Doze Macacos

30/11/2004 | Categoria: Críticas

Terry Gilliam filma pesadelo futurista em clima melancólico e com cheiro de morte

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O ano é 2035. Após uma epidemia de um vírus desconhecido e de grande poder letal, a população mundial foi reduzida a apenas 1%, com mortes registradas de mais de cinco bilhões de pessoas. Os pequenos grupos que sobraram são obrigados a viver em abrigos subterrâneos, pois o ar está contaminado com o vírus fatal. A sobrevivência da raça humana está comprometida, a não ser que um plano extravagante e perigoso, tramado por um grupo de cientistas, dê resultado. Os especialistas inventaram uma máquina do tempo capaz de enviar uma pessoa ao ano de 1996, para que ela possa rastrear a origem do vírus desconhecido e, assim, impedir a eclosão do futuro apocalíptico. Essa é a narrativa principal de “Doze Macacos” (Twelve Monkeys, EUA, 1995), o mais convencional – e nem por isso menos brilhante – filme do ex-membro do Monty Python, Terry Gilliam.

“Doze Macacos” pode ser descrito como um cruzamento de “O Estranho no Ninho” com “Clube da Luta”. O filme funciona em muitos níveis. É uma ótima aventura, cheia de lances surpreendentes, trechos inesperados e uso inteligente da teoria de viagem no tempo. Também é uma das melhores ficções científicas da década de 1990 a retratar o medo, marcadamente forte no inconsciente coletivo de todos nós, a respeito de um futuro apocalíptico (bem como da esperança nas possibilidades de evitá-lo). Por fim, ainda funciona como um belo romance, mesmo que seus protagonistas sejam pessoas estranhas, o que resulta em um relacionamento marginal, quase anti-social. “Doze Macacos” é um pesadelo futurista em clima melancólico, sobre o qual paira constantemente a sombra da palavra “morte”.

O mais convencional filme de Terry Gilliam ainda está muito longe de ser um típico produto de Hollywood. Por isso, seu protagonista está bem distante da imagem glamourosa do herói cinematográfico típico. James Cole (Bruce Willis) é um prisioneiro de grande força física, mas mentalmente instável, que recebe a incumbência de fazer a viagem no tempo e voltar ao passado para evitar a epidemia. A viagem deixa o usuário completamente desorientado. Por isso, quando retorna por engano a 1990, Willis é confundido com um louco e vai parar no manicômio. Lá, trava contato com a psicóloga Kathryn Reilly (Madeleine Stowe) e com o paciente Jeffrey Goines (Brad Pitt). Os dois parecem ser peças perdidas de um quebra-cabeças que só vai ser formado seis anos depois.

Na segunda viagem, Cole vai ao ano correto de 1996. Precisa encontrar um grupo terrorista que se auto-intitula “Exército dos Doze Macacos”. Há evidências de que esse grupo será responsável pelas primeiras contaminações com o vírus letal. Ao mesmo tempo, o prisioneiro passa a ser assombrado por um sonho recorrente, em que aparece ainda menino. Um mulher loura, um homem de bigodes e um corre-corre formam uma imagem mental que acompanha Cole por todos os dias, em todos os sonhos. Ele sente que pode estar à beira da loucura. O personagem de Cole vive situações dignas do inesquecível Randle McMurphy, o protagonista de “Um Estranho no Ninho”, vivido por Jack Nicholson.

O trabalho de Terry Gilliam é magistral em todos os sentidos. Seu filme é lúcido, límpido como água, embora o desenvolvimento do enredo seja bastante complexo. Gilliam também investe em um visual épico, mesmo com um orçamento curto, e constrói um mundo pós-apocalíptico absolutamente realista, onde caldeiras viram máquinas do tempo e escafandros são reaproveitados para virar roupas isolantes nas raras expedições à superfície empreendidas pelos homens do futuro. A direção de arte é inteiramente compatível com a existência de uma sociedade construída a partir de escombros. Toda a concepção visual – suja, escura, enferrujada, desgastada – foi feita como se os humanos tivessem que reconstruir o mundo a partir de um ferro-velho. Em um cenário devastado, nada é mais real do que isso.

As imagens perturbadoras que povoam o universo onírico de Gilliam também marcam presença. A textura rústica do sonho de James Cole é uma das seqüências mais interessantes do filme. Em certo momento, há uma passagem que mostra animais selvagens “passeando” pelas ruas da Filadélfia (EUA). David Fincher teria ficado orgulhoso de fazer algo parecido em “Clube da Luta”. O mundo pós-apocalíptico de Terry Gilliam parece a Terra reinventada por Tyler Durden. Aliás, Gilliam e Fincher compartilham o amor por cenários grandiosos e decadentes, como se um artista barroco fosse obrigado a pintar grandes aquarelas no meio de um depósito de lixo.

Como se isso não bastasse, Terry Gilliam ainda extrai ótimos desempenhos de dois atores que, no campo dramático, ainda não haviam revelado muito talento em 1995, quando o filme foi produzido. Os olhos tristes de Bruce Willis, que abrem e fecham o longa-metragem, emprestam o ar de angústia necessário para fazer crível o torturado James Cole. Já Brad Pitt oferece o primeiro desempenho memorável da carreira, criando maneirismos e tiques nervosos para Jeffrey Goines que iriam lhe acompanhar por muitos outros filmes, incluindo o já citado “Clube da Luta”, espécie de irmão mais novo e mais atrevido de “Doze Macacos”.

O filme de Terry Gilliam foi lançado duas vezes em DVD no Brasil, pela Columbia e pela Universal, mas é a mesma edição. Consta dela o excepcional documentário “The Hamster Factor and other tales of Twelve Monkeys” (algo como “O Fator Hamster e outras histórias de Doze Macacos”), um dos melhores documentários já produzidos a respeito de um filme. Trata-se de outro longa-metragem: 88 minutos acompanhando, dia e noite, a intimidade de Terry Gilliam durante a produção do épico de ficção científica. Keith Fulton e Louis Pepe, os diretores, receberam carta branca para andar no set e aproveitaram a oportunidade para criar um dos mais honestos retratos da interferência de um estúdio na produção de um filme.

Artigo raro em DVDs, o documentário não poupa a Universal, mostrando claramente as pressões exercidas pelo estúdio para modificar o filme. Aliás, “Hamster Factor” não poupa nem Terry Gilliam, pois exibe vários depoimentos do cineasta angustiado, cheio de dúvidas, sem saber que caminho tomar durante a produção. Isso sem falar no desabafo cheio de frustração de Gilliam após uma sessão-teste em que a platéia reagiu mal ao filme. É até impressionante que a mesma distribuidora tenha decidido lançar o documentário junto com o longa de ficção. Mas foi assim. Aleluia! Pena que “Hamster Factor” só tenha legendas em inglês. Um comentário em áudio de Gilliam e storyboards completam um DVD diferente e, para muitos, inesquecível.

– Doze Macacos (Twelve Monkeys, EUA, 1995)
Direção: Terry Gilliam
Elenco: Bruce Willis, Madeleine Stowe, Brad Pitt, Joseph Melito
Duração: 129 minutos

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