Dois Filhos de Francisco

05/12/2005 | Categoria: Críticas

Filme sobre a dupla Zezé di Camargo e Luciano surpreende com criatividade e humor, mesmo para quem não gosta da música

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um texto sobre “Dois Filhos de Francisco” (Brasil, 2005) tem que começar, obrigatoriamente, com um pedido humilde: por favor, não se deixe levar por preconceitos. Você, que leva cinema a sério e odeia música sertaneja, planeja passar longe de qualquer sala que esteja exibindo o filme que conta a trajetória de Zezé di Camargo e Luciano? Tudo bem, é direito seu, mas saiba que vai perder um filme simpático, divertido e emocionante. Pois é. “Dois Filhos de Francisco” é o produto que estava faltando no mercado de produções nacionais, o elo perdido entre os filmes mais cerebrais (que alguns insistem em chamar “de arte”) e os projetos mais populares. Em outras palavras, “Dois Filhos de Francisco” prova que um filme pode ser popular e manter a qualidade, sem soar apelativo.

Quem diria, não? Uma mera olhada na sinopse e no currículo dos envolvidos é desencorajadora. Breno Silveira, o diretor, é um estreante no ofício. Zezé di Camargo e Luciano dispensam apresentações. Eles tiveram um orçamento generoso de 6 milhões de reais, um luxo para os padrões brasileiros, para fazer o filme. Tudo apontava para uma abominável versão adulta das produções mambembes da Xuxa. Mas os primeiros críticos que viram o longa logo disseram que “Dois Filhos de Francisco” não era ruim. E estavam errados: “Dois Filhos de Francisco” é muito bom, uma das melhores produções nacionais de 2005, sob qualquer aspecto que se olhe (excetuando-se, dependendo do seu gosto, a trilha sonora). Deixa no chinelo, inclusive, muitas outras produções biográfico-musicais brasileiras, como “Cazuza”.

Para começar, a verdade é que “Dois Filhos de Francisco” não conta exatamente a trajetória da dupla de cantores goianos. A primeira (e mais longa) parte do filme narra, sim, a história de Seu Francisco (Ângelo Antônio), o pai da dupla. Homem simples, trabalhador rural que dá duro todo dia na terra do sogro (Lima Duarte), Seu Francisco é apaixonado por música.

A família Camargo é o retrato do Brasil rural. Família grande, muitos filhos, dificuldade até para comer, nenhum conforto. Mas Seu Francisco tem uma idéia. Troca um revólver por uma sanfona e um violão. Quem sabe algum dos meninos não demonstre ter algum talento musical? Dois deles se destacam. Mirosmar (Dabliu Moreira) aprende sanfona na marra. Emival (Marco Henrique) toca violão sonhando com uma bola. Eles são afinados e acabam fazendo carreira. A segunda parte, mais curta e também mais irregular, pega Mirosmar virando Zezé (Márcio Kierling), em São Paulo, lutando para gravar e para sobreviver da música.

A primeira parte de “Dois Filhos de Francisco” é irrepreensível. Tem humor popular sem ser escrachado, uma montagem redonda (observe que todas as cenas ligam naturalmente umas nas outras, gerando uma fluidez que impede o filme de virar episódico, algo comum em cinebiografias) e uma fotografia correta, repleta de verdes e tons de terra, que mostra um Brasil rural rústico, mas implacável. O filme não é condescendente e nem faz rasgação de seda gratuita com os Camargo. Seu Francisco, por exemplo, é um homem trabalhador e um sonhador nato, mas também é irascível e grosseiro.

O ótimo desempenho dos atores impressiona. Ângelo Antônio traz energia no papel do pai de Zezé, e o estreante que interpreta o músico quando criança é uma simpatia. Dira Paes e José Dumont têm pouco tempo em cena, mas são os pólos opostos do elenco. Ela representa o drama, o lado sofrido, a fome e a saudade; ele encarna a comédia, o malandro que passa por cima das dificuldades com humor e criatividade. O choque entre drama e comédia produz uma das grandes cenas do cinema brasileiro em 2005, que é a chegada da família Camargo na casa em que vão morar, em Goiânia, em noite de tempestade. A seqüência começa pesada, dolorida, e termina de modo leve e suave. Assista e confirme.

“Dois Filhos de Francisco” ainda guarda um trunfo escondido na manga: nas cenas sempre difíceis que mostram atores manuseando instrumentos musicais que não tocam, os criativos enquadramentos e movimentos de câmera de André Horta escondem habilmente esse detalhe, fazendo esses momentos funcionarem muito bem na narrativa. Filmes sobre músicos geralmente têm o problema de parecerem artificiais quando mostram atores fingindo tocar instrumentos que não conhecem, mas “Dois Filhos de Francisco” não tem esse problema.

Pequenos problemas aparecem na segunda parte, quando Mirosmar cresce, conhece a futura esposa Zilu (Paloma Duarte, surpreendentemente contida) e vai tentar a vida em São Paulo. Márcio Kierling impressiona pela semelhança física com o cantor sertanejo, mas sua presença cênica é apagada, sem o carisma do Zezé menino. Esse problema é compensado em parte pelo bom desempenho de Thiago Mendonça no papel do chatíssimo Luciano (retratado como um garotão inconseqüente, ainda bem, pois o original é um chato de galocha, e seria terrível ver o filme tentando transformar o rapaz em modelo de conduta).

De qualquer forma, essa segunda parte tem música em excesso, com um grande número de elipses em estilo bem clichê (aquelas passagens que sugerem a passagem do tempo com várias ações sobrepostas a uma música executada inteira). Aliado ao tom sério demais, esse detalhe acaba deixando toda a segunda parte irregular e cansativa, assumindo o caráter episódico tão bem evitado na primeira parte. De qualquer modo, é um problema menor para um filme que, desde já, pode ser considerado uma das mais gratas surpresas do ano.

Dito isso, vale o reforço: não julgue um filme pela qualidade da música das pessoas que ele biografa. Sob todos os aspectos, Cazuza era um compositor e um poeta muito melhor do que Zezé di Camargo, mas o filme sobre sua vida não tem um décimo da energia, da alegria e da criatividade de “Dois Filhos de Francisco”. Se você não curte música sertaneja, simplesmente preste atenção nos méritos cinematográficos do filme.

O lançamento em DVD é da Sony. O filme tem imagem e som de ótima qualidade (wide anamórfico e Dolby Digital 5.1, respectivamente), e os extras incluem dois minidocumentários (um sobre o filme, outro sobre a dupla), cenas cortadas e erros de gravação, somando ao todo 42 minutos.

– Dois Filhos de Francisco (Brasil, 2005)
Direção: Breno Silveira
Elenco: Ângelo Antônio, Dira Paes, Márcio Kierling, Paloma Duarte
Duração: 115 minutos

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