Dogville

23/06/2005 | Categoria: Críticas

Lars Von Trier cria clássico instantâneo com tom pessimista, de estética ousada e inteligente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Polêmico. A palavra descreve à perfeição o diretor dinamarquês Lars Von Trier, um dos homens mais ousados e talentosos a militar no cinema independente da atualidade. Descreve, também, com admirável precisão, o primeiro filme da anunciada trilogia do cineasta sobre os Estados Unidos. “Dogville” (Dinamarca, 2003) é uma parábola cinematográfica extremamente original, goste-se dela ou não.

Von Trier confirma o próprio nome, com este filme, como um dos únicos cineastas europeus contemporâneos a ter uma visão de mundo, e uma capacidade de examinar as profundezas da alma humana, capaz de ombrear o talento de grandes mestres do continente, como Federico Fellini e Ingmar Bergman.

De certa maneira, o fato de ser nórdico pode aproximar a visão de mundo de Von Trier à do incomparável mestre sueco. A câmera de Lars Von Trier é impertubável, gélida, aparentemente neutra, como a de Bergman. Mas há várias outras semelhanças. O pessimismo crônico que o autor dinamarquês demonstra diante do homem, e a visão da mulher como símbolo de pureza e redenção, são outras características que permitem traçar um paralelo entre as obras de ambos.

Aliás, “Dogville” marca a coerência do autor para com a própria obra. Assim como “Ondas do Destino” e “Dançando no Escuro”, o longa-metragem tem personagens femininas como protagonistas. E elas são submetidas a sofrimentos de uma crueldade digna do calvário de Jesus Cristo.

Curiosamente, não são poucas as referências bíblicas que podem ser encontradas em “Dogville”, cuja narrativa é muito simples, apesar das quase três horas de projeção. Grace (Nicole Kidman) é um mulher pura, ingênua, humilde e bela, que aparece de surpresa no lugarejo de Dogville, nas Montanhas Rochosas (EUA), numa noite qualquer. Ela foge de gângsteres e não tem para onde ir.

De pronto, o intelectual da aldeia, Tom (Paul Bettany), decide tentar persuadir os quinze habitantes adultos do lugar a acolher Grace, em troca de pequenos favores. Trata-se de uma variação da história de Branca de Neve, que ganha contornos realmente ousados a partir da direção de arte: Lars Von Trier filma sem cenários.

A opção estética é perturbadora, chocante mesmo. As casas, ruas e jardins são marcadas com giz no chão. Não têm paredes. A cenografia se resume a mesas, camas e uns poucos objetos. O cachorro não passa de um círculo branco. O som, contudo, é realista. O círculo branco, por exemplo, late. As portas invisíveis que os personagens abrem rangem e batem com violência. A luz é negra para a noite e branca para o dia. Simples assim.

Despido de detalhes, o cenário cria um ambiente de estranheza que casa perfeitamente com a proposta de Von Trier: manter o espectador 100% focado na história, nas palavras, nos diálogos. Para isso, ele adota uma edição muito dinâmica, repleta de cortes, com algumas cenas colocadas em seqüências levemente fora de sincronia. O efeito tosco nos lembra a todo instante que estamos vendo um filme.

A falta de paredes também cria diversos momentos impressionantes. A estratégia desnuda o comportamento humano de maneira absoluta, pois funciona como um verdadeiro “Big Brother” (no sentido mais literalmente orwelliano do termo – durante o filme, o espectador torna-se onipresente, pois vê tudo sem reservas). Assim, quando cada habitante revela sua face grotesca e/ou cruel, apenas a platéia (e, às vezes, Grace) confirma a natureza cruel daquela pessoa.

Um bom exemplo disso está numa fortíssima cena que reúne Nicole Kidman e o personagem do ator sueco Stellan Skarsgaard, um dos destaques do elenco. Enquanto a seqüência se desenrola, a câmera se afasta, apenas para mostrar os demais moradores de Dogville realizando seu afazeres, da forma mais normal possível, como se nada de anormal estivesse acontecendo naquele instante. E, na verdade, não está mesmo. Afinal, as paredes só não existem para o espectador.

O filme também traz uma narração em off que acompanha a trajetória de Grace durante todo o filme. A narração, em si, é outra inovação, já que a voz repleta de ironia (John Hurt) faz observações agudas e subjetivas sobre o comportamento humano, ao invés de adotar uma perspectiva descritiva. Ele não descreve, mas comenta, sempre com enorme cinismo.

“Dogville” é lento? Sim, mas isso também pode ser dito dos filmes de Bergman – e, nos dois casos, a lentidão parece intencional. Assim, a desconfiança inicial dos habitantes de Dogville se transforma em delicadeza e, lentamente, vira crueldade contra a bela moça. Ela passa a ser, então, submetida a cargas cada vez maiores de trabalho, mais ou menos como a personagem de Bjork no filme anterior de Von Trier, “Dançando no Escuro”. E isso é só o começo.

Muita gente interpreta “Dogville” contra um libelo contra os Estados Unidos, impressão fortalecida pela informação de que o filme é o primeiro de uma trilogia. Essa interpretação, contudo, parece insuficiente e rasa demais. A conclusão da película, genial e surpreendente, toma emprestado vários elementos da Bíblia para deixar claro que o pessimismo de Von Trier é mais amplo, pois diz respeito à natureza humana. É no Homem, com maiúscula, que Lars Von Trier não acredita.

O DVD nacional é duplo, com um lado bom e outro ruim. Para começar, o filme ganha a companhia do bom documentário “Dogville Confessions” (52 minutos), que radiografa as filmagens. Há ainda, no disco 2, uma entrevista ciom Lars Von Trier e um trailer. No disco 1, o filme proprieamente dito, infelizmente mutilado pelo enquadramento 4×3 (ou seja, tem as laterais cortadas), com trilha de áudio Dolby Digital 5.1 e dublagem em português (DD 2.0).

– Dogville (Dinamarca, 2003)
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Nicole Kidman, Paul Bettany, Stellan Skargaard, Lauren Baccall, Ben Gazzara
Duração: 177 minutos

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