Dupla Vida de Véronique, A

04/12/2006 | Categoria: Críticas

Primeira produção internacional de Kieslowski investiga de modo delicado o mito europeu do doppelgänger

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Depois de se firmar como um dos maiores diretores de cinema da Europa, através de uma prolífica obra que contrabalançava documentários, dramas vigorosos e filmes feitos para a TV, Krzysztof Kieslowski iniciou a década de 1990 buscando vôos mais altos. O rumo natural era ir filmar na França, país que o conhecia e respeitava via Festival de Cannes, e onde o dinheiro mais generoso lhe permitiria sofisticar sua produção cinematográfica. “A Dupla Vida de Véronique” (La Double Vie de Véronique, França/Polônia, 1991) marca a primeira produção internacional de Kieslowski, e é um drama maiúsculo através do qual o cineasta investiga, à sua maneira delicada, um tema típico do folclore romântico europeu – o doppelgänger.

Muito popular entre gênios literários do século XIX, como Shelley, Byron e Guy de Maupassant, a lenda do doppelgänger remonta a velhas fábulas germânicas. O mito ensina que cada ser humano possui um duplo, chamado exatamente doppelgänger, que é fisicamente idêntico a si. Este duplo está em algum lugar do planeta, e se conecta ao seu idêntico por laços afetivos e emocionais de natureza sobrenatural. A idéia casa perfeitamente com as teorias sobre coincidências, acasos e destinos que Kieslowski já vinha desenvolvendo desde o “Decálogo”, série de dez médias-metragens que fizera para a TV polonesa em 1989. Nada mais natural que, ao migrar para o país que fora no século XIX o centro difusor maior da idéia do doppelgänger, Kieslowski aproveitasse o tema para continuar abordando a temática das ligações invisíveis entre pessoas que não se conhecem.

Kieslowski então bolou duas personagens fascinantes, e criou para elas um jogo lúdico enfocando a idéia do duplo. Weronika (Irène Jacob) é uma jovem cantora lírica que mora em Cracóvia, na Polônia. Já Vèronique (a mesma Jacob), também amante de música, vive em Paris. Elas não se conhecem, mas sentem a presença uma da outra, muito embora não consigam explicar este sentimento. Na primeira meia hora, Kieslowski acompanha a jovem polonesa, até uma tragédia se abater sobre ela; depois, passa a espiar o cotidiano de Vèronique. Na cena mais fascinante do filme, as duas quase se cruzam, em uma praça na Polônia, durante uma manifestação estudantil. Uma fotografia fortuita documenta a presença das duas mulheres idênticas no mesmo local.

“A Dupla Vida de Vèronique” possui uma sensibilidade nitidamente européia. A atmosfera, devido ao uso generoso de locações antigas, é de forte nostalgia melancólica. A opção por dar às imagens uma textura radicalmente verde-vermelho, que reforça e amplia esta sensação, algo que a música triste de Zbigniew Preisner define com propriedade. As duas garotas sentem na pele esta melancolia. São mulheres tristes, apesar de não compreender bem a razão disto. O estilo narrativo não é direto e objetivo, mas cheio de elipses. As imagens vistas na primeira meia hora, aparentemente enigmáticas, vão sendo explicadas aos poucos, embora Kieslowski conscientemente evite construir um quadro completo da situação. Ele deixa inúmeras pontas soltas. A imaginação do espectador tem que funcionar para completar essas lacunas. Algumas pessoas podem achar isso ruim.

Em certa medida, “Vèronique” parece um suspense metafísico. A investigação empreendida pela personagem francesa para tentar descobrir a identidade de seu admirador secreto, que lhe envia presentes estranhos, é nitidamente inspirada em “Blow Up”, de Michelangelo Antonioni. Como nos trabalhos do diretor italiano, nenhum dos personagens de Kieslowski consegue explicar suas ações. Eles estão em trânsito permanente, sempre em busca, em movimento, e são impelidos para isto por instinto. Não conseguem verbalizar esta busca. “A Dupla Vida de Vèronique” não é um filme de ações, mas de sensações, de subjetividades, de delicadeza e reflexão sobre vida, morte, destino e coincidência.

Inteligentemente, Kieslowski se esmera na criação de imagens que reforcem a temática que aborda, mas de modo sutil e refinado. Perceba, por exemplo, como o diretor inclui muitas tomadas que mostram reflexos, espelhos e vidros. Há diversos objetos cênicos que duplicam a figura delicada de Irene Jacob, perfeita no papel; é o caso de uma pequena bola de vidro contendo figuras humanas minúsculas, que Vèronique manuseia sempre que pode – e que a câmera de Slawomir Idziak sempre procura enfocar com destaque, como se pedisse ao espectador que não esqueça da natureza dupla da garota.

Por fim, é interessante perceber como Kieslowski consegue alinhar brilhantemente duas idéias aparentemente contraditórias, que são a crença simultânea no doppelgänger (e por conseqüência na existência de ligações emocionais entre duas pessoas que não se conhecem) e no livre-arbítrio (a noção de que cada um é responsável pelo seu próprio destino). Weronika e Vèronique possuem o mesmo gosto musical e o mesmo problema de saúde, mas o cineasta sugere que as experiências de uma acabam sendo comunicadas à outra através desta ligação não-verbal, de modo que as ações de cada uma diante da mesma situação são ligeiramente diferentes, porque baseadas nas experiências da outra – e esta diferença minúscula pode significar, no fim das contas, a vida ou a morte. Detalhes ínfimos, parece dizer Kieslowski, decidem nosso futuro. Decidem, também, quando um filme é apenas excelente ou obra-prima, caso deste “Vèronique”.

O DVD da Versátil, embora simples, é um ótimo lançamento. A qualidade de imagem (widescreen 1.66:1 anamórfica) e som (Dolby Digital 2.0) está boa, e há muitos extras. Dois documentários enfocam a carreira de Kieslowski, um deles detalhando toda a carreira polonesa do diretor, e o outro trazendo memórias do produtor Bernard Guiremand. Há ainda uma longa entrevista com Irene Jacob, em que ela relembra detalhes das filmagens. São aproximadamente duas horas de extras, todos legendados.

- A Dupla Vida de Véronique (La Double Vie de Véronique, França/Polônia, 1991)
Direção: Krzysztof Kieslowski
Elenco: Irène Jacob, Halina Gryglaszewska, Kalina Jedrusik, Aleksander Bardini
Duração: 93 minutos

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4 comentários
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  1. Gostei muito da explicação e da interpretação.

  2. Assisti ontem ao filme, me apaixonei!

  3. AMO seus comentários, vc sempre capta as sutilezas, os detalhes.

  4. Sempre que vejo um filme, corro para ler a crítica aqui no Cine Reporter. Obrigado, Rodrigo! Belíssima crítica!

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