Durval Discos

01/01/2004 | Categoria: Críticas

Filme de Ana Muylaert é leve e surreal, mas nunca caricato – e conta com algumas das melhores interpretações dos últimos anos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Durval é uma figura e tanto. Ele tem 40 e poucos anos e possui uma velha loja de discos de vinil, na legendária rua Teodoro Sampaio (lar dos músicos de bar de Sampa), no bairro de Pinheiros. Não tem amigos e mora com a mãe. Os primeiros 20 minutos de “Durval Discos” (Brasil, 2002), que apresentam esse cenário, dão uma impressão errada daquilo que se pode esperar do filme de Ana Muylaert. Aliás, melhor não esperar nada. Assista ao filme desarmado, sem expectativas, e prepare-se para se encantar com um dos melhores e mais despretensiosos longas-metragens nacionais dos últimos anos.

Durval (interpretado maravilhosamente por Ary França) lembra, a primeira vista, o protagonista de “Alta Fidelidade”, o romance/filme da lavra de Nick Hornby, ícone da geração de adultos infantilizados. Pois as semelhanças com o filme de Stephen Frears somem depois de alguns minutos. Durval não é uma criança crescida, mas um quarentão que o mundo moderno esqueceu – um dinossauro. Ecos de “Psicose” passam a dominar a película depois que entra em cena Dona Carmita (Betty Fraser, excepcional), a mãe mal-humorada do protagonista. Mas também param por aí.

Os dois são pessoas solitárias. Durval passa os dias tentando vender velhas raridades em vinil, enquanto a mãe cozinha para o filho. Com o público cada vez mais escasso, ele procura convencer a mãe a dar o braço a torcer e comercializar também CDs. Enquanto isso, os dois decidem contratar uma empregada, já que Dona Carmita anda esquecendo as receitas que sempre deliciaram Durval. É a chegada da mulher (Letícia Sabatella) que vai, sem querer, transformar a vida dos dois numa trama digna dos irmãos Coen.

É isso: “Durval Discos” teria orgulhado Joel e Ethan Coen, irmãos que estão entre os grandes autores do cinema norte-americano atual. A trama, bem ao estilo de “O Homem Que Não Estava Lá”, mostra como um acontecimento aparentemente banal pode criar um pequeno abalo no cotidiano de uma pessoa. Esse “pequeno abalo” fará a vida de Durval tomar um rumo insólito, quase surreal. O conto sobre o destino, numa grande metrópole, é narrado sempre com leveza e inteligência.

A direção de Ana Muylaet é nunca menos do que primorosa, sutil da primeira à última cena. A seqüência de abertura, aliás, já merece um destaque por si só: uma longa tomada sem cortes em que a câmera vai “encontrando” os nomes dos atores e da equipe técnica ao longo da rua Teodoro Sampaio (nos cardápios dos bares, nas placas das transversais etc.). Uma proeza técnica que ainda funciona para mostrar a geografia do típico bairro paulistano, palco perfeito para as estripulias de Durval.

A cineasta também extrai dos atores performances impagáveis. Ary França faz um Durval que fica sempre a um milímetro do caricato, mas jamais ultrapassa essa barreira. Está perfeito. O “timing” do ator com a parceira de cena, Betty Fraser, é fenomenal. O roteiro reserva surpresas que deixariam os Coen com inveja. E, para fechar com chave de ouro, a trilha sonora – 100% nacional – prova que o Brasil tinha rock e soul de primeiríssima da década de 1970. Filmaço.

– Durval Discos (Brasil, 2002)
Direção: Ana Muylaert
Elenco: Ary França, Betty Fraser, Marisa Orth, Isabela Guasco, Letícia Sabatella
Duração: 96 minutos

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