Dom da Premonição, O

25/03/2005 | Categoria: Críticas

Sam Raimi filma história de fantasma e brinca de meter medo antes de encarar as filmagens de “O Homem-Aranha”

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Uma cidadezinha minúscula no interior dos EUA, dominada por pântanos, lagos, velhos e enormes salgueiros, estradas de terra batida. Uma vidente que tenta se manter afastada do microcosmo social do lugar, que se divide entre desprezá-la e freqüentar sua casa com assiduidade, para se comunicar com espíritos. Um mecânico maluco, um marido violento, um policial racista. A fauna humana de “O Dom da Premonição” (The Gift, EUA, 2000) é o elemento mais destacado do filme do cineasta Sam Raimi.

“O Dom da Premonição” foi um projeto dirigido meio às pressas por Raimi. O roteiro lhe foi entregue pelo ator e escritor Billy Bom Thorton, ex-marido da bela Angelina Jolie. No set de “Um Plano Simples”, em que fez a comovente interpretação de um sujeito solitário com problemas mentais, Thorton aproveitou o tempo livre e exorcizou fantasmas da infância escrevendo esse texto. Como tinha outros projetos engatilhados, pediu a Raimi que o dirigisse. O diretor de “O Homem-Aranha” aceitou e fez tudo a toque de caixa, na carreira, para poder se desocupar e dirigir logo o primeiro filme do Aracnídeo.

De certa forma, esse ambiente de informalidade e descontração pode ter sido responsável pelo fracasso comercial da obra, que teve pouca publicidade e só rendeu US$ 11 milhões nos EUA. Que fique claro, porém: “O Dom da Premonição” é um bom filme de fantasmas, capaz de dar sustos de verdade. A produção carrega consigo um clima lúgubre e decadente imprescindível para que funcione como fita de terror. O filme mostra semelhanças com “Revelação”, de Robert Zemeckis, mas o supera em todos os sentidos.

A começar, aliás, pelo elenco. A australiana Cate Blanchett (“O Senhor dos Anéis”) interpreta a vidente com muita personalidade, Giovanni Ribisi (“O Resgate do Soldado Ryan”) está bem no papel do mecânico Buddy Cole e Keanu Reeves (“Matrix”) ficou ótimo na pele do marido ensandecido que se torna suspeito de seqüestro. Na trama há um desaparecimento misterioso, responsável pelo elo com o sobrenatural. A inspiração da história veio da mãe de Billy Bob, que também viveu numa cidadezinha caipira e teve que enfrentar o preconceito local porque botava cartas e fazia adivinhações.

A ambientação do povoado, por sinal, é outro acerto do cineasta. Raimi dirige os atores sem pressa e cria corretamente o tempo do filme, um tempo lento, morno, assim com a vida na cidadezinha rural americana. Os personagens, por outro lado, carecem de mais profundidade. Esse deslize é compensado pelo ótimo uso do silêncio como elemento de suspense. Isso realça os sustos e transforma “O Dom da Premonição” num ótimo exemplar de suspense, ideal para fanáticos pelo gênero.

Quem assistir ao filme em DVD nacional, porém, vai ter uma decepção. A imagem do disco está em tela cheia, com cortes laterais, e o som não impressiona. Além disso, os extras se resumem a um mini-documentário de 10 minutos, que é basicamente o mesmo kit eletrônico (o famoso EPK) distribuído às TVs na época do lançamento nos cinemas, um trailer e um videoclip da canção “Furnace Room Lullaby”.

– O Dom da Premonição (The Gift, EUA, 2000).
Direção: Sam Raimi.
Elenco: Cate Blanchett, Keanu Reeves, Giovanni Ribisi, Katie Holmes
Duração: 112 minutos

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