Drive

23/02/2012 | Categoria: Críticas

Dirigido por um dinamarquês, thriller é legítimo herdeiro dos filmes americanos dos anos 1970, e um dos melhores exemplares de cinema de gênero surgidos nos últimos tempos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A narrativa clássica do cinema norte-americano possui uma longa tradição de heróis taciturnos – homens durões e estóicos, que enfrentam desafios enormes, sem ganhar nada em troca e sem reclamar, quase sempre para ajudar gente que mal conhecem. Sujeitos que são verdadeiros anjos justiceiros, e vivem em trânsito, sem lugar de origem, sempre sem saber onde estarão no dia seguinte; caras que aceitam o que o destino lhes reserva como se não fosse possível fazer outra coisa. Esses heróis nasceram no cinema B, em westerns ou filmes noir, e fincaram raízes nos filmes de gênero realizados nos anos 1970 e 1980, um dos melhores períodos da história do cinema americano. “Drive” (EUA/Dinamarca, 2011), estréia do cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn nos EUA, é um legítimo herdeiro desses filmes, e um dos melhores exemplares de cinema de gênero surgidos nesta década.

Trata-se de um thriller policial à moda dos grandes trabalhos de William Friedkin ou David Cronenberg, ou ainda uma colagem do trabalho desses dois diretores. O jovem diretor dinamarquês não tem medo de jogar no liquidificador toda a influência recebida do cinema popular de gênero americano construído nas duas décadas citadas no parágrafo anterior. Refn escancara essa influência logo na magistral seqüência de abertura, uma das melhores cenas de apresentação de personagem dos últimos anos, seguida por uma longa seqüência de créditos mostrados em rosa choque e sublinhados por uma canção eletrônica recheada de sintetizadores, típica da década de 1980, com uma letra solitária e noturna, que dá com perfeição o tom e o clima do resto do filme.

O enredo gira em torno de um personagem masculino sem nome (Ryan Gosling), rapaz caladão que usa um casaco de couro com estampa de escorpião, quase não abre a boca para falar, trabalha como mecânico de automóveis e faz bicos como dublê de motorista em pequenas produções cinematográficas rodadas na região em que mora. À noite, porém, a vida fica mais emocionante, quando dirige automóveis para quadrilhas de ladrões. Sua regra é simples: os bandidos têm cinco minutos para entrar no lugar do roubo, tirar tudo que conseguirem e correr de voltar para o carro. Se estourarem esse tempo, estarão à mercê da polícia. Mas se cumprirem o combinado, ele garante a fuga, usando toda a habilidade que possui na direção. Essa habilidade não se resume a dirigir com perícia, mas é empregada também na capacidade de antever as manobras policiais e em muito raciocínio rápido para imaginar soluções inusitadas a perseguições vibrantes. Esse par de cenas, conduzido com simplicidade e eficiência, revela muita coisa sobre a personalidade do protagonista, e também sobre o filme e seu diretor.

A vida do nosso herói começa a mudar quando entra em cena uma jovem mãe (Carey Mulligan) que se muda para o apartamento vizinho. O marido dela está na prisão, e o protagonista logo desenvolve por ela um sentimento entre simpatia e atração (o filme não deixa esse sentimento muito claro, o que é uma boa sacada do roteiro de Hossein Amini). Essa empatia desembocará em algumas das ações mais estóicas que partem de um personagem principal desde “Os Brutos Também Amam” (1953). Revelar mais do que isso seria estragar as surpresas que o roteiro nos reserva, e elas incluem duas seqüências de violência gráfica que Cronenberg adoraria ter dirigido.

O ator canadense Ryan Gosling, responsável pela escolha de Nicolas Refn como diretor do filme, tem desempenho à altura de seu enorme talento, na pele do protagonista. O rosto impassível apenas sugere, na maior parte do tempo, o turbilhão de emoções que ele guarda dentro de si, sob uma fachada de calma e normalidade. O elenco ao seu lado brilha de forma homogênea, da delicadeza permanente de Carey Mulligan aos trejeitos histriônicos e agressivos de Albert Brooks e Ron Pearlman, nos papéis de dois sujeitos de intenções duvidosas que ajudam a elevar o filme ao patamar de jovem clássico. Esse patamar é confirmado, inclusive, por um excelente terceiro ato (ponto fraco quase onipresente em filmes americanos contemporâneos), onde cada nota parece em seu devido lugar.

A metáfora das notas musicais nos leva a destacar também alguns elementos da trilha sonora do filme. A música sóbria de Cliff Martinez é uma delas – quase minimalista, eletrônica, bem parecida com as canções ouvidas nos filmes policiais americanos dos anos 1970, ela chama a atenção pela discrição com que tenta agregar ritmo e tensão à ação física mostrada nas imagens. Outro destaque está na utilização eficiente dos silêncios, característica que casa perfeitamente com a personalidade do protagonista. A já citada seqüência de abertura é um dos melhores exemplos do uso de uso do silêncio como efeito dramático no cinema; o resto do filme se mantém no mesmo nível.

Por fim, vale destacar a energia imposta ao material pelo jovem dinamarquês, um diretor estilista que tem se mostrado afeito a floreios narrativos desde os trabalhos realizados em sua terra natal. Aqui, contudo, Refn soube refrear esse impulso pela extravagância, preferindo adotar uma direção mais discreta e deixar o enredo se sobressair. Apesar dessa aparente simplicidade técnica, ele tampouco se associa à tradição dos diretores “invisíveis”, representada por nomes como Howard Hawks e Don Siegel. A utilização de ângulos estranhos de câmera (Refn gosta de planos em que o eixo horizontal é deslocado, rebaixado, levantado ou retorcido), a câmera lenta acompanhada de música e os rompantes inesperados de violência são elementos dentro dos quais ele consegue infiltrar estilo dentro de uma narrativa clássica. Essa mistura compõe um filme inventivo, que ao mesmo tempo homenageia e subverte convenções do cinema de gênero americano.

– Drive (EUA/Dinamarca, 2011)
Direção: Nicolas Winding Refn
Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Albert Brooks, Bryan Cranston
Duração: 100 minutos

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