Dominion – Prequel to the Exorcist

01/12/2005 | Categoria: Críticas

Filme de Paul Schrader rejeitado pelo estúdio ganha edição econômica em DVD importado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Produções conturbadas e brigas ferrenhas entre cineastas e executivos de estúdios são corriqueiras em Hollywood. Poucos filmes, no entanto, possuem uma história de bastidores tão polêmica e tumultuada quanto “Dominion – Prequel to the Exorcist” (EUA, 2005), de Paul Schrader. Durante todo o ano de 2004, cinéfilos do mundo inteiro temeram que a obra jamais visse a luz do dia, pois o estúdio Morgan Creek, que a produziu, simplesmente se recusou a lançá-la, engavetando o negativo original e contratando um novo diretor para refilmar a produção. Motivo: “Dominion” seria complexo e inteligente demais para o público adolescente, que é maioria na platéia desse tipo de filme.

A pendenga começou depois que Schrader, diretor competente (“A Marca da Pantera”) e roteirista magnífico (“Touro Indomável”), entregou o primeiro corte da película aos executivos da Morgan Creek. Em geral, pequenas mudanças sempre são solicitadas aos diretores, mas nesse caso o filme foi sumariamente rejeitado. Schrader foi demitido e Renny Harlin contratado para, ao custo de alguns milhões de dólares adicionais, filmar tudo de novo. Até o elenco mudou, pois alguns atores não tinham agenda para voltar aos sets. Por sorte, o filme de Harlin, “Exorcist – The Beginning”, foi lançado nos cinemas e não fez muito sucesso. E a Morgan Creek percebeu que poderia faturar alguns trocados se lançasse também a produção de Paul Schrader.

Dessa forma, o diretor pôde organizar uma série de aparições da obra em pequenos festivais de cinema na Europa e na América do Norte, para medir a reação de público e crítica, que foi positiva. “Dominion” acabou tendo um lançamento em circuito de arte nos EUA, e apareceu em DVD alguns meses depois. O veredicto é muito simples: trata-se da única de todas as seqüências do clássico “O Exorcista” que vale a pena ver. Não estamos falando de uma obra-prima, pois há diversos problemas de roteiro e pós-produção (certamente amplificados pelos problemas de bastidores), mas “Dominion” é um honesto exemplar de horror sobrenatural adulto, que não apela para sustos gratuitos ou efeitos especiais em demasia, e é ancorado em um personagem sólido.

Na verdade, “Dominion” não é sobre demônios, mas sobre a fé religiosa. O personagem principal é o exorcista que deu o nome ao assustador filme de William Friedkin. O prólogo do filme flagra Lancaster Merrin (Stellan Skarsgård) sofrendo um terrível golpe do destino em uma aldeia holandesa, durante a Segunda Guerra Mundial. Obrigado a mandar para a morte alguns para evitar o assassinato de todos os habitantes do local, Merrin é assaltado por uma culpa avassaladora e passa a questionar sua fé. Então, larga a batina e vai trabalhar em uma escavação arqueológica no Quênia (por curiosidade, a área é a mesma em que Fernando Meirelles filmou “O Jardineiro Fiel”).

É 1947. Merrin, afastado da religião, está encarregado de escavar uma igreja cristã do século V. O jovem padre Francis (Gabriel Mann) supervisiona o trabalho, a pedido do Vaticano. O motivo é que a construção antiga, em tese, não poderia existir, já que os cristãos ainda não haviam chegado àquele ponto remoto da África, no período de origem da construção. Quando entra no local, Merrin descobre coisas ainda mais estranhas. A perfeita conservação do lugar dá a impressão de que a igreja teria sido enterrada logo após a construção, algo que lhe parece incompreensível. Além disso, as pinturas nas paredes descrevem cenas de uma violência indescritível, e as estátuas parecem adorar algo que está sob o chão, quando ídolos cristãos normais devem ficar voltados para o céu.

