E Aí, Meu Irmão, Cadê Você

05/10/2004 | Categoria: Críticas

Road movie impagável vai em busca da alma do trovador norte-americano com canções e cenas impecáveis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Os irmãos Joel e Ethan Coen são donos do mais peculiar e impagável senso de humor entre os cineastas contemporâneos. Os dois apresentaram a obra-prima “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você” (Oh Brother, Where Art Thou, EUA, 2000) ao público internacional durante o Festival de Cannes, na França, sem informar a ninguém sobre o parentesco da obra com a “Odisséia”, de Homero. Alguns críticos notaram a semelhança e questionaram a dupla sobre ela, durante a entrevista coletiva que se seguiu. A resposta: não, o filme não fora baseado no épico grego. Eles nem sequer conheciam a “Odisséia”. O resultado da brincadeira é que muitos críticos despreparados escreveram sobre a incrível semelhança entre o enredo do filme dos Coen e uma das mais conhecidas obras da literatura ocidental.

O episódio é bastante ilustrativo. Primeiro, retrata bem a ignorância da uma generosa parcela de resenhistas cinematográficos. Porque não é preciso ser um gênio intelectual para deduzir que Joel e Ethan estão exercitando seu típico senso de humor, desta vez do lado de cá da tela, quando fingem negar uma coisa óbvia. Além disso, também demonstra a maneira zombeteira e desleixada com que criadores do nível dos irmãos Coen encaram a turba do maior palco de cinema do mundo. Demonstra, afinal, o estado em que a platéia dos filmes no século XXI se encontra atualmente: anestesiada, desatenta, quase burra, a ponto de não perceber uma brincadeira de dois dos meninos mais travessos e talentosos da Sétima Arte.

O filme dos irmãos Coen é uma delícia, um road movie empagável que celebra a história rural norte-americana. No coquetel alucinado de referências tramado pelos Coen, entram o esqueleto narrativo da “Odisséia”, casos pitorescos que pontuam o período dos anos 1930 nos EUA, a Ku Klux Klan e até lendas modernas de inspiração faustiana que Goethe teria orgulho em assinar. Tudo isso vem embalado em uma trilha sonora que carimba lugar instantâneo entre as mais belas que o cinema já foi capaz de produzir: uma coletânea impecável de canções country, blues e gospel do período, a maioria recriada por artistas que reverenciam o passado de modo fiel, capaz de deixar apreciadores desse tipo de música à beira das lágrimas.

A história narra a odisséia (sem trocadilhos) de Ulysses (George Clooney). O sujeito, um almofadinha que cuida obsessivamente dos cabelos com brilhantina francesa e touca, foge da cadeia com dois colegas a quem está acorrentado, Pete (John Turturro) e Delmar (Tim Blake Nelson). O objetivo do trio é cruzar o país para encontrar e desenterrar um tesouro enterrado, cuja localização Ulysses garante saber. A fuga é repleta de encontros impagáveis: um blueman negro que vendeu a alma ao Diabo para tocar violão melhor, Tommy Johnson (Chris Thomas King); um gângster violento, George Babyface Nelson (Michael Badalucco); um caixeiro viajante caolho, Big Dan Teague (John Goodman). Isso sem falar de belas lavadeiras que cantam com uma perfeição capaz de hipnotizar qualquer homem.

Trata-se de uma viagem divertida diretamente ao centro da alma do trovador norte-americano por excelência, retratada com perfeição até mesmo no ritmo lânguido e indolente da direção. A trilha sonora de T. Bone Burnett apenas realça esse choque cultural, enquanto outro colaborar habitual dos Coen, o fotógrafo Roger Deakins, entrega um trabalho revolucionário da concepção à realização. O filme, todo criado em tons marrons e verdes, foi digitalizado e teve o excesso de cores removido digitalmente, de forma a ganhar as tonalidades de uma plantação de milho. Ficou lindo.

Como sempre, Joel assina “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você” como diretor, Ethan tem o crédito de produtor e ambos dividem o roteiro. Não que isso importe muito, pois o filme é perfeito do começo ao fim, e tem lugar garantido entre os destaques de uma filmografia consistente como poucos autores são capazes no cinema norte-americano após a década de 1970. No DVD nacional, lançado pela Columbia, imagens e trilha de áudio Dolby Digital 5.1 foram respeitadas integralmente. O disco, contudo, não possui nenhum material extra.

– E Aí, Meu Irmão, Cadê Você (Oh Brother, Where Art Thou, EUA, 2000)
Direção: Joel Coen
Elenco: George Clooney, John Turturro, Tim Blake Nelson, John Goodman
Duração: 106 minutos

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