Donnie Darko

01/10/2007 | Categoria: Críticas

Abismo entre gerações ganha narrativa fascinante em comédia que também drama, suspense, terror e ficção científica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O trabalho de classificar um filme em um gênero (“X” é um drama, “Y” uma comédia) anda muito fácil. Isso faz parte de uma estratégia de Hollywood; o espectador se sente mais confortável quando está diante de uma obra de contornos familiares. Afinal, cada amante de cinema possui uma espécie de arquivo mental com algumas centenas – ou milhares, nos casos mais radicais – de filmes devidamente em ‘fichas’ dispostas sempre de acordo com a proximidade temática e/ou estética. Simples e funcional. A esmagadora maioria dos filmes contemporâneos se encaixa direitinho em lacunas pré-programadas desse arquivo imaginário.

De vez em quando, contudo, aparece um filme capaz de romper inteiramente com essas lacunas. “Donnie Darko” (EUA, 2001), o filme de estréia do diretor Richard Kelly, é uma dessas obras. A película desafia rótulos e quebra barreiras de gêneros aparentemente inconciliáveis. Comédia de humor negro? Com certeza. Drama psicológico? Na maior parte do tempo. Crítica social? Sem dúvida. Terror juvenil? Claro! Desde o primeiro dos 118 minutos de projeção desse filme mágico, “Donnie Darko” transborda energia e criatividade. E, o que parece contraditório, fala diretamente ao coração da juventude contemporânea, quando aborda, em vários níveis de leitura, o abismo cultural que racha jovens e adultos. “Donnie Darko” cozinha, à maneira de Tarantino e Guy Ritchie, um caldeirão de referências pop para adolescente nenhum botar defeito. E une isso com uma capacidade de refletir sobre a condição humana dos dias de hoje, uma característica que só costuma encontrar espaço nos filmes mais maduros.

Não que “Donnie Darko” não possa ser apreciado por espectadores mais velhos; ocorre que ele fala a linguagem do imaginário dos cinéfilos cuja idade gira em torno dos 25, 30 anos – a idade do cineasta, Richard Kelly, que escreveu o roteiro em 2000, aos 26 anos. Vejamos: o filme se passa numa pequena cidade dos EUA, em pleno outono de 1988, às vésperas da eleição que colocou George Bush (o pai) na Casa Branca. A contextualização da época, aliás, ocorre numa cena particularmente inspirada: um jantar de família em que o centro temático de filme – a incapacidade de duas gerações em se comunicar de forma eficiente – surge pela primeira vez.

Outra pista para a correta identificação da época em que o filme se passa está na trilha sonora, repleta de pequenas pérolas capazes de fazer marmanjo chorar. As músicas incluem Tears For Fears (em dose dupla), INXS, Duran Duran, Echo & The Bunnymen e bandas de rock oitentistas cheias de finesse. Além disso, as referências à cultura pop da época (os Smurfs num diálogo delicioso, ET numa cena perto do final) despertam o saudosismo da ‘geração 80’ de forma instantânea, imediata.

Bem, mas o problema da classificação persiste. “Donnie Darko” já foi descrito como um cruzamento de “De Volta Para o Futuro” com “Cidade dos Sonhos”. Para quem não conhece o filme, mas já viu as referências citadas, a comparação evoca imediatamente aquele arquivo imaginário que carregamos na memória: como é possível aproximar duas películas tão distintas em temática e estética? Em que lacuna “Donnie Darko” se encaixa? São questões difíceis de responder sem estragar a experiência fascinante de ver o filme de Richard Kelly. Está aí um filme que deve ser visto sem que se conheça muito sobre a trama.

A rigor, “Donnie Darko” surpreende exatamente pela trama bizarra. O protagonista homônimo do filme (interpretado com brilhantismo pelo excelente e pouco conhecido Jake Gyllenhall) tem 16 anos e sofre de distúrbios emocionais graves. Por causa disso, toma um forte remédio controlado. Ainda por cima, é sonâmbulo. Numa madrugada, Donnie acorda no jardim de casa e avista um coelho de pelúcia gigante, chamado Frank. O bicho fala com ele lhe diz, com voz gutural, que o mundo acabará em 28 dias. No dia seguinte, Donnie acorda deitado na grama, e descobre dois fatos surpreendentes: (1) o tempo exato em que o mundo acabará, segundo o coelho, está anotado no braço; e (2) o quarto onde dorme foi destruído durante a noite, num acidente incomum e inexplicável.

