Doze Homens e Uma Sentença

17/08/2006 | Categoria: Críticas

Filme de 1957 é aula de cinema e prova definitiva de que um bom cineasta pode ser genial sem muitos recursos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

É difícil imaginar um filme de abordagem mais seca, espartana e desprovida de atrativos do que “Doze Homens e Uma Sentença” (Twelve Angry Men, EUA, 1957). Com exceção de duas rápidas tomadas de locações externas, uma do princípio e outra no final, a história mostra um grupo de pessoas trancadas dentro de uma sala, discutindo sem parar. Ainda assim, trata-se de uma prova definitiva de que um bom cineasta é capaz de fazer um filme brilhante, genial mesmo, sem precisar de rigorosamente nada além de um punhado de bons atores e um roteiro inteligente.

A rigor, “Doze Homens e Uma Sentença” funciona como uma aula de técnica cinematográfica, pois mostra como um diretor discreto pode utilizar a técnica de modo imperceptível ao espectador, apenas para apoiar o clima, o tipo de sensação que deseja passar à platéia. Neste filme em preto-e-branco, Sidney Lumet dispõe de apenas um cenário – uma sala com uma mesa e doze cadeiras – e mesmo assim consegue prender a atenção do público de maneira absoluta. É literalmente impossível desviar os olhos da tela.

Os doze homens do título são os jurados de um caso aparentemente óbvio de assassinato. Eles devem deliberar sobre a condenação à morte ou a absolvição de um jovem acusado de matar o pai a facadas. Tudo parece apontar para uma decisão rápida e limpa. Onze jurados estão convencidos da culpa do rapaz. Apenas um (Henry Fonda) demonstra ter dúvidas. Ele pede que todos debatam e analisem cuidadosamente cada prova do crime para que possam decidir com sobriedade. E aí… bom, é melhor assistir ao filme para saber o que acontece, pois o que acontece é extraordinário.

Ao contrário do que muita gente pode acreditar, a tarefa de Sidney Lumet, que estreou no cinema com este drama eletrizante, não foi simplesmente dirigir os atores. O cineasta decidiu usar os recursos técnicos disponíveis – posição da câmera, enquadramento, lentes – para, sutilmente, ir aumentando a atmosfera de tensão entre os jurados. Também foi inteligente o suficiente para ambientar a ação no “dia mais quente do ano”, o que significa que o calor físico que aumenta aos poucos reflita a elevação da temperatura emocional da trama.

No começo do filme, a câmera é quase sempre colocada em um ponto de vista acima dos personagens. Olha para baixo, em uma postura onipotente, que reflete a arrogância da maioria dos personagens. Aos poucos, a dúvida cresce entre eles – e a câmera vai lentamente baixando, ampliando a sensação de insegurança. Lumet também substitui gradativamente as lentes por outras de distância focal maior, e o efeito é que os personagens, cada vez mais pressionados pelas próprias consciências, vão parecendo mais e mais “achatados” contra as paredes.

Por último, o início dos debates privilegia enquadramentos mais amplos, em que aparecem freqüentemente diversos personagens. A ação vai transcorrendo e Lumet passa a aproximar a câmera dos personagens, mostrados primeiro em planos americanos (da cintura para cima), e depois em closes bem fechados. Enquanto isso o calor aumenta, lenços são sacados para enxugar o suor, e o filme vai pegando fogo. Todo esse conjunto de técnicas simples ajuda a manter o extraordinário nível de tensão que a história deseja passar ao público.

Em resumo, “Doze Homens e Uma Sentença” é uma verdadeira enciclopédia para aspirantes a diretor de cinema. Na prática, mostra-se o filme ideal para ensinar a cinéfilos como o trabalho de um cineasta pode ser invisível e, ao mesmo tempo, influenciar decisivamente na criação da atmosfera emocional que a história exige para funcionar plenamente. Como se não bastasse, o subtexto é rico e permite inúmeras interpretações – fundamentalmente, a narrativa trata da importância de as pessoas não se deixarem levar pelas aparências, devendo analisar tudo em detalhes antes de tomar decisões importantes. Muito, muito bom.

O DVD da Fox é tão espartano quando o longa, e contém apenas o filme. A qualidade da imagem (widescreen 1.66:1 anamórfico) é muito boa, e o som é OK (Dolby Digital 1.0).

– Doze Homens e Uma Sentença (Twelve Angry Men, EUA, 1957)
Direção: Sidney Lumet
Elenco: Henry Fonda, Martin Balsam, Lee J. Cobb, Jack Klugman
Duração: 96 minutos

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