Doom – A Porta do Inferno

04/07/2006 | Categoria: Críticas

Filme baseado no famoso videogame é exemplar genérico de ação para adolescentes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O videogame Doom tem o mérito de ter sido um dos primeiros jogos em primeira pessoa da história. Para criá-lo, os idealizadores buscaram inspiração em filmes de ficção científica, como o primeiro “Alien”. Mas sua maior virtude não era a ambientação, e sim a maneira inovadora que fazia o jogador assumir a perspectiva da pessoa lutando contra os monstros. Quando a adaptação cinematográfica do jogo foi anunciada, a pergunta principal era a seguinte: teriam os produtores a coragem de filmar um longa-metragem inteiro dessa perspectiva subjetiva, como acontecia no jogo? “Doom – A Porta do Inferno” (EUA/República Tcheca, 2005) responde confirmando o que se esperava: não. O filme prefere a segurança de repetir uma receita testada dezenas de vezes antes, transformando-se num mero exemplar genérico de filme de ação juvenil.

Caso ousasse realizar a proeza de filmar um longa totalmente subjetivo, o diretor polonês Andrzej Bartkowiak estaria fazendo história. Apenas uma película foi dirigida dessa maneira em Hollywood: o noir “A Dama do Lago”, de Robert Montgomery, em 1947. Nele, o ator principal que interpreta um detetive só aparece quando a câmera mira algum espelho, pois em tese ele vê o que nós, a platéia, vemos; a câmera são os olhos dele, e os olhos dele somos nós. Doom, o jogo, também é assim. Mas em “Doom”, o filme, há somente uma seqüência dessa maneira. Ela dura quatro minutos, acontece quase no final da trama e homenageia o game com total fidelidade, incluindo até uma bizarra troca de armas (quem já jogou sabe como é) e um sangrento assassinato com uma serra elétrica.

A citada cena traz à tona o que há de mais curioso em “Doom”: o parentesco cada vez mais forte entre cinema e videogame, algo que pode ser observado em muitos outros filmes (a série “Jogos Mortais”, por exemplo). Atualmente, os títulos produzidos para o público adolescente, especialmente o masculino, segue a lógica dos jogos de fliperama. Isso jamais foi tão flagrante quando em “Doom”, onde até a música trata o filme como um game: pesada, nervosa, intermitente, uma única mega-faixa de rock pauleira que acompanha a ação do filme quase todo o tempo, alterando apenas o volume (quanto mais ação, mais alto). É o tipo de coisa que traz à mente um pensamento reconfortante para um cinéfilo clássico: como é bom o filme que usa a música apenas para sublinhar os sentimentos dos personagens, ao invés de esmurrar a cabeça do espectador com a maior força possível.

Tudo em “Doom” é estereótipo, a começar pelo enredo, que se passa no ano de 2046 (seria alguma referência ao filme romântico de Wong Kar-Wai com o mesmo número?). Durante uma escavação arqueológica em Marte, um grupo de cientistas emite um pedido de ajuda urgente, antes de as comunicações serem interrompidas. Aí, um esquadrão militar secreto é enviado para o local, para descobrir o que aconteceu. Os personagens são delineados grosseiramente, como rabiscos incompletos. Dois deles são porcos chauvinistas, candidatos de plantão a virarem carne de açougue; um é um jovem inexperiente e idealista; o chefe é um sargento forte e resoluto (The Rock); e há outro, chamado John Grimm (Karl Urban), que tem uma história traumática envolvendo o mesmo local. É, você já viu esses caras antes. Quase todo filme de terror adolescente em que grupos de pessoas são dizimadas tem integrantes iguais.

Uma vez dentro do complexo militar marciano, os militares começam a observar ocorrências estranhas e desconfiam que alguma experiência secreta está sendo conduzida lá, algo que a cientista Samantha Grimm (Rosamund Pike) pode confirmar. Ela é – surpresa! – irmã de John, e trabalha no projeto. Não dá para revelar o que ocorre no subsolo de Marte sem estragar as poucas surpresas que o filme reserva, mas se você conhece o jogo original, corre o risco de ficar irritado: a origem dos monstros que atacam os militares não tem relação com o jogo. Em tese, o Doom original tratava da abertura acidental de um portal para o Inferno, mas o problema em Marte tem mais a ver com genética. E se você analisar direitinho a solução proposta, vai ver que ela não tem pé nem cabeça, e se apóia em premissas científicas sem lógica.

A favor do filme, apenas dois detalhes: o ritmo lento, que prolonga a investigação ao máximo e retarda a aparição dos monstros, e a iluminação escura, que empresta à obra uma atmosfera opressiva adequada. Todo o resto é um desfile de clichês que supostamente deveria homenagear filmes de ficção científica (o primeiro “Alien”, que gerou o jogo, é uma citação constante), mas não com segue fazê-lo com propriedade. E o final chega às raias do ridículo, de tão implausível e mentiroso. No final das contas, “Doom” funciona mais ou menos como assistir a um adolescente jogando videogame: ver é chato para burro, e não oferece nem um décimo da excitação de quem joga.

O lançamento da Universal preserva o formato da imagem (widescreen anamórfico) e tem som excelente (Dolby Digital 5.1), mas nenhum extra.

– Doom – A Porta do Inferno (EUA/República Tcheca, 2005)
Direção: Andrzej Bartkowiak
Elenco: Karl Urban, The Rock, Rosamund Pike, Deobia Oparei
Duração: 104 minutos

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