Donos da Noite, Os

13/02/2008 | Categoria: Críticas

Com toque autoral inconfundível, James Gray transforma a parábola do filho pródigo em um thriller sufocante e pesado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Os primeiros minutos de “Os Donos da Noite” (We Own the Night, EUA, 2007) deixam a impressão de que o filme será uma variação urbana das histórias sobre ajustes de contas entre dois irmãos de personalidades diferentes. Um atentado inesperado contra a vida de um deles, porém, faz a narrativa dar uma guinada radical, transformando o que parecia um drama banal em um thriller pesado e sufocante, que remete a outra parábola bíblica: a do filho pródigo. Encharcado de sentimentos opressores – remorso, vergonha, inveja, ódio, vingança – e com um toque autoral inconfundível, o filme se destaca do gênero policial oriundo de Hollywood como uma bem-vinda mancha de sangue.

Curiosamente, apesar de não comportar o senso habitual de espetáculo que o thriller genérico de Hollywood sempre acalenta, trata-se de uma obra de espírito essencialmente norte-americano. É só observar como o conceito de “família” fornece a base moral do sofrimento do personagem Bobby Green (Joaquin Phoenix), o protagonista. Toda a trama é narrada do ponto de vista dele, que trabalha como gerente de um clube noturno situado no subúrbio de Nova York. Dar ao trabalho a perspectiva de Bobby é uma decisão crucial do diretor e roteirista James Gray. Qualquer outra opção, como contar a história dos dois irmãos de forma paralela, abrindo o mesmo espaço para ambos, transformaria a obra em mais um melodrama lamacento.

Bobby é um jovem de futuro promissor. Tem uma bela namorada porto-riquenha (Eva Mendes) e a confiança irrestrita do dono do negócio, um rico imigrante russo que tem parentes ligados ao tráfico de drogas na cidade. Bobby sabe disso, mas faz vista grossa à situação. E é justamente ela que o reaproxima da família, com quem mantém frio contato social. O pai (Robert Duvall) e o irmão Joseph (Mark Whalberg) são policiais e têm planos de endurecer o jogo contra os traficantes da cidade. Tentam recorrer à ajuda de Bobby, já que um dos barões da droga (Alex Veadov) fecha negócios justamente na boate que ele gerencia. Bobby tenta se manter neutro. “Vai chegar a hora em que você terá que escolher um lado”, profetiza o pai. Ele está certo.

Jovem promissor e talentoso, o diretor James Gray é um autor bissexto. Fez apenas três longas em quase quinze anos de carreira, parcialmente por insistir em filmar projetos autorais nos intestinos de uma indústria cinematográfica que abomina este tipo de trabalho. A característica o faz mais conhecido e respeitado no cenário do cinema europeu do que dentro dos Estados Unidos. Gray já ganhou prêmio de melhor diretor no Festival de Veneza. “Os Donos da Noite” entrou na competição oficial do Festival de Cannes de 2007, e deixou boa impressão na crítica européia, algo que não ocorreu nos EUA. O filme demorou seis meses para estrear em casa, fracassou nas bilheterias (US$ 27 milhões) e não teve a aclamação esperada pela crítica.

Em parte, a recepção fria pode ser explicada pela relativa semelhança do longa-metragem com pelo menos dois outros projetos contemporâneos. A presença de Mark Whalberg no elenco é apenas um dos muitos pontos de contato da produção com “Os Infiltrados” (2006), que deu o Oscar a Martin Scorsese poucos meses antes da estréia. “Os Donos da Noite” ainda deu o azar de ser exibido quase ao mesmo tempo em que “O Gângster” (2007), de Ridley Scott, que é muito parecido tanto na ambientação (tráfico de drogas, Nova York estilo vintage) quanto na temática (família). O filme de Scott, veterano que valoriza muito mais o senso de espetáculo, prioriza a trama. O de James Gray prefere os personagens. A escolha rende um bom trabalho, mas afasta o público.

O filme não é perfeito. Tem problemas, por exemplo, na reconstituição de época, que lembra muito mais os anos 1970 do que os anos 1980 (a ação se passa em 1988). As roupas, as músicas e o feeling geral da obra remetem ao período de “Operação França” (1971), título de William Friedkin com o qual guarda semelhanças. A rigor, não há nada na trama que remeta à colorida e singular década de 1980, e a ótima fotografia de Joaquin Baca-Asay usa sombras e chuva como elementos cênicos, dando à narrativa discretos tons pastéis. Se está de acordo com a trama, a textura empoeirada das imagens não bate com a época retratada pelo filme. O problema transparece até mesmo em um ou outro objeto cênico. Personagens aparecem, por exemplo, tomando cerveja em garrafas long neck transparentes, que não existiam em 1988.

As qualidades da produção, porém, são maiores e mais abundantes do que os defeitos. O enredo incorpora três seqüências de ação viscerais e realistas, por exemplo, sem forçar a barra. São momentos espetaculares que se integram de modo orgânico e natural à trama, e chamam a atenção sobretudo pela espetacular edição que som, que se transforma em assinatura estilística do diretor. Gray consegue dar às três seqüências o ritmo da respiração (literal e figurativamente) do personagem principal, usando a mesma estratégia – abafa os sons diegéticos, naturais, e realça um ruído específico em cada cena (um zumbido, o bater do coração, o som do pára-brisa), modulando-o no ritmo e na intensidade necessários. O resultado é sensacional.

Além disso, Joaquin Phoenix apresenta um desempenho excepcional. Sempre eficiente em papéis de homens torturados, o ator engole todos os colegas quando está em cena, incluindo o veterano Robert Duvall. Preste atenção, em especial, na grande seqüência do filme, que flagra uma conversa entre os dois irmãos dentro de uma delegacia. É um momento íntimo e especial, em que cada um confessa os ressentimentos nutridos durante anos em relação ao outro – Bobby invejava a relação amistosa de Joseph com o pai, enquanto Joseph admirava a justamente a coragem do irmão em desafiar o genitor (a grama do vizinho é sempre mais verde, certo?). Pode parecer uma cena sem importância, mas é justamente o instante que encapsula e resume perfeitamente o tema do filme, que é a família.

O DVD da Califórnia Filmes é bem fraco. Não contém nenhum extra, traz as imagens em formato widescreen letterboxed (inferior ao anámórfico) e o áudio em Dolby Digital 2.0 (inferior ao DD 5.1).

– Os Donos da Noite (We Own the Night, EUA, 2007)
Direção: James Gray
Elenco: Joaquin Phoenix, Mark Wahlberg, Robert Duvall, Eva Mendes
Duração: 117 minutos

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