Há diversas subtramas paralelas no filme. Um destacamento do exército inglês, por exemplo, está na região, e um par de mortes misteriosas ameaça colocar os militares em conflito com os nativos do lugar. Há um misterioso jovem aleijado (Billy Crawford), expulso da comunidade pelos anciãos da tribo africana, que ronda os acampamentos à procura de comida. E há ainda uma médica, Rachel (Clara Bellar), que está no Quênia tentando esquecer os mesmos horrores que Merrin um dia vivenciou. O filme de Paul Schrader entrelaça habilmente essas histórias, sem uma preocupação muito clara de amarrá-las e solucioná-las ao final, o que é muito bom, pois deixa a obra bem aberta e espontânea.

Dá para entender porque “Dominion” foi rejeitado pelo estúdio; o enredo é lento e atmosférico, privilegiando o clima de mistério e evitando os clichês de sustos, obrigatórios em produções para adolescentes. Em toda a primeira metade do longa-metragem, por exemplo, não existe um único momento realmente assustador, mas a atmosfera vai se tornando progressivamente mais pesada e lúgubre; Schrader sabe que ser econômico é a melhor maneira de fazer de poucos sustos uma experiência inesquecível.

Um detalhe que chama bastante a atenção está nas semelhanças temáticas entre “Dominion” e “O Exorcista” original. Não se trata de mera cópia, mas de situações que evocam e espelham o filme de 1973. O tema principal de ambos, por exemplo, é a falta de fé. Como o padre jovem do primeiro filme, Merrin tem dúvidas sobre Deus. Está traumatizado pela situação dolorosa da experiência na Holanda, em 1944. A preparação do confronto entre o exorcista e o demônio também é idêntica nos dois filmes, firme e demorada, o que favorece o suspense. Quando o clímax chega é inusitado, pois não se baseia em efeitos especiais, mas em diálogos.

Uma inversão inteligente operada por Paul Schrader está no personagem que é vítima de possessão demoníaca. No filme original, o demônio transformava uma linda e pura garotinha em uma besta deformada e raivosa. “Dominion” faz o contrário; nele, o diabo faz um rapaz aleijado se tornar belo. Aliás, o confronto traz referências veladas ao período de 40 dias que, segundo o Novo Testamento, Cristo passou no deserto, sendo tentado por Satanás. No filme de Paul Schrader, o demônio é um ser mais sedutor do que ameaçador. Ele tenta Merrin, lhe oferecendo a chance de usar poderes sobrenaturais para eximir o padre da culpa que carrega desde o episódio mostrado no prólogo.

Os problemas de “Dominion” residem mais nos quesitos técnicos. Os efeitos especiais, mesmo usados com economia, são fracos e inverossímeis, a exemplo da aurora boreal digital que se abate sobre o deserto, durante o confronto entre Merrin e Satã. Os olhos vermelhos dos seres possuídos pelo diabo também são claramente digitais, exagerados. Para completar, a trilha sonora (feita por Angelo Badalamenti e Trevor Rabin, que trabalharam de favor e não receberam nada por isso) é insossa, sem agregar nenhuma emoção às cenas de carga dramática mais densa.

Não, “Dominion” não é um grande filme. Poderia ter sido uma obra instigante, à altura do longa-metragem que lhe inspirou, com um roteiro mais dramático e uma finalização correta. Mas, levando-se em consideração tudo o que Paul Schrader passou para poder colocar seu filme no mercado, e tomando como parâmetro de julgamento as dezenas de lançamentos de horror para adolescentes que invadem cinemas e locadoras todos os anos, o saldo final é positivo. “Dominion” é horror para gente grande, e isso é artigo raro hoje em dia.

O DVD da Região 1 (América do Norte) é simples e contém, além do filme (imagem em widescreen anamórfico 16×9, som Dolby Digital 5.1), uma galeria de cenas cortadas e um comentário em áudio do diretor.

– Dominion – Prequel to the Exorcist (EUA, 2005)
Direção: Paul Schrader
Elenco: Stellan Skarsgård, Gabriel Mann, Clara Bellar, Billy Crawford
Duração: 117 minutos

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