Domicílio Conjugal

04/09/2007 | Categoria: Críticas

Ainda afetuosa, quarta parte da saga de Antoine Doinel flagra o personagem durante uma crise no casamento

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Uma série de cinco filmes de François Truffaut acompanhou o personagem Antoine Doinel em todas as fases importantes da vida dele: infância, juventude, casamento e maturidade. Apesar de todas as obras (quatro longas e um média-metragem) terem sido filmadas em intervalos regulares, a série nunca foi concebida como tal. A cada novo filme, Truffaut imaginava que não voltaria mais a Antoine Doinel. A vontade de revê-lo, porém, logo se mostrava irresistível, e ele rapidamente arrumava uma desculpa para convocar o ator Jean-Pierre Léaud e imaginar um novo ciclo de aventuras para Doinel. O personagem, que começara em 1959 como um alter-ego de Truffaut, tinha virado aos poucos uma espécie de repositório de memórias afetivas e observações feitas sobre a vida, em forma de vinhetas.

Se o cineasta francês não tivesse morrido jovem – em 1984, aos 52 anos, com um tumor no cérebro – é bem provável que tivesse brindado o público com um retrato do personagem na velhice. É curioso, porém, perceber que parte dos fãs de Truffaut, bem como a maioria da crítica internacional, cansou da série ainda no terceiro exemplar, “Beijos Proibidos” (1968). Talvez por ter sido realizado apenas dois anos depois, um período de tempo relativamente curto, “Domicílio Conjugal” (Domicile Conjugal, França/Itália, 1970) foi recebido com frieza, e ganhou a fama de ser o longa-metragem mais fraco de todos aqueles que contam com Antoine Doinel. Uma fama injusta.

A idéia para o longa veio de Henri Langlois, a quem o filme anterior havia sido dedicado. Ao fim de uma sessão de “Beijos Proibidos”, Langlois disse a Truffaut que gostaria de ver como aqueles dois pombinhos apaixonados do final enfrentariam uma crise no casamento. Dois anos depois, a idéia já tomara a forma de filme. Algumas pessoas poderiam argumentar que o diretor havia voltado rápido demais ao personagem, e que um espaço de dois anos não registra mudanças suficientes na vida de uma pessoa para justificar uma nova história sobre ela, mas a verdade é que “Domicílio Conjugal” flagra Doinel (Léaud) em uma fase bastante diferente daquela vista no filme anterior.

Ou melhor, as mudanças são mínimas do ponto de vista profissional, já que Doinel continua sem conseguir se adaptar a nenhuma atividade. Ele busca sempre empregos esdrúxulos, como tintureiro de flores e manobrista de navios em miniatura, mas não se sente confortável em nenhum deles. Na intimidade, porém, a vida de Doinel está bem distinta. Em “Domicílio Conjugal”, como já foi dito, Doinel está casado com Christine (Claude Jade). Ela dá aulas de violino para sobreviver, e espera um bebê. Assumindo um comportamento infantil, Doinel flerta com uma mulher japonesa (Hiroko Berghauer) e inicia, sem querer, uma crise.

Como acontecera no filme anterior, a atmosfera é de crônica leve, sem uma história propriamente dita. A sensação é de que Truffaut costura pequenas vinhetas contendo episódios casuais do cotidiano do casal, amarrando-as com uma atmosfera afetuosa e poética. O diretor francês insere no filme elementos autobiográficos (Truffaut tinha uma tia professora de violino e um vizinho obcecado em conseguir tingir flores com tonalidades de vermelho cheias de vitalidade) e coadjuvantes fascinantes, como o rapaz cabeludo que pede dinheiro emprestado a Doinel a cada vez que encontra com ele na rua. Há de se louvar, também, a coerência com o passado do personagem, um elemento que nos ajuda a reconhecer nele alguém de carne e osso, um amigo, alguém que não demoraremos a ver de novo. Isto é raro no cinema, e também muito bom.

O DVD da Versátil possui qualidade de imagem (widescreen 1.66:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0) muito boa, já que o filme passou por um processo de restauração efetivado pela firma francesa MK2. Os extras é que são poucos – apenas os um trailer de cada longa-metragem com o personagem Antoine Doinel.

– Domicílio Conjugal (Domicile Conjugal, França/Itália, 1970)
Direção: François Truffaut
Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claude Jade, Hiroko Berghauer, Barbara Laage
Duração: 100 minutos

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