Drácula (1931, em espanhol)

18/10/2005 | Categoria: Críticas

Versão do mito do vampiro rodada com atores hispânicos em Hollywood é mais do que mero interesse antropológico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Em 1931, o som ainda era uma novidade nos filmes de Hollywood. Havia apenas quatro anos que as primeiras produções com trechos sonorizados estavam chegando aos cinemas. Para os executivos, a euforia pelo realismo inédito acrescido aos filmes pela banda sonora trazia também um problema: os diálogos em inglês não poderiam ser compreendidos pelas platéias fora dos Estados Unidos. Na ocasião, as técnicas de dublagem e legendas, que se tornariam populares, não foram as primeiras soluções tentadas. Os executivos da indústria cinematográfica tiveram uma idéia mais ousada: faziam o mesmo filme duas vezes, sendo uma delas com atores falando espanhol. Essa versão era destinada aos países da América Latina, que constituíam a maior bilheteria não-inglesa.

Uma das primeiras e mais famosas produções a utilizar o exótico expediente foi a primeira versão cinematográfica de “Drácula”. Enquanto o filme principal foi entregue ao jovem diretor Tod Browning, a filmagem em espanhol ficou a cargo do experiente George Melford. O veterano teve à disposição um elenco formado por atores espanhóis, argentinos e mexicanos. A equipe filmava durante as noites e madrugadas, nos mesmos cenários e locações que Tod Browning utilizava durante o dia. O roteiro era o mesmo, as marcações (indicações imperceptíveis que o ator deve obedecer quando caminha pelos sets) também. A idéia era fazer o mesmíssimo filme, só que falado em outra língua.

Melford, contudo, tinha idéias mais ambiciosas. Ele tinha acesso aos copiões que a equipe de Tod Browning rodava, todos os dias. Dessa forma, antes de filmar, dava uma olhada no resultado final do outro time e imaginava de que maneira poderia melhorar as cenas. O resultado é que seu filme acabou sendo visto por críticos e historiadores especializados em cinema de horror B como uma obra-prima, superior em alguns aspectos (eminentemente técnicos, de movimentação de câmera) ao “Drácula” em inglês. Embora pouquíssima gente da platéia dos EUA tenha tido acesso a tal versão, a lenda se popularizou. Hoje, cinéfilos fãs do gênero fazem questão de guardar em casa uma cópia do conde vampiro falando um galante espanhol.

Uma conferida atenta em “Drácula”, versão de George Melford, desmente o mito. Há, sim, cenas que parecem decalcadas de um filme para outro. Algumas tomadas inclusive são as mesmas (a panorâmica que mostra a carruagem de Renfield chegando à aldeia nos Bálcãs, logo no início do filme, é idêntica nas duas obras). Mesmo assim, no todo, a película em espanhol é bastante diferente. Para começar, é 33 minutos mais longa. Talvez encantado pelas novas possibilidades trazidas pelo cinema sonoro, Melford aumentou bastante os diálogos, tornando algumas seqüências longas e enfadonhas devido à falta de mudanças de ângulo de câmera. Vista hoje, uma cena de conversa que passa vários minutos sem trocar o ângulo de câmera é coisa de filme amador.

Por outro lado, é fato que em algumas cenas-chave o trabalho de câmera móvel, usado de modo mais abundante no filme em espanhol, chama a atenção. A seqüência em que Renfield é recebido pelo conde, nas escadarias do castelo na Transilvânia, é o melhor exemplo. O filme de Tod Browning acompanha o encontro à distância, enfatizando a grandiosidade do cenário; Melford preferiu pôr a câmera no mesmo ponto de vista de Renfield, caminhando para frente e vendo o conde de baixo para cima. O resultado é uma cena mais dinâmica, mais misteriosa e mais evocativa.

Outra diferença bastante grande está nos figurinos das garotas, especialmente Eva (Lupita Tovar), o interesse amoroso de Drácula. Como o filme em espanhol não precisava passar pelas tesouras dos censores, que na época eram rigorosos nos EUA, os executivos logo perceberam que não precisavam usar os fechados vestidos vitorianos do longa-metragem de Tod Browning. Utilizaram então roupas semi-transparentes e com fendas escandalosas para o período, o que acentua o caráter sexual da história.

Acima desses aspectos positivos, há outros negativos. Como já foi dito, a montagem é um ponto fraco evidente, e o filme apresenta pouca variação nos planos fixos de meia distância. Os atores, que interpretam de forma exagerada e quase teatral, também são um problema, agravado pela confusão de sotaques resultante da escalação de pessoas de nacionalidades diferentes. Como George Melford não falava espanhol, deixou passar o problema. Mesmo com tudo isso, o “Drácula” em espanhol deve ser visto como mais do que uma mera curiosidade antropológica.

As condições em que o filme se apresenta em DVD são muito ruins, mas isso tem uma explicação. Ao contrário da obra de Tod Browning, que foi preservada de forma profissional, o longa-metragem de George Melford ganhou o ostracismo. Durante décadas, acreditava-se que apenas uma cópia em película havia sobrevivido, com a ausência do segundo rolo (o trecho com a sedução de Renfield pelas noivas-vampiras e a viagem do caixão do conde à Inglaterra). Durante os trabalhos de restauração, nos anos 1990, uma cópia completa acabou sendo encontrada com um colecionador cubano.

Essa cópia, porém, estava em péssimas condições. Isso fica evidente para quem assiste ao filme, pois mesmo restaurado, o trecho tem muito mais arranhões do que o restante do filme. As péssimas condições de conservação também se refletem no som; apenas os diálogos são claros, enquanto praticamente todos os ruídos de fundo (passos, o farfalhar do vento, portas abrindo) foram eliminados da trilha de áudio.

Curiosamente, o DVD nacional do filme vem desmembrado da Monster’s Collection original. Nos EUA, o filme acompanhava a versão de Tod Browning, dando ao espectador a chance de compará-las. No Brasil o “Drácula” espanhol foi eliminado do disco com o filme em inglês. Em 2005, contudo, a versão de George Melford foi lançada. O enquadramento é o original (fullscreen 4×3), o som é ruim (Dolby Digital 1.0) e como extra, há apenas uma introdução em vídeo de Lupita Tovar (5 minutos), fornecendo o contexto sobre o filme. O espectador ganha ainda, no mesmo disco, o filme B “A Filha de Drácula”, de 1936.

– Drácula (Dracula, EUA, 1931)
Direção: George Melford
Elenco: Carlos Villarías, Lupita Tovar, Barry Norton, Pablo Alvarez Rubio
Duração: 104 minutos

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