvel afundar. O saldo trágico é de 14 crianças mortas, praticamente uma geração inteira do vilarejo minúsculo desaparecida em questão de minutos.

Qualquer tentativa de resumir a abordagem sofisticada desta tragédia banal pelo diretor Atom Egoyan significa fazer uma simplificação grosseira da complexidade narrativa e emocional desta história de perda e dor. Dizer que o cineasta deseja documentar a reação visceral da cidadezinha diante da tragédia está correto, mas é insuficiente. “O Doce Amanhã” é maior, mais bonito, mais singelo, mais sofisticado e mais inteligente do que isso. O filme lida com emoções profundas e verdadeiras, de modo audacioso e original, e apresenta personagens de tamanha humanidade que é impossível não ficar tocado por eles.

A narrativa gira fundamentalmente em torno de três pessoas. A principal delas é o advogado Mitchell Stephens (Ian Holm, em atuação sorumbática espetacular). Ele chega da cidade grande, após o acidente, com a intenção de convencer os pais das crianças mortas no ônibus a abrir um processo judicial que apure as causas da tragédia. “Do meu ponto de vista, acidentes não existem”, resume ele. O advogado vê no caso a chance de vencer um processo milionário. Restam a ele duas coisas: descobrir a quem processar (O município? O fabricante do ônibus?) e, mais importante, saber canalizar a raiva e a dor dos parentes para obter benefício financeiro.

Ao ler o parágrafo anterior, o leitor certamente teve a impressão de que Mitchell Stephens é um canalha, o tipo de homem capaz de enxergar dinheiro onde uma boa pessoa normal só consegue ver lágrimas. É exatamente isso que pensa Billy (Bruce Greenwood), o rústico pai viúvo de duas crianças adoráveis mortas no ônibus amarelo. Billy costumava dirigir sua caminhonete logo atrás do automóvel escolar, todos os dias, acenando para os filhos. Adorava isso. Ele estava lá quando tudo aconteceu. Viu tudo. E sabe perfeitamente que o acidente foi uma fatalidade sem culpados. Do mesmo modo pensa Nicole (Sarah Polley), a adolescente com sonhos de rock star, que ficou paralítica no acidente. O filme traça um perfil maravilhosamente vívido desses três seres tão diferentes, todos tão humanos, tão imperfeitos.

No entanto, como diz o slogan publicitário, não existe algo como a verdade pura e simples. O que os moradores da cidadezinha não sabem é que o incidente ecoa profundamente no emocional de Mitchell Stephens. Ali, naquele vilarejo branco de neve, ele acha que pode conseguir algum tipo de conforto para um grupo de pais que perderam os filhos. Mitchell também perdeu uma filha, Zoe (Caerthan Banks). A garota ainda não morreu, mas o pai a perdeu há muito tempo para as drogas. De nada adiantam as ligações desesperadas que ela lhe faz de quando em quando. Mitchell escuta tudo paciente e tristemente, porque é isto que um pai deve fazer, mas não tem esperanças. Zoe é um caso perdido. De alguma forma, fazer aqueles pais milionários significaria a redenção para si próprio. Em outras palavras: Mitchell Stephens age como um canalha, mas não é exatamente um. A verdade simples não existe.

O melhor de tudo é que Atom Egoyan não deseja chegar a nenhuma conclusão, mas apenas colocar o espectador em uma posição que lhe permita refletir sobre todos esses aspectos da condição humana – a morte, a relação entre pais e filhos, a ética pessoal em um ambiente comunitário coletivo. Para dar tal onipresença à platéia, Egoyan lança mão de uma estratégia que pode afastar o espectador comum, embaralhando completamente a cronologia da história. “O Doce Amanhã” vai e volta no tempo indistintamente, sem jamais sinalizar para a platéia em que momento no tempo cada cena se encaixa. Tudo isso emoldurado pela bela fotografia esbranquiçada de Paul Sarossy e pela música etérea, melancólica e levemente oriental de Mychael Danna.

“O Doce Amanhã” fez enorme sucesso em Cannes, onde Atom Egoyan faturou o Prêmio do Júri (segundo troféu mais importante do festival) e tornou-se, a partir de então, figurinha carimbada no evento. Apesar disso, não teve grande repercussão de público, algo natural se considerado que se trata de um filme difícil, encharcado de tristeza e com narrativa intrincada, mas cuja técnica refinada é fundamental para que o público atinja a posição ideal para absorver o impacto emocional da obra. Este é um filme que se alinha a outros grandes dramas sobre a perda de entes queridos – “Sobre Meninos e Lobos” (2003) e “A Liberdade é Azul” (1993) entre eles – e oferece um painel emocional de complexidade rara no cinema contemporâneo.

O DVD lançado no Brasil, da NBO Editora, é vendido em bancas de revistas. O disco é simples e sem extras, mas contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1). Existe uma segunda edição, da Versátil, mais fraca, já que a imagem possui cortes laterais (fullscreen 1.33:1).

– O Doce Amanhã (The Sweet Hereafter, Canadá, 1997)
Direção: Atom Egoyan
Elenco: Ian Holm, Sarah Polley, Gabrielle Rose, Bruce Greenwood
Duração: 112 minutos

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