Doze Homens e Outro Segredo

30/05/2005 | Categoria: Críticas

Quatroze atores de prestígio se juntam para farra cinematográfica – e dão um trabalho danado ao roteirista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O roteirista George Nolfi pode se orgulhar de ter construído um dos roteiros mais difíceis de 2004. Não é fácil ter em mãos uma história original, sobre uma dupla de ladrões da alta sociedade, e ser obrigado a adaptá-la de forma a conseguir encaixar nela a assombrosa quantidade de 14 co-protagonistas. Essa foi a hercúlea tarefa a que Nolfi foi submetido depois que o cineasta Steven Soderbergh leu o texto original que ele havia vendido à Warner. O diretor viu bom potencial no roteiro e achou que havia boas chances de transformá-lo na trama da continuação do sucesso “Onze Homens e Um Segredo”. Assim foi feito, e o filme de Nolfi virou “Doze Homens e Outro Segredo” (Ocean’s Twelve, EUA, 2004).

Agora, imagine o tamanho do problema. Quando você escreve um longa-metragem para Brad Pitt, você satisfaz uma ou outra vontade do astro e vai em frente. Mas não nesse caso. Porque, além de Pitt, estão no filme George Clooney, Julia Roberts, Catherine Zeta-Jones e Matt Damon. Do segundo time de Hollywood, comparecem Andy Garcia, Don Cheadle e Elliot Gould. Isso sem falar de Soderbergh, um dos diretores mais prestigiados dos últimos tempos. Todo mundo dando pitaco. A tarefa de George Nolfi, portanto, seria amarrar as sugestões dessa turma toda em um texto que fosse coerente e inteligente.

Na prática, Nolfi tinha que cumprir uma quantidade abissal de pré-requisitos durante a mexida no roteiro original. As principais: 1) Aumentar a quantidade original de ladrões, de dois para doze; 2) Criar uma personagem feminina para Catherine Zeta-Jones; 3) Inventar uma tensão sexual entre essa nova garota e o personagem de Brad Pitt, um pedido expresso do astro; 4) Lidar com o problema da gravidez de Julia Roberts, cuja protuberante barriguinha precisava ser explicada de alguma forma; 5) Introduzir um personagem europeu, já que a película seria filmada no Velho Continente; 6) Dar um jeito de jamais permitir que a platéia esqueça de qualquer um dos onze integrantes da gangue original.

É surpreendente, portanto, que o sujeito tenha conseguido fazer tudo isso e produzir um roteiro decente, ainda que para isso tenha sido obrigado a recorrer a artifícios nada recomendáveis. Pegue a abertura do longa-metragem, por exemplo. Em uma série de rápidas cenas encadeadas numa única seqüência, Steven Soderbergh mostra o mafioso Terry Benedict (Andy Garcia) comparecendo pessoalmente à casa de cada um dos onze ladrões que roubaram o cofre do hotel Bellagio, no filme anterior. Benedict quer obrigá-los a devolver os US$ 160 milhões, com juros. Será que ele precisava bater na porta de cada um para fazer isso? Pessoalmente? Mais importante: porque o primeiro da gangue a ser visitado, o líder Danny Ocean (George Clooney), não avisou aos demais colegas para fugirem?

A resposta é simples: o roteiro precisa, de algum modo, reapresentar os onze personagens à platéia. Tinha que fazer isso em poucos minutos, para não alongar demais esse prólogo. E ainda devia dar informações ao público sobre a maneira como cada um dos onze ladrões tinha usado a sua parte do dinheiro. George Nolfi fez tudo isso, mesmo tendo que construir uma seqüência muito pouco realista. “Doze Homens e Outro Segredo” está repleto dessas situações. Uma olhada atenta no longa-metragem e o espectador poderá encontrar muitas cenas irrelevantes, repetitivas ou forçadas, simplesmente porque roteirista e diretor precisavam cumprir aqueles seis pré-requisitos lá de cima. Quase todas as cenas com a linda Isabel Lahiri (Zeta-Jones) são dispensáveis. Mas Rusty Ryan (Brad Pitt) não precisava ganhar uma namorada?

O enredo do filme é bem simples. Para pagar a dívida com Benedict, que lhes dá duas semanas, os onze embarcam para a Europa. Lá, terão que aplicar golpes sucessivos em Amsterdã, Roma e Paris, além de enfrentar a concorrência de um misterioso ladrão francês chamado Raposa Noturna (Vincent Cassel, de “Irreversível”) e a perseguição de uma agente da Interpol que já namorou com Rusty, a já citada Isabel Lahiri. Steven Soderbergh dirige com a competência habitual, usando uma trilha sonora cheia de suingue, com várias pérolas dos anos 1970 (Roberto Carlos comparece). O diretor, que também fotografa o longa-metragem, utiliza a câmera na mão com freqüência e privilegia, como seria de esperar, os diálogos. Cria um filme movimentado, mas com pouca ação física.

No fim das contas, “Doze Homens e Outro Segredo” cumpre bem a função de divertir, mas não é brilhante. Repete o clima cool jazz do primeiro filme (repare como os bandidos chiques estão sempre com copos de uísque ou taças de vinho na mão, além de vestirem ternos impecáveis). A maior diferença para a receita utilizada no primeiro filme está nas cenas de roubo. Enquanto a obra de 2000 exibia o roubo do cassino como uma maravilhosa mágica cinematográfica, o longa de 2004 faz tudo às pressas, de forma complicada e pouco verossímil. Só não perca a maneira que George Nolfi arrumou para solucionar o problema 4. É a melhor coisa de “Doze Homens e Outro Segredo”, disparada.

O DVD brasileiro é uma decepção, pois contém somente o filme (em corte original widescreen, que preserva os enquadramentos) e um trailer. O áudio está em formato Dolby Digital 5.1 e há trilha dublada em português, mas o formato desta é mais modesto: DD 2.0.

– Doze Homens e Outro Segredo (Ocean’s Twelve, EUA, 2004)
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Brad Pitt, George Clooney, Matt Damon, Catherine Zeta-Jones
Elenco: 120 minutos

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