Drugstore Cowboy

21/11/2007 | Categoria: Críticas

Filme sobre drogas de Gus Van Sant segue caminho original e tem o ritmo indolente e os personagens jovens característicos do diretor

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O interesse pelo cotidiano da juventude, especialmente daquela parcela mais rebelde e irreverente que envereda com freqüência por caminhos autodestrutivos, é a principal marca registrada do cinema de Gus Van Sant. “Drugstore Cowboy” (EUA, 1989) foi o segundo filme de carreira dele, e o primeiro a ser lançado em circuito comercial, embora sem alcançar grande sucesso. Muitos dos seguidores de Van Sant consideram este filme o melhor de uma carreira que alcançou láureas como a Palma de Ouro em Cannes (com “Elefante”, em 2003), estabelecendo para o diretor não apenas uma assinatura autoral concreta, mas também deixando claro qual o recorte social com que ele gosta de trabalhar.

“Drugstore Cowboy” é um filme diferente sobre drogas. Ao contrário da maioria das produções internacionais que versam sobre o assunto, não tenta passar nenhum tipo de mensagem educativa. O foco narrativo é firme nos personagens, e o longa-metragem traz uma das características mais importantes do trabalho de Van Sant: um ritmo meio preguiçoso, indolente, a sensação permanente de tédio, de espera, de que não há nada de importante para se fazer. Todos os filmes de Van Sant trazem essa indolência, que talvez seja uma característica importante da juventude contemporânea, mas certamente incomoda o diretor de espírito inquieto. O fato de ele ter crescido em uma cidade – Portland, Oregon, no extremo noroeste dos EUA – onde nada acontece também ajuda.

O personagem principal é Bob (Matt Dillon), o líder de uma gangue especializada em roubar farmácias. Composto de dois casais, o grupo vive na estrada, ziguezagueando entre as cidades da costa oeste. Cada novo assalto determina uma mudança. Eles são viciados em medicamentos controlados. Roubam para abastecer os próprios estoques, mas também para ganhar a vida. O problema é que Bob é, além de viciado, extremamente supersticioso (“nunca deixe um chapéu em cima da cama, porque dá azar”). Após uma pequena tragédia que pode tomar grandes proporções, ele acredita que a sorte lhe abandonou. É o sinal que chegou o momento de parar, mesmo que isso traga rusgas com o resto da gangue.

Gus Van Sant escolhe um caminho incomum para contar uma história de redenção também incomum. Na primeira parte, ele filma o cotidiano da quadrilha de Bob com precisão cirúrgica de detalhes, enfatizando momentos prosaicos e banais. Há tensão na hora dos assaltos, mas há também dormência e ressaca. Na segunda parte, Van Sant observa o esforço de Bob na construção de uma vida sem drogas. Faz isso sem tentar passar qualquer lição de moral (o personagem continua amando drogas, só crê que elas lhe trazem azar), porque escolhe um recorte bem banal para mostrar como Bob vive – o objetivo é mostrar que o cotidiano, qualquer cotidiano, nada mais é do que um conjunto de hábitos que, na maior parte do tempo, não passa de uma série de repetições de atos sem qualquer reflexão.

Na maior parte dos filmes sobre drogas, um viciado em recuperação é mostrado em dois momentos: suando e sofrendo durante a síndrome de abstinência, e curtindo a sobriedade quando está curado. Bob, no entanto, não aparece em nenhuma das duas situações. Gus Van Sant o mostra tentando arrumar um emprego, chegando em casa após um dia de trabalho duro, jantando, tomando café e indo dormir. Ações prosaicas. O filme parece dizer que a vida nada mais é do que a capacidade de organizar uma série de ações cotidianas e repeti-las até transformá-las em hábito – e nada há de glamouroso, dramático ou político nisso. “Drugstore Cowboy” é um filme raro.

O filme não foi lançado no Brasil em DVD. Nos EUA, saiu uma edição especial contendo o longa, com boa qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0), e um documentário de bastidores.

– Drugstore Cowboy (EUA, 1989)
Direção: Gus Van Sant
Elenco: Matt Dillon, Kelly Lynch, James LeGros, Heather Graham
Duração: 100 minutos

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