Doutor Jivago

17/03/2007 | Categoria: Críticas

Drama romântico que embalou uma geração é bonito e triste, mas perde o foco

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A situação é a seguinte: um cineasta renomado realiza um filme com quase quatro horas de duração, filmado inteiramente em locações reais. O filme é um projeto caríssimo, mas faz sucesso razoável de público e ainda fatura sete Oscar, inclusive o de melhor filme. Vem então a pergunta: o que pode um diretor comum fazer, após um êxito desse tipo? Em teoria, um sujeito comum botaria os pés no chão, tomaria consciência de que fez o trabalho mais ambicioso da carreira e partiria para filmes menores. Só que David Lean não era um sujeito comum. Depois do citado e premiado épico “Lawrence da Arábia”, ele optou por partir para um projeto da mesma magnitude: “Doutor Jivago” (Doctor Zhivago, EUA, 1965).

As reações foram bem diferentes. No mundo inteiro, as platéias lotaram os cinemas com fervor para ver um filme que, como “E o Vento Levou”, dominou os sonhos românticos de toda uma geração. Se você tem mais de 50 anos, é bem provável que se lembre do frenesi; se tem menos do que isso, é certo que seus pais se lembram. Mas a crítica, ao contrário do que ocorrera com “Lawrence”, foi impiedosa. A sempre combativa Pauline Kael, com sua ironia peculiar, taxou o filme, um longa-metragem cuja trama se passa em grande parte no inverno russo, de “frio”. Outros críticos foram mais virulentos. Pouca gente se levantou em defesa de Lean, até então um imbatível campeão de apoio dos críticos. O diretor ficou tão magoado e surpreso com a recepção negativa que chegou a jurar nunca mais filmar de novo.

Estamos diante de um caso da clássica dualidade Público X Crítica. Afinal de contas, quem tem razão? Mais de 40 anos depois, é possível se colocar no meio dessa confusão e dar uma parcela de razão a cada lado. Sim, há grandes qualidades no filme de David Lean, como a maravilhosa fotografia de Freddie Young, que já havia dado um show particular nos desertos do Oriente Médio, em “Lawrence da Arábia”. Aqui, filmando na Espanha, Young capturou a intensidade do inverno russo com graça e majestade, mostrando panorâmicas sensacionais das paisagens geladas, quase como se fossem pinturas impressionistas.

Alguns planos demonstram o virtuosismo de Young de maneira fulgurante. Em certo momento, dois amantes entram em um pequeno quarto e começam a conversar. Nós não ouvimos a cena, pois estamos vendo tudo do lado de fora da janela. Sabemos, devido à cena anterior, qual o conteúdo: um deles está terminando a relação. A iluminação é proporcionada por uma vela, trazida por um dos amantes e colocada logo abaixo do vidro da janela, antes do papo começar. Então, a vela começa a derreter o gelo fora da janela, e a discussão entre os amantes fica mais acalorada, algo que percebemos por causa dos gestos da dupla e principalmente devido à música de Maurice Jarre, que cresce e torna-se mais dramática. Não há palavras, mas está tudo lá, a dor incomensurável de uma separação. E o quarto chora. É uma cena belíssima.

Se David Lean consegue comunicar tudo isso em uma cena de interior, que não está entre seus pontos fortes, o que dizer das maravilhosas tomadas panorâmicas, que sempre foram uma marca registrada do cineasta? Nesse aspecto, a travessia dos montes Urais em pleno inverno russo está repleta de imagens de impacto imbatível. Em uma das mais belas, a locomotiva avança em meio a uma gigantesca planície branca, apenas um ponto cinzento no meio de uma tela branca enorme, soprando grossos rolos de fumaça.

Por outro lado, não há como não reconhecer que o roteiro de Robert Bolt é hesitante, pouco denso e sem foco. O personagem principal é o médico Yuri Zhivago (Omar Sharif), e o longa-metragem se passa entre 1917 e 1918. Zhivago tem uma esposa aristocrática, Tonya (Geraldine Chaplin), que é linda, honesta e fiel. Ao conhecer uma pobre garota russa, Lara Antipova (Julie Christie), ele cai de amores por ela. É uma relação impossível, entrecortada por uma guerra mundial e pela revolução russa, mas o destino contribui para juntar os amantes, mesmo quando ambos são obrigados a fugir de Moscou para o interior russo.

Zhivago é um personagem emocional. Ele sofre, pois qualquer homem na situação dele – um casamento de fachada, com uma mulher que ele admira mas não ama – sofreria: angústia, culpa, desejo. Mas o filme não mostra esses sentimentos. Zhivago é um homem contido e um espectador desavisado poderia pensar que ele não sofre, pois o filme não dá pistas de que isso ocorra, pelo menos até a última meia hora. De fato, o filme praticamente não enfoca a paixão entre os dois amantes. O primeiro encontro entre Yuri e Lara acontece com exatos 58 minutos projeção, o que dá uma boa idéia da auto-indulgência do projeto. Sim, o retrato da revolução russa é instigante e completo, mas em certos momentos a revolução parece ser o tema principal do filme, e não sua moldura.

Não há como não citar, em um texto sobre “Doutor Jivago”, a música nostálgica e evocativa de Maurice Jarre, que faturou o Oscar de melhor canção e se tornou um dos grandes clássicos do século XX. Você pode achar que não conhece, mas o famoso “Lara’s Theme” (em por português, “Tema de Lara”) pode ser reconhecido por qualquer pessoa que já foi a uma formatura ou festa de 15 anos. É um ícone cultural como pouca coisa feita nos últimos 100 anos.

O DVD da Warner é de respeito. O filme recebeu uma restauração e um tratamento que limpou e realçou as cores da imagem, apresentada no formato original widescreen e com som remixado para formato digital (Dolby 5.1). O filme ocupa dois DVDs, o que garante uma das melhores transferências de filmes antigos para DVD que um cinéfilo poderia desejar. O disco 1 também tem um comentário em áudio de Omar Sharif, Rod Steiger e da esposa de David Lean, Sandra. O comentário está sem legendas em português. Todos os demais extras possuam legendas, mas em espanhol.

O lado B do disco 2 possui a maior parte dos extras, que incluem um documentário de retrospectiva feito em 1995 (60 minutos), repleto de entrevistas com o elenco e com a equipe técnica, e um conjunto de sete segmentos curtos, que totalizam quase uma hora, com entrevistas de Omar Sharif, Geraldine Chaplin, David Lean e Julie Christe; uma reportagem sobre o romance de Boris Pasternak que deu origem ao filme; visitas aos bastidores da produção; e reportagens sobre a estréia do filme nos EUA. Todos esses featurettes são produções feitas na época do lançamento original.

– Doutor Jivago (Doctor Zhivago, EUA, 1965)
Direção: David Lean
Elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Rod Steiger, Geraldine Chaplin
Duração: 201 minutos

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