Dr. T e as Mulheres

29/09/2003 | Categoria: Críticas

Filme subestimado de Riobert Altman investiga alma feminina com leveza, sensibilidade e bom humor

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Já virou clichê: existem alguns raros diretores cinematográficos que conseguem escalar grandes atores a preço de banana em seus filmes. Hoje em dia, já é normal os astros de Hollywood alternarem filmes-pipoca com obras de maior fôlego artístico. Robert Altman, 73 anos, é um desses nomes capazes de emprestar credibilidade a qualquer projeto, mas eles freqüentemente demoram meses para aportar no Brasil. Por isso, a chegada de “Dr. T e as Mulheres” (Dr. T and the Women, EUA, 2000) às videolocadoras (e bancas de revista) pode ser saudada como um bênção dos deuses da Sétima Arte.

Antes de tudo, é bom ressaltar que o último filme de Altman é uma obra polêmica e que dividiu críticos e platéias de cinema pelo mundo afora. A maioria viu “Dr. T e as Mulheres” como uma produção menor da carreira de um diretor responsável por obras-primas do quilate de “M.A.S.H”, “Nashville” e “Short Cuts – Cenas da Vida”. Outros enxergaram um retrato cruel e machista das mulheres, tema principal da obra. Se visto apenas como a crônica despretensiosa e politicamente incorreta que é, o filme ganha muito mais do que o carimbo de bom, algo corriqueiro na carreira de Altman.

Trata-se de um produto típico de um dos diretores que melhor consegue trabalhar personagens (e, por isso, é tão adorado pelos atores). “Dr. T e as Mulheres” pode ser visto como uma metáfora para a visão particular do cineasta sobre o caráter etéreo e misterioso da alma feminina. Em ritmo de crônica (outra característica dos seus melhores trabalhos), o roteiro costura histórias minimalistas e personagens estranhos, todos ligados pela figura do médico do título, bem interpretado por um surpreendente Richard Gere.

O doutor T. não é um homem normal, muito menos um texano típico (o Texas, terra-natal do atual presidente George W. Bush, é um dos Estados mais conservadores dos EUA). É atencioso com as pacientes, carinhoso com as filhas, amoroso com a esposa e generoso com os homens. De repente, se vê enfrentando, ao mesmo tempo, uma crise pessoal e outra profissional que parecem intransponíveis. A cada seqüência, o ginecologista se mete numa complicação maior, enquanto tenta ajudar a todos.

O problema começa com a esposa (uma recauchutada Farah Fawcett), que se descobre portadora de uma doença psicológica rara causada por excesso de amor recebido. Ela passa a vê-lo como um irmão e o bom doutor vai se interessar por uma golfista autoritária e independente (a oscarizada Helen Hunt, de longe a pior atriz do elenco, repetindo os mesmos maneirismos de que abusa na série “Mad About You”). Enquanto isso, tem problemas com uma filha lésbica que pretende casar e enterrar o negro passado sexual (a ótima novata Kate Hudson); a segunda filha (Tara Reid) anda com ciúmes da irmã e tenta atrapalhar a cerimônia de todas as formas, inclusive tentando fazer chantagem emocional com a tia alcoólatra (Laura Dern).

Uma curiosidade: há apenas três personagens masculinos no filme, todos secundários e estereotipados como machistas bobos que passam o tempo todo caçando animais. Nesse cenário predominantemente feminino, Altman dá um jeito de fazer críticas cruéis aos texanos (numa cena hilariante, ele expõe a obsessão dos moradores do lugar com a morte de Kennedy) e observações mordazes sobre a natureza da mulher que irritaram feministas pelo mundo afora. E o final do filme, que provoca gargalhadas, é uma pérola do nonsense e não deve ser levado a sério. Vale muito a pena. Infelizmente, o DVD não traz extra algum.

Dr. T e as Mulheres (Dr. T and the Women, EUA, 2000)
Direção: Robert Altman
Elenco: Richard Gere, Helen Hunt, Kate Hudson, Tara Reid, Laura Dern
Duração: 122 minutos

| Mais


Deixar comentário