Duro de Matar 4.0

04/12/2007 | Categoria: Críticas

Coreografias de ação mirabolantes e (mau) humor intacto do personagem garantem: panela velha é que faz comida boa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Muita coisa mudou no cinema de ação desde 1995, ano em que o terceiro exemplar da série “Duro de Matar” chegou aos cinemas. O uso de computação gráfica (CGI), por exemplo, se intensificou ao ponto de virar regra em Hollywood. Numa olhada rápida, esse fato deveria significar a morte definitiva do herói John McClane, um sujeito teimoso, insistente e muito humano. Ele era um policial comum, falível, sem habilidades especiais ou QI de gênio. Se apoiava exclusivamente na tenacidade para vencer obstáculos aparentemente impossíveis. Errava várias vezes, e apanhava de todo tipo de bandido, antes de acertar. Em 2007, porém, o mundo cinematográfico vive um período saudosista de heróis humanos, falíveis, algo que combina perfeitamente com o personagem. O maior acerto de “Duro de Matar 4.0” (Live Free or Die Hard, EUA, 2007) é justamente incorporar ao enredo do filme este sabor analógico, expresso pelo velho ditado de que panela velha é que faz comida boa.

Dirigido por Len Wiseman, que estréia em mega-produções já tendo prestado serviços a uma franquia bem menos famosa (“Anjos da Noite”, aquela das batalhas entre lobisomens e vampiros), o longa-metragem encaixa perfeitamente no escopo das boas e velhas aventuras de ação, retomando todas as marcas registradas que fizeram a delícia dos fãs da série. Mais uma vez, John McClane (Bruce Willis) é apanhado de surpresa no centro de um furacão terrorista. Ele precisa salvar os Estados Unidos da ameaça de um hacker cibernético capaz de mandar o país de volta à Idade da Pedra. O vilão é ganancioso e amoral (Timothy Olyphant), e tem uma ajudante gata que pratica artes marciais (Maggie Q). McClane recebe a ajuda de um nerd magricela (Justin Long) e, no processo, precisa salvar um membro da família (a filha, interpretada por Mary Elizabeth Winstead). Tudo como nos filmes anteriores da série.

Quer mais? Os roteiristas Mark Bomback e Doug Richardson não se esqueceram de criar um super-assassino de aluguel colocado no encalço do policial de Nova York (Cyril Raffaelli, acrobata de verdade). A cereja no topo do bolo é a participação especial de Kevin Smith, o diretor de “Procura-se Amy” e “Os Balconistas”, no papel de um hacker que pode ajudar McClane a derrotar os perversos criminosos. Não há nada de muito novo nesta sinopse, mas ela é conduzida com correção por Len Wiseman. Mantendo o (mau) humor do herói intacto e alternando diálogos rápidos de exposição da trama com cenas de ação muito bem orquestradas, o diretor entrega um filme-pipoca mirabolante e exagerado – exatamente aquilo que se espera de uma aventura de John McClane.

Além da performance acrobática do francês Cyril Raffaelli, que dispensa dublês e lembra o saudoso Bruce Lee, com movimentos de velocidade impressionante e muito contorcionismo, o maior destaque do filme vai para as seqüências em que o velho e bom McClane precisa agir para não morrer. O estilo de filmagem é visceral, com edição à moda antiga – câmera lenta, cortes estratégicos – e apenas retoques de CGI, um material musculoso que se equivale às melhores cenas de “007 – Cassino Royale” e “A Supremacia Bourne”, filmes com estilo semelhante. Numa dessas cenas, talvez o mais bem editado momento de ação de 2007, o detetive dirige um carro pela contramão, dentro de um túnel escuro, e derruba um helicóptero sem utilizar nenhuma arma. Como? Só vendo mesmo para crer.

É preciso comemorar, ainda, a manutenção do estilo “touro indomável” de John McClane, que não pára um segundo para pensar nas conseqüências do que está fazendo. Ele não é um patriota, um defensor da liberdade, um altruísta ao modo norte-americano, como grande parte dos heróis sobre-humanos que Hollywood tenta vender. Não é um agente secreto super-treinado, genial e implacável. É alguém humano, que está ali porque não tem escolha – e amaldiçoa os céus por causa disso. Um homem comum, que ouve desaforos da filha e apanha de mulheres, mas continua indo bem frente, um teimoso homem analógico vivendo num mundo digital que não compreende. Funciona.

O DVD de locação, da Fox, é simples e sem extras. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) é boa.

– Duro de Matar 4.0 (Live Free or Die Hard, EUA, 2007)
Direção: Len Wiseman
Elenco: Bruce Willis, Justin Long, Timothy Olyphant, Maggie Q
Duração: 130 minutos

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