Dreamgirls – Em Busca de um Sonho

28/06/2007 | Categoria: Críticas

Musical negro tem excelente trilha sonora e bons atores, mas a história está repleta de chavões

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Amantes da música negra americana têm em “Dreamgirls – Em Busca de um Sonho” (EUA, 2006) um velho sonho realizado: um longa-metragem que mapeia a evolução da black music nos Estados Unidos durante duas décadas. A excelente qualidade musical da produção, que traça um panorama completo do desenvolvimento deste tipo de música nos anos 1960 e 70, é elemento fundamental para compreender o sucesso do filme, especialmente diante da crítica especializada, pois a história que ele conta – a ascensão e a decadência de um grupo vocal feminino no panorama da música pop norte-americana – é repleta de chavões e lugares-comuns.

Baseado em um prestigiado espetáculo da Broadway que estreou em 1981, “Dreamgirls” tem uma história bastante curiosa. A trajetória tumultuada que a história percorreu até virar filme explica facilmente porque foi preciso um quarto de século para que isto acontecesse. Em resumo, o grande problema é que Hollywood tinha medo de investir milhões de dólares em uma produção com 90% do elenco formado por atores negros. Antes de Bill Condon (diretor dos elogiados “Kinsey” e “Deuses e Monstros”) assumir o projeto em 2003, depois do sucesso do musical “Chicago”, foram feitas pelo menos duas tentativas de transformar o musical em filme. Estrelas como Whitney Houston e Lauryn Hill namoraram o papel principal, que acabou nas mãos de uma sucessora: Beyoncé Knowles, diva negra de enorme sucesso e corpo escultural, que embala os sonhos molhados de muitos marmanjos americanos.

Observando-se as tentativas frustradas de transformar a peça em filme, fica evidente que Hollywood não estava preparada, nos anos 1980, para criar um musical de grande porte exclusivamente negro. Em 1982, quando o produtor David Geffen começou a pensar no filme, “Dreamgirls” seria uma ousadia incendiária numa indústria conhecida pelo conservadorismo excessivo – naquela época, atores negros não ganhavam Oscar, nem recebiam salários iguais aos astros brancos. Em 2006, a situação mudou bastante. O hip hop apareceu, seduziu a juventude branca e deu partida a uma onda “quero ser negro” entre os adolescentes arianos, fenômeno já devidamente abordado por observadores sensíveis da cultura dos EUA (Spike Lee fez isso com verve especialmente afiada, no muito superior “A Hora do Show”, de 2001).

Se tivesse sido produzido há 20 anos, “Dreamgirls” seria de uma ousadia digna de aplausos. Em 2006, contudo, o mergulho no universo do negro norte-americano não tem mais nada de incendiário. De fato, o filme de Bill Condon aborda algumas questões interessantes, como o racismo velado que impediu grandes artistas negros de talento fazerem sucesso na época do nascimento do rock’n’roll – foi preciso aparecer um branco com voz de negro, chamado Elvis Presley, para que o ritmo realmente decolasse, quando gente como Chuck Berry e Little Richard, verdadeiros visionários que cunharam o estilo, permaneciam confinados ao gueto negro. Este panorama aparece em “Dreamgirls”, mas está longe de ser novidade. Qualquer pessoa com conhecimento razoável da história da música do século XX já sabe disso tudo.

De qualquer forma, a recriação minuciosa das duas épocas distintas em que a história do filme se passa (principalmente nos anos de 1962 e 1973) é um trunfo da produção de Bill Condon. Figurinos e locação são perfeitos, e a caracterização do excelente elenco negro – repare no bigodinho sacana de Jamie Foxx, popular nos anos 1970 – também impressiona. Isso sem falar da qualidade excepcional das canções de Henry Krieger, autor da trilha sonora da peça original. O compositor traça a evolução dos ritmos negros nas duas décadas com timing assombroso: o R&B suingado e os lamentos blues vão se transformando aos poucos em soul balançada da melhor qualidade, desembocando no fenômeno da disco music. Não é menos do que perfeito.

Se a primeira metade do filme promete um espetáculo inesquecível para fãs de boa música, a segunda parte nos puxa de volta para o chão. O enredo, parcialmente inspirado na verdadeira biografia do grupo feminino The Supremes (de onde saiu a cantora Diana Ross), narra a ascensão profissional de um trio de irmãs cantoras, nas mãos de um esperto vendedor de carros (Jamie Foxx) que se transforma em empresário de respeito através de uma dieta de subornos e tramóias, aliados a um talento visionário para “ler” o gosto dos consumidores de música no país. É ele, por exemplo, quem decide substituir a gorducha Effie (Jennifer Hudson) pela bela Deena (Knowles) no posto de cantora principal do grupo, pois sabe ser a aparência, mais do que a qualidade do canto, será determinante no tamanho do sucesso que o grupo irá fazer.

O elenco é muito bom. Jennifer Hudson engordou quarenta quilos e passou por uma bateria de seis meses de testes antes de ser escalada no papel, e não apenas canta maravilhosamente, mas atua com delicadeza e energia. O veterano comediante Eddie Murphy, mais contido do que o habitual, solta a voz num papel menor, enquanto o Oscarizado Jamie Foxx prova mais uma vez que sabe cantar, algo que já havia feito – e bem – em “Ray”. Tudo perfeito? Longe disso. No que se refere ao roteiro, Bill Condon e Tom Eyen perdem a mão da história mais ou menos na metade do filme, e afundam em melodrama risível, acentuando exageradamente algumas características dos personagens e tornando-os absolutamente inverossímeis como pessoas.

Observe, por exemplo, o que é feito de Curtis Taylor Jr (Foxx). Mostrado como um espertalhão chegado a desvios morais, no começo da película o empresário ainda parece humano – ele sofre ao tomar decisões difíceis em nome do sucesso do grupo, como trocar a vocalista principal, e trata a todos com respeito e delicadeza. A irrefreável necessidade de Hollywood por vilões, contudo, acaba por transformá-lo em um monstro insensível, capaz de pagar propinas milionárias a centenas de radialistas espalhados pelo país, não para tocarem um disco, mas para deixarem de tocá-lo (“se eu posso comprar um sucesso, posso comprar um fracasso”).

É natural que os personagens mudem progressivamente no decorrer das quase duas décadas que o filme cobre, mas o processo de amadurecimento deles não é natural – aos poucos, perdem a humanidade no processo, tornando-se seres unidimensionais e sem emoções de carne e osso, verdadeiras caricaturas de si mesmo. Só para você ter uma idéia, uma das personagens chega a descobrir que tem uma sobrinha de nove (!) anos, cuja existência desconhecia, algo impossível de aceitar como verossímil dentro de uma família ligada por laços afetivos fortes. É uma pena que Bill Condon não tenha sabido dosar os excessos melodramáticos, como fez com o exagero de canções – sabe-se que o musical da Broadway não tinha diálogos, sendo narrado inteiramente por música.

O DVD da Paramount contém apenas um clipe como extra. O filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Dreamgirls – Em Busca de um Sonho (EUA, 2006)
Direção: Bill Condon
Elenco: Jamie Foxx, Beyoncé Knowles, Jennifer Hudson, Eddie Murphy
Duração: 131 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »