Dragão Vermelho

20/09/2003 | Categoria: Críticas

Terceira aventura de Hannibal Lecter no cinema tem no elenco talentoso o maior trunfo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Usar a palavra “trilogia” para se referir à saga do psicopata mais famoso do cinema dos anos 1990 está longe ser uma boa idéia. Por isso, cheira a estratégia de marketing barata a forma de promoção do longa “Dragão Vermelho” (Red Dragon, EUA, 2002). As histórias criminosas envolvendo o psiquiatra Hannibal Lecter, protagonista de “O Silêncio dos Inocentes”, não foram concebidas como trilogia; as duas continuações só ganharam vida por questões financeiras. Se o mérito artístico cai próximo do zero, entretanto, vale ressaltar que “Dragão Vermelho” não é um filme ruim.

A película, dirigida pelo cineasta Brett Ratner, comprova pela enésima vez uma decana lição do cinema comercial: quando feito sem grandes ambições, um simples thriller de suspense com trama engenhosa vira diversão de boa qualidade. Esse é o caso de Dragão Vermelho, que narra a primeira aventura de Hannibal Lecter, num tempo anterior aos dois outros longas com o personagem. Trata-se de um remake, também baseado num livro do escritor Thomas Harris, e antes filmado por Michael Mann (“O Informante”).

Uma rápida olhada na lista dos atores envolvidos na produção já basta para despertar a curiosidade do espectador, desconfiado devido ao péssimo “Hannibal”, feito dois anos antes. Edward Norton, Emily Watson, Ralph Fiennes e Philip Seymour Hoffman são sujeitos jovens, talentosos e com ótimos filmes nos currículos. Sobre Harvey Keitel e Antohny Hopkins poder-se-ia dizer a mesma coisa, exceto que sejam jovens – e os anos de serviço em Hollywood também já se encarregaram de enfiá-los no elenco de muitas bombas. De qualquer modo, a reunião de um elenco tão raro e em forma, num único filme, é um ótimo presságio.

A qualidade da película, contudo, não está ligada originalmente às interpretações; existe um outro nome por trás da produção que simboliza muito mais a qualidade do longa. Ele é o de Ted Tally, o roteirista original de “O Silêncio dos Inocentes”. Tally, bem como o cineasta Jonathan Demme e a atriz Jodie Foster, recusou-se a fazer parte da equipe responsável por “Hannibal”. Segundo ele, por um motivo muito simples: a qualidade do livro de Thomas Harris era ruim, e ele não queria trabalhar sobre material de má qualidade. Por isso, Tally diz ter concordado em fazer o texto de “Dragão Vermelho”. Nesse aspecto, ele tem razão, e faz dessa vez um trabalho muito bom.

Mais do que o elenco homogêneo, o texto é a grande estrela de “Dragão Vermelho”. Baseada no primeiro romance a trazer Hannibal Lecter ao mundo literário, a trama começa discorrendo sobre os eventos que levam à prisão de Lecter, o refinado psiquiatra que ajuda o agente federal Will Graham (Norton) a traçar o perfil psicológico de um serial killer da região. Num surto de intuição, Graham consegue agarrar o médico, mesmo saindo seriamente ferido. Meses depois, o agente – agora aposentado – é reconvocado para tentar agarrar outro criminoso serial (Fiennes), apelidado “Fada dos Dentes” por um repórter local (Seymour Hoffman).

Esse homem chacina famílias inteiras e demonstra muita inteligência; por isso, Graham perceber que precisa recorrer à ajuda de Lecter para tentar prendê-lo. O nobre doutor topa a parada, mas sua verdadeira intenção é chamar a atenção do assassino para a destreza do policial, buscando assim uma vingança bem ao estilo gato-e-rato. Nesse ponto, Dragão Vermelho repete os trejeitos de “O Silêncio dos Inocentes”, recorrendo a uma trama centrada na investigação dos crimes, por sua vez baseada na observação visual e no raciocínio lógico do investigador. Ao apostar mais na ação cerebral, o roteiro transforma “Dragão Vermelho” num dos bons policiais de 2002, mesmo recorrendo ao final-padrão de Hollywood. O que importa aqui não é onde se quer chegar, mas a maneira como fazê-lo.

Para a boa saúde do filme, contribuem bastante as perfomances contidas de Norton, Watson e Fiennes (embora esse último não tenha o tipo físico exigido pelo papel). Seymour Hoffman está infelizmente desperdiçado, e Harvey Keitel cai na sombra do excelente Scott Glenn, intérprete do mesmo agente especial Jack Crawford que surge em “O Silêncio dos Incoentes”. Mas vem justamente de Hopkins a nota distoante do elenco: afetado e histérico, seu Hannibal cospe tantos chavões na primeira hora de projeção que (ainda bem) desparece da tela na metade final. Pelo sim, pelo não, “Dragão Vermelho” põe uma nota positiva no currículo de Brett Ratner, um cineasta apenas esforçado, e acaba como um suspense honesto e bem realizado.

O DVD, por sua vez, vem carregado de extras interessantes, incluindo um comentário em áudio dividido pelo falastrão Ratner e pelo contido Tally. Há ainda algumas cenas deletadas e vários arquivos de texto a respeito do personagem Hannibal Lecter. Isso tudo, claro, está na versão para venda direta, pois o vídeo locado vem seco, sem nada além do filme.

– Dragão Vermelho (Red Dragon, EUA, 2002)
Direção: Brett Ratner
Wlenco: Edward Norton, Anthony Hopkins, Ralph Fiennes, Emily Watson
Duração: 124 minutos

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