E o Sangue Semeou a Terra

29/10/2007 | Categoria: Críticas

Ecos bíblicos dão tom de tragédia atemporal à aventura clássica de Anthony Mann

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Anthony Mann foi o diretor responsável por uma pequena – e muitas vezes despercebida – revolução no gênero western, durante a primeira metade da década de 1950. Numa fase extremamente prolífica, em que assinou até quatro longas por ano, o diretor realizou uma série de cinco faroestes (1950-1955), sempre em parceria com o astro James Stewart, e catapultou o gênero para um novo e glorioso período. Anos depois, estudiosos assinalariam esses filmes como o marco inicial dos chamados westerns psicológicos, caracterizados por personagens menos arquetípicos e mais reais, quase sempre tendo que lidar com traumas do passado.

Embora todo mundo concorde que os faroestes de Anthony Mann são sempre muito bons, há controvérsias sobre qual dos filmes é a grande obra-prima que o cineasta realizou. “E o Sangue Semeou a Terra” (Bend of the River, EUA, 1952) está bem cotado nesta enquete. Boa parte da crítica contemporânea atribui a excelência da produção aos ecos bíblicos da história de Caim e Abel, também já explorada em “Winchester 73”. Associado a uma das especialidades de Mann, que é o uso das paisagens naturais para expressar os conflitos dramáticos dos protagonistas, este detalhe confere ao filme um caráter de tragédia atemporal. O resultado é uma aventura empolgante que funciona, também, como amargo acerto de contas entre “irmãos” que cultivam sentimentos ambivalentes sobre si.

O protagonista é Glyn (Stewart), um ex-bandido de fronteira que, regenerado, tenta se estabelecer como guia de caravanas que rumam para o oeste norte-americano, em plena febre do ouro. À frente de uma delas, Glyn salva um outro ex-assaltante de ser enforcado por rancheiros: Cole (Arthur Kennedy). Os dois não precisam trocar mais do que meia dúzia de palavras para se reconhecerem como colegas de profissão – e mantêm as bocas fechadas, porque sabem que se o passado de ambos vier à tona, precisarão arrumar outro trabalho. Mann usa todo o primeiro ato para estabelecer os personagens principais como renegados assombrados por um passado negro.

A diferença entre os dois é justamente a relação que cada um mantém com seu passado. Glyn, traumatizado, quer esquecê-lo; Cole acredita que isso é impossível. Por causa desta discordância, os caminhos de ambos serão separados, com uma ajudinha extra da cobiça, e os dois deixarão de ser irmãos para se tornarem inimigos mortais. Um deles se mantém firme na idéia de trilhar o lado certo da lei, ainda que precise enfrentar e vencer o prenconceito dos demais rancheiros para isto. O outro, ao contrário, imagina que mesmo os maiores esforços serão em vão, e que o passado jamais deixará de assombrá-los. Mesmo mantendo o respeito um pelo outro, eles se tornam inimigos. Para piorar a rivalidade, uma mulher (Julie Adams) entra no caminho de ambos.

Um dos elementos mais interessantes dos faroestes de Anthony Mann é o trabalho sólido realizado pelo diretor para estabelecer o perfil de cada personagem. Os outros grandes de Hollywood (John Ford, Howard Hawks) preferiam usar arquétipos: homens de caráter impecável e canalhas impiedosos, heróis e vilões claramente delineados. Mann preferia as áreas de sombra – para ele, o preto não era sempre preto, e o branco não permanecia branco o tempo inteiro. Os heróis do cineasta eram homens falíveis, capazes de errar, de se arrepender, de sentir medo e remorso. A veia mais realista do western tem em Anthony Mann o seu antepassado mais evidente.

Além disso, o diretor filmava com muita classe, aproveitando as locações para desenhar os conflitos internos dos personagens através da paisagem. “E o Sangue Semeou a Terra” se beneficia de ter sido fotografado em cor, ao contrário do que ocorreu por exemplo com “Winchester 73” (de 1950). O cineasta aproveita as belas paisagens desoladas (desertos empoeirados, rios agitados, picos enevoados) para oferecer ao público um vislumbre da alma melancólica de Glyn, ressaltando através do visual seu estado de solidão e o desejo, nunca saciado, de pertencer a um grupo. Belo filme.

O DVD foi lançado no Brasil pelo selo Classic Line. O disco contém apenas o filme, preservando o formato da imagem (tela cheia) e com áudio de qualidade razoável (Dolby Digital 2.0).

– E o Sangue Semeou a Terra (Bend of the River, EUA, 1952)
Direção: Anthony Mann
Elenco: James Stewart, Arthur Kennedy, Julie Adams, Rock Hudson
Duração: 91 minutos

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