A partir desse acontecimento fantástico, Donnie mergulha numa jornada cada vez mais surreal. Os encontros com o coelho ficam mais freqüentes, e o animal sinistro lhe sugere que cometa atos de vandalismo. Embora logo esteja namorando uma garota recém-chegada à cidade, Gretchen Ross (Jena Malone), Donnie passa a se irritar com mais facilidade, o que assusta sua psicóloga e seus pais. Com conseqüência, é obrigado a aumentar a dose dos remédios, o lhe deixa mais solitário e irritadiço. Como se vê, uma bola de neve que o empurra cada vez mais à solidão. Para o espectador, que acompanha de perto o drama de Donnie, sobram perguntas: Frank é uma alucinação causada pelas drogas ou uma aparição sobrenatural? Quais as reais intenções dos atos que Donnie comete? De que maneira os professores, que participam ativamente da trama, poderão influenciar nos acontecimentos?

Essa introdução precisa ser dita com um certo cuidado, para não afastar leitores que odeiam filmes de terror. Embora tenha elementos desse gênero, “Donnie Darko” promove uma discussão social muito abrangente. O abismo cultural de duas gerações, adolescentes e adultos, parece ser o tema central da obra. Esse tema é abordado com muita propriedade, em vários níveis de leitura: na família (os pais tentam ajudar Donnie com sinceridade, mas não o compreendem e agravam sua condição) e na escola (os professores se dividem em dois grupos, um amigável e outro ameaçador, mas nenhum deles consegue entender os garotos), por exemplo. Sobre os dois grupos, como que os unindo, está o peso do destino, a inevitabilidade da morte.Esse é um assunto que o filme ilustra muito bem, sem abordar diretamente.

Para narrar essa fábula de desajuste social, o diretor Richard Kelly bebe das fontes mais díspares. J.D. Salinger é uma influência evidente, especialmente na construção da jornada de Donnie; perceba como o espectador acompanha de perto o drama do protagonista, observando claramente que ninguém à volta dele o compreende como nós, um artefato narrativo que Salinger usou com propriedade no clássico “O Apanhador no Campo de Centeio”. Os filmes de Wes Anderson (a melancolia pop e o carinho pelos personagens derrotados de “Os Excêntricos Tenenbaums” e do anterior, “Três É Demais”, cujo protagonista, Jason Schwartzman, chegou a ser cogitado para o papel principal) também surgem como inspiração. O caldeirão pop de Kelly ainda inclui física quântica, teoria do caos, filosofia e efeitos especiais de última geração.

Outro detalhe interessante é que, embora narrado com técnica cinematográfica bastante convencional, “Donnie Darko” derruba idéias pré-concebidas no terço final, quando embarca numa explicação surpreendente e ambígua para os acontecimentos que envolvem o protagonista. Quando a projeção termina, há mais dúvidas do que perguntas; o final do filme confunde mais do que esclarece. “Donnie Darko” é um desses filmes cujo final permite diversas interpretações – daí a comparação justa com “Cidade dos Sonhos”, da David Lynch. Esse detalhe, junto com o apelo emocional junto à geração que cresceu nos anos 1980, fez com que o filme ganhasse uma aura cult imbatível.

Parte dessa fama alternativa cresceu, por sinal, quando o filme teve a estréia suspensa, nos EUA, após os atentados de 11 de setembro de 2001. “Donnie Darko” havia sido exibido com sucesso no Festival de Sundance, mas a Fox preferiu abortar o lançamento nos cinemas e jogar o filme direto no mercado doméstico, depois do ataque terrorista (assista ao filme para entender o porquê). Por causa disso, “Donnie Darko” só passou na telona durante festivais e mostras alternativas, e demorou dois anos para chegar ao Brasil. Antes tarde do que nunca.

Como última observação, vale ressaltar que Richard Kelly desfez boa parte das dúvidas a respeito do final ambíguo com o lançamento do DVD norte-americano. Encartado no disco, ele enxertou trechos do suposto livro escrito por uma misteriosa personagem do filme, Roberta Sparrow. Esse texto, devidamente decifrado, permite que o espectador conclua os significados oficiais dos eventos que ocorrem no terceiro ato da película. Leitores interessados vão encontrá-lo nos fóruns do IMDb (em inglês). Quanto ao DVD nacional, da Flashstar, é simples, mantém o enquadramento original (wide anamórfico), tem áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1) e comentário em áudio do diretor, devidamente legendado.

– Donnie Darko (EUA, 2001)
Direção: Richard Kelly
Elenco: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Drew Barrymore, Katharine Ross, Patrick Swayze
Duração: 118 minutos

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