Juízo Final

23/11/2009 | Categoria: Críticas

Aventura pós-apocalíptica de Neil Marshall, sangrenta e pouco original, deixa travo amargo de decepção

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

O inglês Neil Marshall é o que se poderia chamar de seguidor fiel do modus operandi dos autores de filmes B. Uma olhada rápida na sua filmografia confirma o conceito com certa facilidade. Marshall não é o tipo de diretor interessado em histórias criativas e originais. O que ele quer, mesmo, é construir atmosferas de tensão, compor imagens de violência gráfica mesclada com humor, e pregar sustos a rodo na platéia. Daí a irregularidade da obra que vem desenvolvendo desde 1999. A ficção apocalíptica “Juízo Final” (Doomsday, Reino Unido, 2008), quarta película a carregar a assinatura dele, deixa um travo amargo de decepção na boca daqueles que apreciaram o clima claustrofóbico de “Abismo do Medo”, obra anterior – e muito melhor – do cineasta.

O longa-metragem mais parece uma grande compilação de trechos de filmes híbridos de horror/sci-fi que vieram antes dele, e exibe incômoda semelhança com outros trabalhos da mesma safra. A influência mais óbvia de “Juízo Final”, porém, vem da onda de aventuras pós-apocalípticas que cruzou os cinemas internacionais na virada das décadas de 1970 e 80: “Fuga de Nova York” (de quem copia todo o enredo da trama e a composição da protagonista), “Mad Max” (a sangrenta perseguição de carros no final), “Warriors – Guerreiros da Noite” (gangues de vândalos se digladiam em cidade devastada). Embora não faça parte deste conjunto de filmes, o primeiro “Alien” também contribuiu com a persona da militar durona que não hesita em usar de violência extrema para conseguir cumprir sua missão. Todos são filmes bem superiores a “Juízo Final”.

A tal missão da protagonista tem relação direta com o cenário de fundo, composto com preguiça burocrática por Marshall em um primeiro ato repleto de exposição indolente. Num futuro próximo, um vírus mortal surgiu na Escócia, exterminando toda a população e obrigando a Inglaterra a fechar as fronteiras do país. Um gigantesco e interminável muro de concreto isola a nação escocesa do mundo exterior, transformando o país numa terra morta. Três décadas depois, quando o mesmo vírus ressurge no centro de Londres, uma equipe de militares chefiada pela major Eden Sinclair (Rhona Mitra) é enviada para dentro do território devastado, a fim de procurar um antídoto. Ela tem 48 horas para fazer isso. Ao chegar lá, descobre que os sobreviventes ergueram uma sociedade anárquica, cujo poder está fraturado entre duas gangues canibais de delinqüentes, uma urbana e outra rural.

O fato de várias películas recentes terem abordado cenários muito semelhantes (“Extermínio”, “Filhos da Esperança”) enfraquece bastante o conteúdo do filme de Neil Marshall. Como bom diretor de filmes B, contudo, ele não está muito interessado em explorar o subtexto político do enredo. Simplesmente investe numa carga colossal de imagens de violência gráfica – espectadores de olhar mais sensível poderão se sentir ultrajados ao ver um coelho ser despedaçado por um tiro de canhão – e intermináveis seqüências de ação. Estas últimas, aliás, consistem naquilo que “Juízo Final” tem de melhor a oferecer. São brutais e realistas, apesar de prejudicadas pelo estilo de montagem excessivamente picotado do diretor. Basta dizer que Marshall filma a capotagem de um tanque usando oito tomadas diferentes em apenas três segundos.

Outro problema é que a narrativa soa derivativa, sem graça e previsível. É possível antecipar a ação dramática sem qualquer esforço. Tome a protagonista como exemplo. Ela tem um motivo para ser durona e solitária: carrega consigo um trauma relacionado à aparição do vírus assassino, pois perdeu a mãe na Escócia devastada, tendo escapado por um fio – e sem o olho direito, detalhe que fornece alguns dos melhores momentos do filme, repletos de humor negro – de ter o mesmo fim. Qualquer espectador atento perceberá que, durante a incursão pelo território hostil, a oficial do Exército inglês se desviará do rumo original da missão para acertar as contas com o passado, embarcando numa jornada pessoal de auto-conhecimento. Além disso, o cenário proposto pelo cineasta é frágil, sem substância. Passa longe da complexidade política ou o nível de detalhes mostrado em longas como o já citado “Filhos da Esperança”.

A caracterização das gangues rivais que habitam a Escócia arrasada pelo vírus também deixa muito a desejar. Numa tentativa talvez óbvia demais de homenagear as ficções pós-apocalípticas dos anos 1970/80, Marshall contrapõe dois grupos visualmente baseados em épocas completamente distintas do passado. Um dos grupos é jovem e usa visual punk, com tatuagens e piercings e cabelos pintados, vive dentro do perímetro urbano e pratica o canibalismo em circos de horrores que mais parecem shows de rock de arena. O outro grupo vive na zona rural, veste seus integrantes como híbridos de cavaleiros medievais com gladiadores – completos, com cavalos, elmos e armaduras de metal – e obedecem a um líder carismático (Malcolm McDowell) cuja filosofia esquisita o deixam parecido com um Coronel Kurtz (“Apocalypse Now”) com QI de 80.

De qualquer forma, Neil Marshall tem se mostrado um dos diretores europeus de horror contemporâneo mais eficientes. Fazendo filmes baratos, com atores relativamente desconhecidos, e preservando um estilo direto e sem frescuras, ele foi capaz de construir uma carreira sem recorrer aos grandes orçamentos dos estúdios norte-americanos. Além disso, Marshall demonstra um saudável desprezo pelo sonho de emigração para Hollywood que embala as carreiras de muitos cineastas de horror, e esta militância em prol do filme B é algo salutar. O fato de ele ter cometido um filme inferior aos dois trabalhos anteriores – o divertido “Cães de Guerra” e o tenso “Abismo do Medo” – não invalida esses méritos.

O DVD nacional, da Europa Filmes, tem bom material pata quem curtir o filme. Além da obra com aspecto correto de imagem (widescreen anamórfico) e áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0), há três documentários (ao todo, 55 minutos) que mergulham fundo em todos os aspectos da produção: direção de arte, fotografia, maquiagem, atuações, trabalhos dos dublês, etc.

– Juízo Final (Doomsday, Reino Unido, 2008)
Direção: Neil Marshall
Elenco: Rhona Mitra, Malcolm McDowell, Bob Hoskins, Alexander Siddig
Duração: 105 minutos

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