Dois Dias em Paris

11/06/2008 | Categoria: Críticas

Estréia de Julie Delpy na direção é comédia moderninha que reproduz estereótipos sobre franceses e americanos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Embora seja conhecida principalmente como atriz, a francesa Julie Delpy é o que poderíamos chamar de artista multimídia. Ela estudou cinema na universidade e dirigiu mais de 30 curtas-metragens. Já lançou um álbum como cantora e compositora. Tira fotografias e escreve roteiros nas horas vagas, quando não está costurando as próprias roupas. Todas essas facetas estão bem representadas na comédia moderninha “Dois Dias em Paris” (2 Days in Paris, França/Alemanha, 2007), uma história romântica de desencontro que transporta para o século XXI as antigas guerras de casais, e marca a estréia de Delpy na direção. A julgar pelo resultado pouco inspirado, talvez seja o caso de ela pensar em se dedicar mais a uma única atividade.

É inegável que todo e qualquer fã da série de filmes que Delpy realizou ao lado de Ethan Hawke (“Antes do Amanhecer”, de 1995, e “Antes do Pôr-do-Sol”, de 2004) vai reconhecer, sem dificuldade, as semelhanças entre “Dois Dias em Paris” e os dois títulos dirigidos por Richard Linklater. Marion – personagem que ela interpreta aqui – é uma mal-disfarçada cópia carbono de Celine, a co-protagonista das outras duas produções. Ambas são garotas francesas cosmopolitas, radicadas nos EUA. Gostam de fotografia, moram num apartamento antigo e charmoso em Paris, têm um gato de estimação e são politicamente engajadas. A diferença é que a paixão de Marion por um rapaz norte-americano não é platônica, mas bem real.

Jack (Adam Goldberg, amigo de Julie Delpy na vida real) é decorador e preenche o mesmo perfil. Tem os braços cobertos de tatuagens e não hesita em dar informações erradas a compatriotas, em Paris, apenas por discordar da orientação política expressa por eles em camisetas. Os dois travam uma versão moderna dos desencontros amorosos típicos dos filmes de Cary Grant nos anos 1930 (o melhor deles é “Jejum de Amor”, do mestre Howard Hawks), durante uma breve passagem por Paris, rumo a Nova York. É a deixa para Delpy construir um filme extremamente tagarela, em que os personagens são guiados por diálogos, e não por ações. Os longas de Richard Linklater também são assim. Se as semelhanças são grandes, porém, as diferenças se mostram ainda maiores.

Lá, os personagens são bem construídos e falam de modo articulado. A cinematografia (especialmente no filme de 2004) se destaca pelas longas tomadas feitas em locação. Aqui, o estilo adotado por Julie Delpy é diferente, bem mais desleixado. Ela parece mais interessada em abordar as diferenças culturais entre os franceses e os norte-americanos, e comete o terrível erro de mergulhar de cabeça nos estereótipos redutores e superficiais. Em “Dois Dias em Paris”, os primeiros são sexualmente liberados, a ponto de deixarem a porta do quarto aberta na hora de transar, e conversam animadamente com qualquer um que entre nele na hora H. Já os americanos, imaturos, se escondem embaixo do lençol e reclamam do tamanho desconfortável das camisinhas vendidas na Europa.

Além disso, os franceses, claro, exibem cultura artística irrepreensível, enquanto os norte-americanos têm dificuldade até para saber quem foi Picasso ou Matisse. Além disso, os taxistas franceses não sabem ficar calados enquanto dirigem. Ora se transformam em conquistadores incorrigíveis, ora viram neonazistas preconceituosos. “Dois Dias em Paris” reproduz todos esses estereótipos sobre as duas culturas, inclusive os negativos (francês não gosta de banho, sabia?), e faz piada com isso, como se estivesse descobrindo a roda. O resultado é um par de personagens pretensiosos e vazios, meras caricaturas de jovens modernos. O humor do filme é exagerado, deslocado, artificial. A incômoda sensação de estarmos vendo ficção barata, e não uma história sólida e bem urdida, jamais desaparece.

Além disso, apesar do esforço de Adam Goldberg, a semelhança assustadora da personagem feminina com a Celine dos filmes de Linklater acaba sendo prejudicial a ele, já que a química existente entre Delpy e Ethan Hawke é perfeita, enquanto aqui o casal parece bem deslocado. O resultado final, a despeito de ocasionais bons momentos (o trecho autobiográfico em que a protagonista confessa um defeito na visão), não é muito positivo. E a piadinha infame da foto com os balões coloridos amarrados no pênis não funciona nem mesmo na primeira vez em que é contada. Uma pena que “Dois Dias em Paris” marque a estréia na direção de uma atriz que, além de bela, é competente.

O DVD da Focus Filmes contém apenas o longa, com uma entrevista de Delpy como extra mais importante. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) é boa, assim como o áudio (Dolby Digital 5.1).

– Dois Dias em Paris (2 Days in Paris, França/Alemanha, 2007)
Direção: Julie Delpy
Elenco: Julie Delpy, Adam Goldberg, Alexia Landeau, Daniel Brühl
Duração: 96 minutos

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