Dublê de Corpo

09/10/2006 | Categoria: Críticas

De Palma presta homenagem e duas obras clássicas de Hitchcock em thriller interessante e desencanado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Durante o período inicial de sua carreira, o diretor norte-americano Brian De Palma se notabilizou por prestar homenagens tão intensas e embevecidas aos filmes de Alfred Hitchcock que se aproximava perigosamente do plágio puro e simples. Aos poucos, De Palma foi refinando um estilo pessoal, que culminou com o excelente gangster movie “Os Intocáveis” (1987). Um pouco antes, ele tinha realizado um de seus melhores trabalhos com Hitchcock como referência, com o thriller “Dublê de Corpo” (Body Double, EUA, 1984). Trata-se da mais explícita compilação de citações ao trabalho do mestre do suspense jamais realizada por um cineasta.

Para muita gente, parecia que o diretor de “Carrie – A Estranha” estava se repetindo. Em 1980, apenas quatro antes, ele já havia citado incansavelmente o clássico “Psicose” (1960) no bom “Vestida para Matar”. Agora, fazia um mix generoso de duas outras obras geniais do mestre do suspense. O que muita gente não viu é que De Palma estava, também consolidando características próprias, como a exploração da sexualidade feminina até o limite do que a censura nos EUA permite. O fato é que “Dublê de Corpo” reúne elementos de “Janela Indiscreta” (1954) e “Um Corpo que Cai” (1958) em um coquetel desencanado de cultura pop que, para usar as palavras de Hitchcock, não são e nem querem ser uma fatia de vida, e sim chocolate – ou seja, puro deleite cinematográfico.

A história acompanha o ator medíocre Jack Scully (Craig Wasson), um típico protagonista de Hitchcock: homem comum, banal, dono de uma ingenuidade inata que o transforma em vítima potencial de gente mais esperta (e sem escrúpulos) do que ele. Como James Stewart em “Um Corpo que Cai”, Scully tem uma séria fobia – de lugares fechados. O medo o faz perder o emprego e, em duplo golpe de má sorte, também a namorada. Ele recebe então uma oferta para cuidar de um apartamento luxuoso na ausência do dono, e se torna obcecado pela vizinha do apartamento da frente (Deborah Shelton), uma gostosa que curte dançar pelada quando está sozinha. Um potente telescópio transforma Scully num voyeur.

Não é preciso ser nenhum expert em cinema para reconhecer, tanto no enredo quanto no comportamento dos personagens, a forte influência das duas obras-primas hitchcockianas já citadas. Aí entra na história o elemento “crime”: Scully descobre que existe outro voyeur observando a vizinha, mas o sujeito parece não ter boas intenções. O rolo evolui rapidamente para um crime, e de repente Scully está sendo caçado pela polícia. Para desvendar o caso complicado, ele vai precisar fazer uma incursão perigosa pelo submundo do cinema pornô, onde conhecerá a estrela Holly Body (Melanie Griffith).

Só o trocadilho esperto com o nome da personagem já valeria o filme, mas “Dublê de Corpo” traz o melhor de Brian De Palma: seqüências de perseguição coreografadas impecavelmente, trabalho de câmera cheio de estilo, reviravoltas imprevisíveis no roteiro. É verdade que o elenco não é um ponto forte, mas até nos erros o cineasta acerta – Craig Wasson é um ator inexpressivo, mas como interpreta exatamente um personagem assim, acaba caindo como uma luva no papel. No todo, dentro da filmografia de De Palma, “Dublê de Corpo” não ocupa as colocações mais altas, mas tampouco está perto de ser uma decepção.

O DVD brasileiro é da Columbia e não traz extras, além de um trailer. O filme está com imagem na proporção correta (widescreen 1.85:1 anamórfica) e tem som razoável (Dolby Digital 2.0).

– Dublê de Corpo (Body Double, EUA, 1984)
Direção: Brian De Palma
Elenco: Melanie Griffith, Craig Wasson, Deborah Shelton, Gregg Henry
Duração: 114 minutos

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